Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

29/03/2017

A terrível revelação do caso Neymar


O episódio Neymar confirma o que a filosofia pode dizer dos nossos tempos, os “tempos de FIFA”. Isso não só pelo que a FIFA faz por meio de sua legislação, mas pela mentalidade que ela ajuda a criar e se esforça muito em manter. A ideia básica é esta: não há jogadores e ídolos, só há o entretenimento enquanto espetáculo padronizado, supranacional e acima do espiritual – acima da vida. O que há de seguro acima da vida, que é contingente e, então, descartável. As subjetividades se expressam nesse sentido, ao comentarem o ocorrido com o Neymar.

Tudo que se fala é sobre o espetáculo e em função do espetáculo. “Que pena que Neymar não vai poder jogar na Copa feita em seu país”, “o Brasil tem condições de ganhar sem Neymar”, “agora há uma desculpa se perder”, “é do jogo de futebol se machucar”, “a Copa perde muito sem Neymar, mas os jogos continuarão fazendo um grande certame” e por aí a coisa anda e desanda. Pouquíssimos comentários assumem o que ocorreu. Não se pode assumir. O que ocorreu é que Neymar passou perto não de ficar sem jogar um bom tempo, mas de ficar sem andar pelo resto da vida. É isso que não pode ser dito. Não porque as pessoas ficaram más, mas sim porque as pessoas não estão diante de nada que pode ser desviado do seu curso: o que é traçado pela nova divindade, a FIFA.

Poucos se lembram de dizer o que todos diriam em qualquer outra época. Pois todos estão envolvidos em um espetáculo em que o que há de vivo se tornou secundário. Os poucos humanos que podem ali estar jogando, também já foram descorporalizados à medida que também desespiritualizados. Não há jogadores e atletas. Não são homens-máquinas, como no início dos tempos modernos enquanto tempos esportivos. São fantoches do evento padrão, que se mostra como um espetáculo que funciona como O Que Está Escrito Nas Estrelas. A Lei da Copa diz muito isso: depois de iniciado, nada pode desviar o evento. Nada. Nem dentro e nem fora do estádio. Não há o que mereça mais atenção que o curso do evento.

A própria não discussão do “assunto Neymar” do ponto de vista humano é significativa. A grande discussão sobre a mordida do colombiano e sua punição e, ao mesmo tempo, a nenhuma sobre o Neymar, mostra claramente o tipo de evento que fabricamos: algo já sem qualquer vínculo com a esportividade. Não se está diante da satisfação da demanda pelo lúdico. Nem mesmo se está diante da satisfação da demanda por sangue, como seria o caso da arena de gladiadores. Nem é algo da famigerada e agora tola acusação de “pão e circo”. Nada disso. O que existe é simplesmente a satisfação do que a FIFA criou como sendo o que é necessário para todos nós. Precisamos viver os dias da Copa como dias ininterruptos. Só isso importa: há algo na Terra que funciona segundo a ordem de Deus e, por isso, NUNCA é arranhado, nunca ocorre com altos e baixos, nunca é vítima de algum elemento de desorientação. Tudo é reto. Essa força do que é de Deus é a forma da FIFA agir com seu evento. Isso nos repõe a segurança em um mundo inseguro.

Em um mundo em que crenças se foram, que políticas ligadas a grandes narrativas não são mais paixões, em que ideologias como falsa consciência se diluíram tanto quando doutrinas conscientes, o que sobra para nos agarrar? Uma prática de Deus. Uma prática que se mostra como o que não é arranhável. Só isso pode nos dar a sensação de que há algo indestrutível. A Copa acontece. Acontece aconteça o que venha a acontecer.

Um pouco de reflexão e poderíamos ver no episódio de Neymar o que está ocorrendo em nós todos enquanto compradores e mantenedores de algo como a FIFA, mesmo que, diante dessas mudanças todas talvez não possamos fazer nada.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

A força desse moto continuo da FIFA é algo tão tenaz, que vocês verão a reação dos leitores. Uns, mais tolos, não entendendo nada, irão dizer: “ué, você queria que a Copa parasse?” Outros, talvez menos tolos, mas já completamente dominados pelo que vivemos e o que eu denuncio no texto, não entenderão que Deus não é outra coisa senão a continuidade, a segurança de continuidade. É isso que buscamos em Deus ou qualquer coisa do tipo: quereow que exista algo que funciona, que se faz e que não está sujeito a “não dar certo” ou acabar.

Tags: , , ,

9 Responses “A terrível revelação do caso Neymar”

  1. 11/11/2015 at 23:50

    Parabéns pelo conteúdo do site!

  2. juniN
    06/07/2014 at 22:48

    Depois vc me vem defender a globo, aquela máquina de lavagem cerebral! FIFA é o de menos por aqui.

    • 06/07/2014 at 23:08

      PRIMEIRO QUE É SER MUITO tolo falar da Globo nesses temos dos anos 60, segundo que eu não defendo a Globo e você não sabe disso porque mesmo me lendo, não entendo. Terceiro que você não é capaz de entender que o que falei da Fifa pouco tem a ver com Fifa em si, como empresa. Você já veio aqui comentar várias vezes, nunca acerta uma. Vá embora, estou buscando leitores não imbecis.

  3. edna
    06/07/2014 at 12:49

    Até o final do texto, eu estava admirando e refletindo. Quando o autor começou a se defender – antes mesmo de receber críticas – e dividiu as pessoas do mundo em tolas, menos tolas e ele (o único não-tolo), o texto perdeu seu sentido, porque não existe maior tolice do que a arrogância…

    • 06/07/2014 at 16:46

      Edna meus textos não são para você, não volte mais no Blog. Sacou? Quem não sabe o que é um post scriptum e como ele nasce não pode vir aqui. Não venha. Não volte. Os meus textos são feitos para gente com capacidade de leitura. Se você fosse uma boa leitora o post scriptum NÃO a tocaria. Tocou? É que você já havia caído no erro ali denunciado. Adeus! Adeus heim! Não volte.

  4. Luma
    05/07/2014 at 23:50

    Eu estou chocada com essa situação. E o que mais me impressiona é o fato de que as pessoas que normalmente acompanham futebol não terem percebido o perigo daquilo que aconteceu, muito pelo contrário, estão aceitando com bastante naturalidade. Além disso, tem aquelas pessoas que nunca veem nada de futebol e acham que podem entender alguma coisa com base no que estão assistindo nessa copa (nesse futebol Padrão-FIFA que já provou ser uma droga). É muita pancadaria em vários jogos e ninguém pensa na proteção da vida dos jogadores em lances como esse que aconteceu com Neymar. Estão todos cegos, assim como fanáticos religiosos.

    • MARCELO
      07/07/2014 at 16:30

      Já repararam que,em todos os
      lugares que você vá,tem essa
      overdose de verde e amarelo,
      como se estivéssemos na
      campanha do Collor de 89?
      Parece a Fox News na
      Guerra do Iraque.Patético
      e ridículo!A Fifa manda
      mais que a Dilma no Brasil.

  5. Evandro
    05/07/2014 at 22:44

    Certo.
    Mas em meio a esta eterna tentativa de não encarar a finitude, há uma dimensão estética irrompe para todos que vêem esgotar o sentido disso tudo!

    http://www.ft.com/cms/s/2/50ceddac-023c-11e4-ab5b-00144feab7de.html#axzz36Wh0nKxA

  6. 05/07/2014 at 21:47

    Momento anedótico: em publicidade recente da Nike, “os maus” tem a ideia de substituir os jogadores reais por cópias robóticas, nesta publicidade o magnânimo Ronaldo se indigna com a situação e junta os maiores craques humanos do mundo para derrotar suas cópias robóticas, obviamente é isso que acontece (o comercial é conhecido), lá eles aparecem como os salvadores do futebol, agora estão fazendo a mesma coisa e logo quem está do lado dos maus o Ronaldo! Dês do filme do Blatter nós vemos como esse pessoal usa pequenas ficções para se promoverem como heróis.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo