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28/04/2017

Teoria do rosto e selfie


Artigo para hangout do CEFA e também para encontro presencial no III Encontro de Sloterdijk, no carnaval de 2015. 

Vivemos na “era do selfie”. Não é estranho que justamente na época em que a individualidade burguesa atinge um clímax, tenhamos todos os rostos estereotipados? O produto moderno par excelence, o autorretrato oriundo da Renascença, anunciou ao burguês o que seria a sua casa um pouco mais tarde, ao final do século XIX: um conjunto de celas de espelho. O selfie parece pertencer a essa linhagem herdeira do autorretrato. Inicialmente dá indícios de estar na contramão da ideia de identificação cadastral, cuja linha mestra segue o “3X4”, a foto do R.G. Mas, rapidamente, a prática do selfie mostra-se como uma cozinha de mesmices. Ao invés da criatividade desfila a máscara adrede preparada onde o que há de último é alguma criatividade.

Uma das características da modernidade tardia é que a criatividade associada à individualidade, promessa do horizonte liberal novidadeiro, não vem com a aurora, mas de modo falso e no crepúsculo. O selfie é o crepúsculo tecno-eletrônico do espelho, ele próprio tecno-cerâmico. Ocorre na época em que todas as nossas relações se fazem por uma semiótica que por mais importância que dê ao corpo, coloca no centro a separação da cabeça e sua eleição como porta-rosto. Nada há de mais monótono e tedioso que um álbum de fotografias de cabeças portando rostos. Sua incrível força vem justamente dessa sua capacidade de nos amarrar em algo que parece ser excitante e, no entanto, é uma porta para a modorra.

Há um treinamento para a modorra provocada pelo rosto. Uma pedagogia para o rosto. O pensador alemão Thomas Macho diz que à medida que ocorre o espraiamento da visualização do rosto, também aumentam as “consequências normativas” relativas a essa nova situação. Assim, desenvolvem-se os atos de treinamento e instrução facial, de comando, de padronizações de tipos, como o que ocorre com os modelos e as modelos, especialmente em uma época em que a mídia e as nossas vidas se tornaram imbrincadas. Nesse sentido, “rostos são sempre máscaras produzidas a partir de uma fábrica de muitos olhares”.[1] Há uma tela que gera olhares, e estes, um a um, adquirem o status de um exemplar, um tipo. Macho cita a teoria da rostidade de Deleuze & Guattari, para lembrar o quanto de maquinal existe nisso tudo e o quanto isso está vinculado à desterritorialização da cabeça, que deixa de ser órgão do corpo para vir a ser um cabide de máscaras. Mas essas máscaras não escondem nenhuma verdade. Elas são tudo o que há. O melhor modo de perceber isso é lembrar o exemplo da dupla francesa a respeito do tique.

O tique nada é senão o resultado da tentativa frustrada de desrostificação. Trata-se da busca por fugir das linhas impostas pela rostificação e, ao mesmo tempo, a constatação de que essa tarefa parece impossível. O tique é um movimento do rosto que contraria uma dobra e que, derrotado pela “organização forte” que é próprio rosto, não cria uma marca expressiva fixa, mas apenas um movimento espasmódico.[2] Assim, nenhuma nova dobra aparece e o rosto não cede a uma outra expressão senão a da “organização forte” que ele é. Diante de uma situação psicológica nova, parece que queremos uma expressão nova, mas não podemos tê-la; obtemos apenas o fracasso que, sendo ele próprio o tique, é o ridículo. Afinal, é ridículo mesmo um rosto com um movimento involuntário. Um canto de boca que mexe veloz ou uma sobrancelha que se ergue e volta rapidamente ou um piscar de olhos contínuo e esquisito. O movimento é de rápido ir-e-vir de modo que nada fuja do que já é uma dobrinha, uma ruga, uma marca de expressão. O tique denota apenas algo que, se mostrado no espelho, nos causaria só vergonha. A “organização forte”, que é o rosto, mostra sua força no tique. Derrota a fuga da rostididade e, portanto, nos causa vergonha como qualquer fracasso deve causar vergonha.

Pessoas modernas sabem o que se passa com suas máscaras, o seus rostos adquiridos, enfim, seus rostos forjados pela instrução, comando, vida de modelo que é também molde de si e de outros. Não sabemos tirar fotos senão obedecendo ao “say cheese” que substituiu um outro modelo, o alegre-blasé que se queria com o “olha o passarinho”.

Desse modo, nos é difícil entender o episódio relatado por Montaigne[3], sobre o homem que imaginava que sua consciência o trairia diante de um inimigo que não deveria reconhecê-lo. Montaigne fala do homem apavorado ao ter de passar pelos inimigos, mesmo estando iguais a eles em toda a sua aparência, pois imagina que ainda assim seria descoberto. Achamos estranho isso porque somos os que estão acostumados com o espelho. Sabemos o que o nosso rosto pode ou não pode denunciar. Nossa consciência não conseguirá fazer com o nosso rosto aquilo que ele próprio já não fez para si, pois ele é uma máscara saída de uma fábrica. Surgirá em nós ao cruzarmos com o inimigo uma vermelhidão? Aparecerá um tique? Será este nosso pisar em falso? Ora, para o homem moderno adulto, cujo rosto já é a máscara que deve ser, é impossível imagina que uma expressão nova irá traí-lo diante de qualquer um em sociedade. Caso o rosto deva trair, este saberá bem antes. Qualquer vida diante do espelho, impossível para o tempo de Montaigne, nos diz antes se passaremos despercebidos ou não diante de um grupo de inimigos.

Thomas Macho fala do Homem que ri de Vitor Hugo, contando as diversas histórias produzidas pela literatura e pelo cinema a partir desse clássico. No campo popular, lembra o filme Batman, o cavaleiro das trevas, em que Heath Leder interpreta o Coringa. Ora, o que é esse vilão senão aquele que foi posto por sorrir na base da faca? Sempre estará sorrindo! Nas situações mais dramáticas, perigosas e difíceis ele terá de sorrir, querendo ou não. Não há como evitar o que diz um rosto feito à mão – a mão de máquina! Então, o melhor que se há de fazer é jogar – é participar do mundo achando graça no que não tem graça exatamente porque o rosto estará afirmando isso. Seria tolo tentar contrariar o rosto. Seria uma tarefa árdua e fadada ao insucesso. Não podemos ser menos ou mais do que é nosso rosto, a máscara que é o rosto, a “organização forte”. Não é isso que os personagens de Nicolas Cage e John Travolta descobrem, quando seus rostos são trocados, no célebre filme de John Woo? Eles logo percebem que podem agir muito bem tendo um rosto que parecia não ser senão o seu simétrico e odiado outro.

Teorias como as de Macho e Deleuze & Guattari podem nos fazer entender o resultado do selfie, sua incapacidade para a criação, mesmo num mundo em que a tecnologia nos induz a acreditar que o céu é o limite da criação. Todavia, essas teorias não ajudam tanto quando indagamos por que a obsessão pelo selfie. Não paramos com a prática do selfie. Não nos cansamos do selfie, mesmo que já tenhamos esgotado as poses. É o abraço ao tédio? Por que isso? Por que seres como nós, tão endorfinados, que vivem para o prazer, continuam com o selfie se ele é o andar do furão em círculos na jaula do zoológico? Podemos buscar respostas em Peter Sloterdijk.

O filósofo alemão Peter Sloterdijk traz sua teoria das esferas e, no seu interior, a ideia de protração.[4] Funcionamos em esferas, sempre no mínimo com dois polos. No caso da rostificação, todo o processo já de adianta nos olhares trocados entre mãe-filho, uma vez na amamentação, onde a regra é a harmonia e o bem querer que atraem um para o outro. Não à toa, então, nosso rosto, diferente do rosto símio que, enfim, é bem parecido com os de nossos ancestrais, é mais proeminente. Nossas faces se apresentam como que puxadas por outra face. A esfera ali formada pelos quatro olhos que se cruzam se fez por uma sua característica própria: a ressonância entre seus polos, mãe e bebê. Essa situação, a da ressonância na forma de protração, parece tão clara a Sloterdijk que ele sugere que o teorema de Darwin se manifeste a partir da regra da “sobrevivência do mais atrativo”. No processo evolutivo, antes que a identificação, a rostificação veio pelos jogos de afeição entre mãe e filho.

Ao pegarmos a via de Sloterdijk não desmentimos Macho e os dois filósofos franceses, mas acrescentamos elementos que nos fazem entender porque teimamos no selfie. Há algo inebriante na contemplação de faces porque essa contemplação está incrustrada em nosso desenvolvimento ontogenético e filogenético. Nada melhor que se sentir bem tanto quanto se sentiu quando, ao sair da água e vir para o ar, viu a sensação horrorosa de desamparo se desfazer no acalento da ressonância encontrada no sistema de tela branca- buracos negros, que são os seios as bochechas e os olhos da mãe. “Tela branca e buracos negros”[5] são uma “máquina abstrata de rostidade”, dizem Deleuze e Guattarri. Os poderes que são a própria cultura agenciam nossas relações produzindo os tipos que são nossos rostos. Mas, se lemos Deleuze e Guattari a partir de Sloterdijk, não os veremos unicamente como dois filósofos que contam uma narrativa de uma máquina que tem por objetivo único a padronização, a criação da “organização forte”. Podemos ver aí também a protração. Esta, para o filósofo alemão, tem um especial modus operandi: “a radiância recíproca delicadamente animada da mãe e da criança no período de vínculo pós-natal”.[6]

Deleuze e Guattari endossam a frase ‘Foi a criança que fez o seio da mulher e foi a mãe que fez os lábios da criança’[7]. Se neles isso deve se interpretado como tendo a ver com as interações que revelam a atuação de mecanismos de poder, em Sloterdijk isso deveria ser lido apenas como o poder do afeto, da climatização, da simbiose da esfera pós-natal.

A pretensão de Sloterdijk é a de construção de uma narrativa capaz de antes englobar as explicações de Macho e da dupla francesa que competir com elas. Para ele, “não é o retrato que capacita o rosto ao destaque da reconhecibilidade; mas, antes, é a protração que eleva os rostos ao limiar da capacidade de ser retratável, em um processo facio-genética em aberto”. Sloterdijk, assim, heideggerianamente diz que a “protração é a clareira do ser na face; ela nos convida a conceber a história do ser como um evento somático”.[8] Dizendo em um jargão menos técnico, mas ainda heideggeriano: se vamos aceitar a emergência do homem como o que é a clareira em tudo o que é, pois este é aquele que é (ser) e ao mesmo tempo sabe que é (o conhecimento que se conhece), que notemos que esse seu saber tem a ver com um envolvimento corporal. Ninguém se sabe se não se sabe enquanto um rosto que se põe no sentido grego de prosopon, ou seja, “o que há para ser visto”.

Nesse sentido, os aspectos de dominação e de poder que caracterizam análises como as Deleuze e Guattari precisam ceder espaços para a compreensão do rosto como contendo aspectos em que se há poder, trata-se de um poder menos negativo ou, melhor dizendo, menos abstrato. A filósofa neozelandesa Annette Baier, em considerações sobre o rosto, faz questão de uma comentar os sentimentos emitidos pela foto do marido na Guerra, como prisioneiro, não para vê-lo como a máscara da qual a tentativa de libertação é apenas o ridículo do tique, mas exatamente os elementos mais nobres de admiração:

Enquanto escrevo tenho sobre minha escrivaninha uma cópia do retrato do rosto de meu marido como um jovem prisioneiro, feito pelo seu colega de prisão Erwin Fabian, e o original está agora na Galeria Nacional Australiana. Quando o vejo, sei o que importa para mim quando vi pela primeira vez aquele rosto, que caráter, resistência e humanidade é mostrado, junto de uma beleza selvagem maravilhosa. (…). Frontes são para enfrentar o mundo, e as outras pessoas nele, e a fronte de Kurt, em seu velho retrato, é sensível e feroz. Ele passou por experiências ruins, mas pouco ressentimento permanece, de modo que agora seu rosto de noventa e dois anos parece-me absolutamente nada selvagem. Ele enfrenta seu futuro bastante filosoficamente, e acolhe um de nossos dois gatos em seus joelhos, apreciativamente. Um dele, o velho Tab, está acostuma ficar ali, enquanto que o novo, Shy Blackie demora mais para ficar assim em casa. Mas uma vez que os dois gatos confiam um no outro, e cada um confia ao menos em um de nós, a completa confiança mútua deve ser esperada. Assim é com todos nós; quem confia em mim confia naqueles que eu confio. Aqueles cujos rostos eu acolho, então meus íntimos também acolhem.[9] (grifo meu).

Esse texto expõe a teoria de Baier que atrai o filósofo americano Richard Rorty: as nossas proposições que expressam o que chamamos de verdade dependem antes da confiança do que qualquer outra coisa. São os laços de confiança que estão na base não só da moral, mas do conhecimento. Há o que chamo de objetividade porque dou crédito às frases ditas por quem confio. Há regras morais que chamo de universais por que dou crédito aos gostos e normas de quem confio: a justiça não é o oposto da lealdade, mas justamente a lealdade ampliada por causa de que a confiança foi ampliada para mais círculos, e então mais pessoas foram posta de dentro da expressão “um de nós”. Todavia, esse texto também expõe o que Sloterdijk está procurando na sua ligação de rostos e intimidade. Rostos são propícios à criação do íntimo porque são feitos para atrair ou não confiança. Não grifei à toa a palavra os “meus íntimos” no destaque.

Aliás, em uma passagem de seu ensaio que vem antes desta que escolhi para o destaque, Baier chama a atenção de modo curioso para a posição dos nossos pés: eles estão projetados adiante, na mesma direção e sentido de nossos rostos! Eles são para que possamos ir segundo a direção de nosso rosto. Posso concluir disso, facilmente, o que Sloterdijk circunda: nosso rosto procura outro rosto e eis que tudo em nosso corpo está projetado para acompanha-lo, nossos pés e mãos vão adiante, e nossa posição fetal já nos deixava essa indicação, a de abraçar o umbigo, de onde vem o elo com o companheiro primeiro, a placenta, e que depois serve para abraçar o portador do rosto à frente. O rosto sente e dá comandos para a aproximação. Nossa anatomia é propícia a uma esferização.

Nada há de mais individualizado e aparentemente próprio e singular de alguém que o rosto. Ele parece poder existir por ele mesmo. Baier parte de um rosto assim para logo em seguida mostrar que nada há no rosto que não sua vida em esfera. Nenhuma ruga lhe seria possível e, portanto, nenhuma expressão, se ele não pudesse antes de tudo viver alguma intimidade.

Baier e sua foto são a negação do selfie e, ao mesmo tempo, também a negação da via do “3×4”. Ora, não há razão para tomar essa experiência de Baier como um milagre ou uma ilha no interior da modernidade. O melhor é vê-la como a experiência de quem tem aquela foto que traz esse aspecto descrito pela protração de Sloterdijk como um processo a mais de existência da intimidade. Nessa amplitude, a rostificação pertence a uma narrativa daquele que se põe como arqueólogo da intimidade.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

[1] Macho, T. Mit lachendem Gesicht: en face le pire jusqu’à ce qu’il fasse rire, in: Zeitschrift für Medien- und Kulturforschung. Heft 0|09. Schwerpunkt Angst, Hamburg (Felix Meiner) 2009, 19–36.

[2] Deleuze & Guattari. Mil Platôs. São Paulo: Editora 34, 1996, cap. 7.

[3] Montaigne, M. Sobre a consciência. Os ensaios. São Paulo. Penguim-Cia das Letras, 2010, pp. 228-33.

[4] Sloterdijk, P. Bubbles – Spheres I. Los Angeles: Semiotext(e), 2011, cap. II.

[5] Deleuze & Guattari, Op. cit.

[6] Sloterdijk, P. Op. cit., p. 170.

[7] Deleuze & Guattari, Op. cit.

[8] Sloterdijk, P. Op. cit., p. 164

[9] Baier, A. Reflections on how we live. New York: Oxford University Press, 2010, p. 246.

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3 Responses “Teoria do rosto e selfie”

  1. 27/12/2014 at 18:51

    Nossa. Que horrível, logo as rugas e expressões que são coisas tão feias é que mostram a nossa vida em esferas!… deve ser por isso que aquilo que chamamos de “zona intima” é tão feio e cheira tão mal…

    • 28/12/2014 at 12:18

      Pedro! A piada é boa, mas a zona íntima precisa de alternar cheiros, cheira bem em vários momentos. As rugas são mutáveis na intimidade de Sloterdijk, no rosto de Deleuze e Guattari é que elas ganham alguma normalização.

  2. 26/12/2014 at 21:08

    Fantastic, professeur. A minha prenda e a minha irmã são pedagogas. Agora vi o abismo entre as possibilidades de composição da filosofia e da… pedagogia. Por isso visto a camisa branca ou transparente, ou cinza como diria Foucault, da filosofia.

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Filósofo