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26/03/2017

A tese do “dinheiro inteligente” contra direita e esquerda (Merchior não era inteligente)


“O mercado se rege por critérios de eficiência e rentabilidade, não de justiça ou de equidade. Ele é um soberbo órgão de criação de riqueza, mas não um mecanismo competente de distribuição de renda.”  Duvido que alguém possa levar a sério esse pensamento. São frases com quase verdades, mas colocadas juntas assim, são mera ideologia. Empurram o leitor a uma conclusão tendenciosa.

Não é o mercado que cria riqueza. Talvez o mais correto seja dizer que o trabalho cria riqueza e não o mercado, mas a sociedade de mercado faz com que a produção e a distribuição de produtos se ponha como um potente organizador do trabalho e, então, nessa condição, a melhor forma de produção exponencial de riqueza que conhecemos.  Então, se é para levar a sério esse pensamos, e entende-lo de fato, temos de ser um pouco condescendentes com a sua falta de rigor e tomá-lo como dizendo o seguinte: só o mercado capitalista não vai gerar justiça social, é preciso alguma coisa a mais, ou então, esqueçamos a justiça. Se não é isso, é coisa parecida. Mas, se é isso, qual a novidade? Já não sabíamos disso?

Se temos uma sociedade de mercado, ainda que a mão invisível, apontada por Adam Smith, esteja presente mesmo, também foi ele, este filósofo moral liberal, que tratou de chamar o poder público para administrar certas coisas, como construção de pontes e escolas públicas etc. Ele sabia, como todo liberal sabe, que o mercado vai para um lado, e as necessidades públicas requerem especificidade de ação, que muitas vezes – não necessariamente sempre – vão para outro lado. Qual liberal inteligente não sabe disso? A disputa então não é sobre isso, mas sobre quem irá fazer o papel de melhorador da justiça social em uma sociedade de mercado que esteja mesmo colaborando na produção de riqueza. E aí, em termos históricos, três instâncias levantam a mão para se oferecerem: os impostos estatais, as empresas mesmas pela oferta de empregos e o chamado “dinheiro inteligente”, fruto do mecenato não só dos ricos, mas de todos que queiram ver seus projetos cuidados. O filósofo alemão Peter Sloterdijk tem mostrado a viabilidade e utilidade desse tipo de pensamento, não creio que possa discordar dele, não em termos gerais, filosóficos.

Creio que uma sociedade saudável não precisa ser regrada só pelos dois primeiros, mas pode muito bem respirar melhor e de maneira mais plural, espiritualmente rica e saudável, se tiver espaço para a terceira iniciativa. Uma sociedade que possa eleger projetos de saúde, instituições humanísticas, organizações educacionais, casas de arte, movimentos de baixo rendimento lucrativo mas necessários à melhoria espiritual, ações de desenvolvimento ecológico etc., geradas por gostos específicos de grupos maiores e menores, venha então a ter tudo isso patrocinado por esses grupos geradores. Desse modo, sendo obra dos que realmente querem tais coisas, fortalecem uma sociedade com uma coesão moral não dissociada da melhor maneira de fomento da vida individual livre. Uma sociedade que só acredita na justiça social por ordem da empresa privada ou do estado, está fadada ao cultivo da falta de iniciativa. Sem iniciativa individual pode-se ter muita coisa, mas não alguma coisa chamada de sociedade, é mais fácil ver nisso um conglomerado de mortos vivos. Irá se esfacelar pelo tédio ou pela catástrofe. Felizmente, não existem sociedades assim. Todas que conheço, não perdem a chance de colocar em prática o mecenato – e mesmo aquelas que não sabemos que assim fazem, assim fazem! Mas que poderíamos fazer melhor, poderíamos.

A frase com que comecei o texto é de José Guilherme Merchior, um quadro da direita que falava coisas com as quais só quadros da esquerda, de mesma inteligência, podiam dizer. Coisas com as quais o bom senso, como procurei apontar nesse texto, não dá para serem endossadas. Pessoas de partidos têm pouco a nos oferecer na hora que precisamos de soluções que utilizem a razão.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 31/01/2017

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2 Responses “A tese do “dinheiro inteligente” contra direita e esquerda (Merchior não era inteligente)”

  1. Joao Pedro Doriga
    01/02/2017 at 21:50

    A ideia de encampar o orgulho como fenômeno humano e buscar em seu subproduto um meio de reciclar a sociedade é interessante.

    A única sensação que tenho é que essa viragem é uma forma de subir na cabeça do mostro e se posicionar entre suas cabeças a ponto de evitar que seja devorado.

    Mas, o mostro continua ali com toda sua onipotência, embora infectado por um parasita auspicioso.

    • 01/02/2017 at 21:54

      João, não é subproduto: nenhum soldado grego, realizado em Atenas ou Esparta de modos diferentes, idealizado por Platão em A República, tinha o orgulho com o subproduto. A ideia básica é a seguinte: só mantemos o que criamos ou o que estamos em acordo sentimental, o que nos orgulhamos de manter e/ou criar. Filosoficamente uma sociedade timótica é melhor que uma comandada pelo amor, pois o amor, com eros, é carente, é falta. Uma sociedade não deve ser regrada pela falta.

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Filósofo