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16/12/2017

Teorias da Verdade e Peter Sloterdijk


Há um caminho pragmatista na concepção de Sloterdijk da verdade?

Não há algo mais banal que a verdade. Ao mesmo tempo, trata-se de uma palavra com a qual denominamos nada mais nada menos que Deus. Deus é a verdade, dizem os devotos. Alguns preferem fazer distinções de modo a não comprometer nem a verdade e nem Deus, então usam “verdade” como alguma coisa de ordem metafísica (ou mesmo mística) e deixam para usar no cotidiano o adjetivo “verdadeiro”. Estabelecem traçados paralelos (sendo então, ambos legítimos) de duas tendências filosóficas aparentemente distintas, a tendência metafísica e a tendência positivista, em particular o positivismo-lógico ou, de modo mais amplo, a filosofia analítica. Para esta última só cabe falar em verdade como um qualificativo de enunciados. Diz-se de uma proposição que ela “é verdadeira” ou “é falsa”. Busca-se com isso a desinflação metafísica ou ontológica da noção de verdade.

De um modo geral a filosofia contemporânea endossa essa ideia da filosofia analítica. Após tantas críticas de Nietzsche à verdade, uma boa parte dos filósofos atuais vê com bons olhos essa solução dada pela filosofia analítica. A discussão entre Richard Rorty e Donald Davidson a respeito do tema ilustra bem isso. Rorty segue Nietzsche e radicaliza as propostas de Davidson, estabelecendo os usos linguísticos que fazemos dos termos “é verdade” e “é verdadeiro”.[1] Davidson responde a Rorty afirmando que ele próprio diz até menos para poder dizer mais, pois acredita que não podemos sequer ter uma linguagem sem o termo “verdadeiro”, pois se trata de um “conceito primitivo”. Ambos concordam que a verdade não se explica sem que se caia em círculos. Quando queremos dizer o que ela é recorremos à noção de significado e quando vamos explicar a noção de significado não conseguimos outro caminho senão envolver o termo verdade. [2]

Essas formulações de Davidson e Rorty surgem porque todas as noções tradicionais de verdade dão problema. As teorias de verdade são sustentáveis só em parte, ainda que não possamos abrir mão de nenhuma delas.

As teorias da verdade que temos são basicamente três: correspondência, coerência e pragmatista. As duas primeiras se baseiam na ideia de adequação, a última adota a funcionalidade. Nas duas primeiras trata-se de obter, respectivamente, a adequação de um enunciado com o que se denomina realidade ou fato (correspondência), e a adequação entre um enunciado e um conjunto de outros enunciados já aceitos (coerência). Na terceira trata-se de usar o termo “é verdadeiro” como um “expediente” (William James) para se lidar com enunciados e situações no plano intelectual, de modo equivalente ao que se faz com “é certo” no plano moral.

Resumindo ao máximo: na correspondência ou na coerência vale a regra “Pitoko está no tapete” (S) é verdadeiro se e somente se Pitoko está no tapete (s). A diferença entre as duas é quanto à checagem do enunciado para qualifica-lo de verdadeiro ou falso. O adepto da visão correspondentista quer checar a frase com a realidade, o fato; a versão coerentista quer fazer a mesma coisa, mas admoesta o primeiro de que “a realidade” ou “o fato” só são acessíveis por meio de enunciados que o descrevem, ou seja, que s só é conhecível por meio de S, e então por meio de outros enunciados que coadunam com S. O realista revida dizendo que pode haver um conjunto de frases todas coerentes umas com as outras formando um todo racional e inteligível, mas completamente mentiroso. Por sua vez, o pragmatista busca antes se desviar do problema do realismo, que envolve correspondentistas e coerentistas, que solucioná-lo. Nem acha que há solução, diz que é um falso problema, pois “é verdadeiro” é algo do uso como quem lida com as coisas, como uma expediente para empurrar a vida, um dispositivo para o bom relacionamento comunicacional. Assim, se queremos saber se o “Pitoko está no tapete” é verdadeiro, então não temos que ficar olhando para os valores de verdade do enunciado, que são dois, falso ou verdadeiro, mas temos que, se não confiamos na visão ou se não confiamos em quem nos conta o caso, ver outros mecanismos de checagem. Por exemplo, podemos perguntar para mais pessoas confiáveis sobre “Pitoko está no tapete”, e então apostar numa das respostas (aí cada uma daria uma resposta segundo sua expertise: alguns olhariam acuradamente, outros diriam que iriam poder dar uma resposta boa se tivessem mais pessoas confirmando o que ele vê etc.). Em outras palavras: o pragmatismo opta por uma via epistemológica para lidar com a verdade; Quer satisfazer a comunicação e obter consequências úteis nas suas perguntas. Assim, a verdade envolve investigação e conhecimento, enquanto que o realista (na forma correspondentista ou coerentista) parece acreditar que podemos deixar o “querer saber” de lado e nos atermos unicamente à lógica dos enunciados. Por si mesmos, eles nos dariam condições de dizer “falso” ou “verdadeiro”.

Aliás, os realistas (correspondentistas e coerentistas) dizem que o pragmatismo estraga a lógica presente nos enunciados ao enfiar procedimentos que dizem respeito à epistemologia na conversa sobre a verdade. Uma coisa seria a investigação das condições lógicas de uma proposição ser verdadeira” ou falsa, outra coisa bem diferente seriam as regras epistemológicas para cada sujeito ou agente vir a aceitar um enunciado como verdadeiro ou falso. O pragmatista não se preocupa muito com essa objeção porque ele desacredita que exista alguma coisa que valha a pena descobrir na “lógica a respeito de enunciados” – isso não mudaria em nada as decisões que tomamos, pois para tomar uma decisão de aceitar que “Pitoko está no tapete” iremos sempre por investigações, sendo o objetivo nada alem deste: é bom ou verdadeiro o conhecimento que nos faz encontrar o Pitoko sobre o tapete.

Essa conversa é inconclusiva. Dificilmente conseguimos nos convencer inteiramente de um lado só, excluindo o outro.  Alguns filósofos continentais chegaram mesmo a se cansar de conversar sobre a verdade da história e passaram a investigar como é que é a história da verdade. Foucault se dedicou a isso. Atualmente, Peter Sloterdijk tem algo a dizer sobre essa via de abordar o tema.

No livro Sphären I, principalmente no excurso 8 [3], ele desenvolve sua tese sobre a noção de verdade. Começa dizendo que há duas grandes tradições na história da Europa de como apresentar a verdade. Uma primeira seria a que diz respeito à adequação. Emparelha-se um pensamento ou enunciado com o que é referido pelo enunciado no mundo, a coisa ou o fato ou ocorrência etc. A segunda ainda é da ordem da adequação, mas envolve uma espécie de moldagem ou formatação após a absorção de algo. Caso a formatação ocorra a contento na absorção, eis então a verdade. A regra aí não é o emparelhamento para testar correspondência, mas o engolir, o comer, o devorar de modo a envolver e ser envolvido e então produzir um novo produto.

Se eu quero saber se “Pitoko está no tapete” é uma verdade, faço o emparelhamento entre o enunciado e a minha percepção do Pitoko em cima do tapete. Mas se quero ouvir música verdadeiramente tenho de me deixar envolver pela música, embrenhar-me nela, entrar em simbiose e deixá-la moldar-me por conta de atravessar meus poros, minha alma. Sinto-me renovado nisso. Quando quero salvar minha alma verdadeiramente tenho de engolir a hóstia e, tendo me purificado antes por meio da confissão, deixar o alimento sagrado penetrar em meu corpo, fundir-me com ele de modo que até minha alma seja atingido por ele que, afinal, é o Corpo do Senhor. Sinto-me renovado nisso.

Essa segunda tradição, a da verdade como o que se come, como o que é absorvido e que ao mesmo tempo absorve, é tomada por Peter Sloterdijk também como um modelo de adequação. Concordo com ele, mas coloco minhas fichas na mesa dizendo que há algo da terceira teoria da verdade nisso aí, que a teoria pragmatista. Pois a teoria pragmatista não está preocupada com a representação do real, mas está preocupada em obter uma consequência no mundo, prática, sendo que uma tal consequência pode ser atribuída ao verdadeiro. O que importa para o pragmatista é achar o Pitoko, e se várias pessoas dizem que “O Pitoko está no tapete”, e tais pessoas que assim afirmam são razoáveis e confiáveis, ele aposta então que o enunciado “Pitoko está no tapete” é o enunciado no qual ele deve apostar. Nesse caso, pode dizer que esse enunciado “é o bom” ou “é verdadeiro”. A perspectiva de se envolver e de deixar-se formatar, como Peter Sloterdijk diz, é da ordem antes das consequências do que da representação. Ora, isso tem a ver com o pragmatismo. Quem ouve música e quem come a hóstia está pegando o caminho que acredita o melhor para se transformar, a via que permite que se possa dizer, então, “estou mais verdadeiro agora”, renovado. Ou então: “participei da verdade uma vez que ouvi música verdadeiramente, e a música é a minha verdade”. Ou ainda: “participei da verdade uma vez que comunguei verdadeiramente o Corpo do Senhor, e o Senhor é a minha verdade”.

Bem, se posso ler Sloterdijk dessa maneira, então cabe acompanha-lo para ver as origens dessa segunda forma da noção de verdade, a não representacional. As origens da atitude pragmática quanto à verdade.

A filosofia de Sloterdijk é guiada pela frase “Dasein ist designer”, como Bruno Latour gosta de dizer sobre seu colega. Ou seja, o ser-aí heideggeriano é mais que o ser-aí de Heidegger, é um criador de ambientes, um arquiteto de interiores. Ele participa da criação de um ambiente interior, uma esfera. Uma primeira esfera é o útero. Ela é o primeiro interior construído pela mãe e, rapidamente, continuamente reconstruída pela mãe e pelos habitantes internos do útero. Nesse ambiente de simbiose estabelece-se o início da história da subjetividade.

Da maneira mais breve possível, eis a trajetória.

Estamos no útero, ou melhor, há algo no útero que mais tarde diremos que éramos nós. Lá somos parte de outro ser e o outro é parte de nós. Tudo ali são não-objetos (Thomas Macho), pois nada é ainda um objeto e não há ali um sujeito. Nem sabemos onde começa um e termina o outro, quando já podemos falar nessa esfera de ao menos dois polos (feto e elementos placentários), e não podemos mesmo saber isso nessa esfera que é real e ao mesmo tempo surreal; surreal porque a esfera, como conceituada por Sloterdijk, é o lugar em que dois corpos ocupam o mesmo espaço. Ali, no ambiente uterino, recebemos alimento sem esforço. Depois, imediatamente fora, quando do nascimento, já que somos contínuos designers de interiores, então recriamos a esfera por meio do acolhimento da mãe. Ela abre os braços e nos coloca novamente em simbiose com ela. Na sequência, recebemos alimento. Logo depois o fazemos por meio de um chamado mágico: emitimos sons e o leite vem num bom seio enquanto nosso corpo é acolhido pelo corpo da mãe, que imita a caverna de onde viemos (na ontogênese, mas também na filogênese). Por fim, gememos mais um pouco, e eis então que o leite, um determinado dia, não vem; é necessário movimentar a boca, segurar a mamadeira – a mágica foi substituída pelo início do esforço. Surge o trabalho. Força-se o surgimento do sujeito, uma vez que o sujeito é esforçar-se. A felicidade (do prazer do alimento) deixa de depender de mágica e passa a depender do trabalho. Eis que está pronto o lema moderno: quem não trabalha não come, não tem direito à felicidade.

Se entendermos essa passagem do excurso 8 de Blasen (Sphären I) de Peter Sloterdijk, damos um passo imenso para entendermos que simbiose, mágica e trabalho são sequências; efetivamente são todos meios (meio ambiente) de preenchimento da esfera, o local da ressonância. É a ressonância que estabelece a esfera. Ressonância entre polos que só podem ser mencionados porque o meio se faz e se mantém: o líquido amniótico, a mágica, o esforço. O sujeito se faz, então, em conjunto com uma noção de verdade poderosa, a que vem da moldagem, formatação e, é claro, esforço. Vem da continuidade da práxis, pragma, de tudo que é o meio em suas consequências. A protohistória da subjetividade é, então, a protohistória da verdade, ou ao menos de uma noção de verdade, a que envolve consumação.  

A noção de verdade do pragmatismo é isso: um expediente para que possamos nos manter no mundo, lidar com ele, satisfazer interesses, ter mais controle sem mágica. Não saberíamos fazer isso se não tivéssemos sido desde sempre conformados à situação de simbiose e ressonância entre dois polos, como eternos gêmeos siameses, ou seja, como quem nasce com um “instinto de relação”, como diz Martin Buber. Nascemos com um “instinto de relação” porque nunca experimentamos a sensação de ser um, pois sempre fomos dois-em-um. A relação nos é inerente. Só se pudéssemos viver fora da esfera, seríamos um, mas não fazemos isso. Dasein ist designer.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

[1] Ghiraldelli Jr., P. O que é pragmatismo. São Paulo: Brasiliense, 2007, pp 115-124.

[2] Ghiraldelli Jr., P. Introdução à filosofia de Donald Davidson. Rio de Janeiro: Luminária, 2010. Ver também: Davidson, D. Ensaios sobre a verdade. São Paulo: Unimarco, 2002.

[3] Sloterdijk, P. Spharen I. Blasen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1998, pp. 532-542.

Gravura: Pitoko no tapete, Arraial do Cabo, 2010.

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5 Responses “Teorias da Verdade e Peter Sloterdijk”

  1. Eduardo Rocha
    30/07/2017 at 15:48

    Paulo reparei que o seu livro “Para Ler Sloterdijk” é da editora Via Veritá. Nome que foi baseado em um antigo conto: “La Bocca della Verità” (ou A Boca da Verdade). Ele trata de uma antiga escultura de mármore localizada em Roma na Itália. Segundo o conto, se alguém contasse uma mentira com a mão dentro de sua boca, ela se fecharia “mordendo” a mão do mentiroso. Como se a verdade estivesse numa esfera interior (como algo que é consumido ou absorvido). Um verdadeiro detector de mentiras. A Via da Verdade acredita na busca do conhecimento, onde a verdade se encontra mais no caminho. Como se as duas metades tivessem que manter u intercâmbio entre si. No próprio Esferas I de Sloterdijk ele menciona a “Boca do Inferno” quase uma experiência mística.

    • 30/07/2017 at 16:28

      A verdade não está nem no sujeito e nem no objeto, mas no meio, dizia Adorno. Não é o que Sloterdijk diz, ele faz outro e inusitado trajeto, ainda que sua filosofia seja uma filosofia do meio, da mídia, do líquido amniótico, do duplo que forma um.

  2. PAULO ROBERTO MORAES DE MENDONÇA
    04/06/2016 at 12:07

    Paulo, o desenvolvimento de sua reflexão sobre a questão da “verdade” é primorosa; não obstante o caráter sintético do texto. Mexeu bastante com minhas convicções sobre “verdade”. Despertou-me a conhecer e ler mais os autores referenciados no texto. Excelente!

    • 04/06/2016 at 15:17

      Paulo o tema é mais trabalhado em outros artigos e livros meus, mas sem o Sloterdijk, só com as posições do deflacionismo.Obrigado por ler.

  3. 03/06/2016 at 16:23

    Paulo, seu texto é ótimo! É impressionante como em poucos parágrafos você fez eu reviver todo o Esferas I de Sloterdijk e ainda me explicou da forma mais simples possível o que está na base do seu termo “antropotécnica”.

    Vou guardar esse texto.

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