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13/11/2019

Nas entranhas do atentado de Paris


Enquanto o personagem William Waack luta desesperadamente para passar a mensagem dúbia, que confunde islamismo com terrorismo de modo ideológico-proposital, a esquerda que, enfim, é seu espelho invertido, diz que o recente atentado em Paris é culpa dos Estados Unidos. Vejam os posts do Cesar Benjamin no Facebook (ele já foi candidato do PSOL). Alguns até dizem que a França também tem culpa. Intelectual de esquerda não pode admitir culpa da França, prefere a dos Estados Unidos. Mas, como a ideia é falar do “Ocidente” em geral, tudo serve para aumentar o pacote da tese do “imperialismo”. O caso é simples, nessa narrativa: as vítimas viram algozes. 

Fico contente se no meio dessas opiniões ideologizadas, incapazes de análises mais sofisticadas, aparecerem jovens dispostos a pensar.

Os Estados Unidos de Obama não são os Estados Unidos de Reagan ou de Bush pai e Bush filho. Há uma preocupação a mais, hoje em dia, de não distribuir armas para grupos extremistas e há uma preocupação visível em não entrar com tropas, e sim com drones, nos territórios dominados por terroristas. Iraque e Afeganistão mostraram o quanto isso é complicado. Além do mais, os terroristas não conseguem armas sempre com a CIA. Esse mito é uma conversa que sobrou dos tempos da  Guerra Fria. A CIA havia feito Fidel Castro etc. etc. Verdades pequenas cresceram por motivos ideológicos e viraram mitos para enganar aqueles mesmos que a contaram.

O terroristas conseguem armas porque seus líderes são ricos. Fábrica de arma, mercado de arma, não tem nacionalidade. A comunidade mobilizadora de dinheiro em favor de “causas” do terrorismo não é pequena, consegue arma em todo canto – inclusive do Brasil. Todos os grandes líderes do terrorismo até hoje foram pessoas que tiveram vida de playboy no Ocidente, e vieram de famílias que já exerciam a liderança em algum lugar dos seus países de origem. E há muito o treinamento militar no mundo não é feito pela CIA, como na Guerra Fria, mas por mercenários que se espalharam por todo canto, gente cuja profissão é a de Worrior. Isso não é coisa de cinema apenas. O número de guerras no mundo vem deixando um lastro de escolas de formação de combatentes maior do que se imagina.

Se há alguma culpa dos americanos e, agora, europeus, nos ataques, ela advém de certos dizeres de seus governos. De fato, mentem para a população ocidental, dizendo que há possibilidade de manter seus países seguros. Não há. E que não se pense que uma democracia com menos direitos, mais acessível à polícia política, resolve. Ao contrário, piora. Coloca a população paulatinamente a favor do elemento inicialmente estrangeiro, isso quando não cria um sistema de opressão que deixa o terrorismo como um segundo mal. Agora, qual governo admitiria de público que não tem condições de dar segurança para sua população? O presidente que disser isso ouvirá do outro lado o oportunismo do candidato adversário dizendo-se ser competente para tal.

Qualquer pessoa pode carregar uma bomba no meio da Europa ou dos Estados Unidos, durante muito tempo, e dar uma de suicida em lugares públicos. Nenhum europeu e nenhum americano conseguiria viver como vive a população de Israel, ou seja, há  trinta anos sempre evitando aglomerações, reuniões etc. Nenhum país do mundo tem o chamado cidadão-soldado, como Israel. Aliás, ninguém quer ter. É dispendioso e cria uma tensão interna que só os judeus de Israel, por razões históricas, suportam. Os jovens da classe média do Japão, da Rússia, de todos os países da Europa central, querem se livrar do serviço militar, e com razão. O mundo do conforto e do mimo é um mundo já estabilizado (Peter Sloterdijk). Só os americanos criaram uma cultura de guerra capaz de policiar o mundo. Mas eles também já não querem mais fazer isso. O país está mais plural, mais latinos e negros mandando e reivindicando, e a ideia de manter o imperialismo para favorecer a exportação da democracia de modo a universalizá-la já não conquista mais os jovens. A classe média do mundo todo quer celular, sexo rápido, boa casa e boa comida, cinema, baladinhas e, não raro, maconha para uns e cocaína para outros. E agora também as moças querem isso, o que faz de fato todo mundo querer isso. A leveza. O mundo da leveza veio para ficar, inclusive como modelo para os pobres. A cidade de Esparta não é modelo para ninguém, só mesmo para os israelenses, e ainda assim, com problemas também já visíveis nas últimas gerações.

Toda essa leveza não conquista o mundo não ocidentalizado como um todo. Ao contrário, há bolsões que resistem e que, enfim, até conseguem ganhar os ocidentais jovens mais dispostos à vingança, ao moralismo barato, aos hormônios intempestivos e, enfim, à busca de uma verdade única. São jovens ocidentais que vão para o mundo do terrorismo, querem viver sob o mundo do peso, talvez porque no Ocidente o mundo leve havia se tornando um peso. Afinal, há expressão que mostra essa possibilidade: “a insustentável leveza do ser”. Mitos são os que acham que, se as coisas estão adquirindo menos peso, então é sinal que se está no caminho errado. Afinal, como que a Terra não é um total vale de lágrimas? Os que pensam assim, no Ocidente, e se deslocam para o terrorismo, são pessoas que não possuem tradição com o Islam e, por isso mesmo, podem aprender o islamismo em manuais que já são manuais nada islâmicos, mas apenas doutrinas de guerra. É sempre assim: religião não se aprende, se vive. Quando aprendida em lições, leva ao fanatismo. Ou seja, já é desde o início fanatismo. Cada palavra do Alcorão, para quem não tem a vivência histórica, soa como uma superficial ordem a ser cumprida em moldes da ação-com-vistas-a-fins, a razão instrumental (Horkheimer) ou a racionalidade (Weber) e, então, não raro, se torna mandamento de ação. É por isso que os “convertidos” são sempre os mais fanáticos e violentos. São Paulo foi um “convertido” e, por isso mesmo, deu ao cristianismo caráter universal e, depois, imperialista. Convertidos ao “Islã” funcionam também segundo esse exemplo. Muitos são os que não conseguem seguir uma religião, mas precisam ser convertidos e, então, para manter a conversão como o correto, converter outros. É aí que o terrorismo tem sua maior força.

Se pudermos ir por essa via de raciocínio, sairemos do mundo de uma esquerda que imagina que tudo se resolve com um prato de comida, pois o terrorismo seria sinal de miséria – o simplismo do raciocínio que tem seu representante, no Brasil, em Lula e sua trupe. Também deixaremos de lado tipos como William Waack, que adorariam ver a casa dos outros invadida por uma policia universal comandada por Donald Trump.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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23 Responses “Nas entranhas do atentado de Paris”

  1. LMC
    17/11/2015 at 15:33

    O Waack tem mais cara de
    social-democrata europeu do
    que de fã do Trump.Quem
    gosta mesmo do Trump é
    o titio Pondé.

    • 17/11/2015 at 15:36

      Waak social democrata? ha ha ha

    • LMC
      18/11/2015 at 10:59

      É,naquele estilo Tony Blair,
      Gerhard Schroeder e Felipe
      Gonzalez.

  2. Ícaro
    16/11/2015 at 00:27

    Qual o porquê da mídia( tv aberta no brasil) não trazer reflexões sobre esses tipos de atosv? Ao invés disso usam termos simplórios que acabam por “travar” o pensamento do expectador.

    • 16/11/2015 at 00:50

      Icaro a TV é orgão de massas, ela vende o que faz e, então, precisa atingir as pessoas. O Jornal Nacional está acima da média de entendimento do brasileiro.

    • LMC
      16/11/2015 at 09:59

      E o Jornal da Globo,também.
      Pra variar,o Nassif e sua
      turminha adoram malhar o
      Waack na Net.Com o nosso
      pobre dinheirinho,claro.Só
      rindo,mesmo.

  3. Rafael Vedoy
    14/11/2015 at 21:59

    Paulo, a França se orgulha de seu desarmamento. Isso não tornou o país mais seguro. Será mesmo que o cidadão armado é mais perigoso pra ele mesmo?

    • 15/11/2015 at 03:15

      Rafael, sinceramente, eu não acho que você está se dedicando a desenvolver seu cérebro. Já escrevi bastante sobre isso, ou seja, armas. Leia. Dá para você aprender sim.

  4. Manoel lucas Marthos
    14/11/2015 at 19:50

    O apresentador de telejornal que não se percebe Face Mouro.

  5. Maximiliano Paim
    14/11/2015 at 19:16

    Lembrei da psicologia das massas do Freud. É muito óbvio?

  6. julia
    14/11/2015 at 17:49

    A França tambem é vitima mas todos os dias pessoas morrem e a midi nao da tanta relevancia. A sociedade nao esta preocupada com o humano ma com o humano “importante”

    • 14/11/2015 at 18:44

      Julia, claro que não. Antes do homem existe o homem como valor. Somos seres que valoram. Sacou?

    • Julia
      14/11/2015 at 21:37

      Você diz que esta opinião está sendo valorativa ao dizer que a sociedade se preocupa mais com uns do que outros?

    • 15/11/2015 at 03:16

      Julia, qual sociedade ou qual grupo não faz isso. Cada um com seus feridos. Não somos amantes da Humanidade, somos amantes de Paulo ou Maria.

    • Matheus Kortz
      15/11/2015 at 10:12

      Paulo,entao aqueles que se esforçam para amar a humanidade seriam o quê? Filhos velhos de uma readuçao humanista, românticos, lunáticos, ou aqueles que tentam ampliar seu horizonte de sensibilidade?

    • 15/11/2015 at 12:10

      Alguém ama a “Humanidade”?

  7. leon mattos
    14/11/2015 at 14:45

    Professor, para se buscar uma melhor compreensão do terrorismo atual o senhor recomenda qual leitura?

    • 14/11/2015 at 14:49

      Leon, eu estou fazendo o meu melhor. O que tenho apresentado acho que dá bem uma ideia. Veja um artigo de Richard Rorty logo após o atendo de Bin Laden ás Torres Gêmeas, deve esta na Folha.

    • Matheus Kortz
      14/11/2015 at 16:09

      Procurarei esse artigo do Rorty… Paulo se a raiz do fanatismo, que pode dar vasao a essa necessidade de “verdade” baseada rm moralismo barato, podemos dizer que convivemos com elementos de fanatismo desde o inicio do Cristianismo como conversao compulsória? Quer dizer entao isso seria boa parte do que é o Ocidente e entao estariamos mesmo complicados em superar essa situaçao?

    • 14/11/2015 at 18:46

      Xiii, a história da verdade é longa.

    • leon mattos
      16/11/2015 at 16:55

      Agradecido professor!.Saliento a falta que suas aulas na rural me fazem! de longe, o professor que mais fazia os alunos saírem do lugar comum e exercitar o pensamento próprio! no mais ótimas ánalises sobre esse mal atual.

    • 16/11/2015 at 17:55

      Leon, estou para aposentar da Rural, mas continuo no CEFA e no HOra da Coruja. E há gente do Rio que vem para cá! Venha. E participe também online dos hangouts.

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