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20/09/2017

Teoria das esferas e a noção nietzschiana de eu


Excurso de novo livro. Sobre a subjetividade em Peter Sloterdijk. Peguem a palhinha aqui e comecem a vir junto conosco! Vão gostar. 

1.

Jamais fomos solitários. Desde o mais distante momento, tanto do ponto de vista da ontogênese quanto da filogênese, somos criadores de mundos. Somos geradores de esferas às quais pertencemos como um dos polos, sendo que estes, no bom funcionamento da esfera, estão em ressonância em penetração mútua. A investigação desse processo de esferalização, do ponto de vista ontogênico e micro, é o que Peter Sloterdijk chama de “arqueologia da intimidade”, o conteúdo do seu Sphären I, o primeiro volume de uma massuda e riquíssima trilogia.

A “arqueologia da intimidade” revela-nos como quem participa de uma subjetividade enquanto ambiente de uma situação de companheirismo, em que o parceiro de um dos polos da esfera é um seu ampliador, funcionando em ressonância em um interior que é um tipo de “invernada”, um campo de imunização. A subjetividade tem ponto de partida, no seu todo, na microesfera. No caso, o útero abrigando o que será um feto e a placenta, sua companheira e ampliadora. E que não se perca essa informação: placenta e feto são como que vasos comunicantes, e dão margem para um lugar que não é espaço dos físicos. O espaço ocupado pelos humanos, enquanto eles não são cadáveres, permite que aquilo que se põe dentro esteja fora e vice versa. Nunca é demais lembrar que a placenta está adiante do feto, mas ao mesmo tempo, pelo cordão umbilical, ela própria, na sua camada interna, é a camada externa do feto. O feto não é senão uma bolha criada por um sopro umbilical da própria placenta. Isso não passa batido ao campo psicológico nascente a partir de sinestesias. Mais tarde, no desdobramento desse processo, essa esfera que é a subjetividade já ganha outros polos (o anjo da guarda, a mãe, o pai, os conhecidos mais próximos etc.), então, nietzscheanamente, podemos nos tornar quem somos. “Torna o que tu és”, esse princípio ordenador de Nietzsche, que faz do homem o seu próprio destino, caso ele não opte pela fuga metafísica, pode nos deixar cara a cara com a possibilidade de ser um sujeito. Não se trata, portanto, de numa figura do sujeito gerada a partir da concepção das filosofias corriqueiras.

Quem seria, para Sloterdijk, esse sujeito?

Em uma formulação que não desmentiria outras filosofias, Sloterdijk toma o sujeito como a instância humana capaz de autodesinibição de modo a se autorrequisitar, encontrando em si mesma, como uma justificativa racional ou elementos teóricos racionais, os elementos que podem levar da teoria à prática.[1] Eis aí a instância a quem louvamos com a qualidade de consciência, identidade e autonomia. Essa noção de sujeito, quando assumida por teorias cartesianas, do eu unitário e solitário, ou por aquelas do tipo da de Habermas, a filosofia do diálogo e vários tipos de interacionismo entre eus[2], enfrentam um sério problema. Afinal, se temos um indivíduo humano unitário, ou se temos dois indivíduos em diálogo, a autodesinibição necessária para se iniciar o processo de ser um sujeito tem de ser puxada como se puxa coelho de cartola. É uma mágica arrumar autodesinibidores de uma peça unitária e inicialmente solitária. A própria linguagem, que parece vir salvar esse impasse, depois acaba por complica-lo. Afinal, não estamos falando da gênese do indivíduo humano, que pode ter a linguagem inata ou adquirida, conforme se deseje, mas do humano com potencial de ser sujeito – uma noção filosófica que, enfim, a partir da modernidade, se fez como o que poderia estar acessível ao homem.

Ora, esse problema transforma o sujeito em uma quimera? Vamos simplesmente descartá-lo, então? É isso, em parte, o que várias correntes filosóficas contemporâneas fizeram. Não é o que Sloterdijk faz, claro. A teoria das esferas, nesse campo, visa realmente dar uma solução para esse impasse.

A solução é a própria noção de esfera, aplicada à ontogênese. Essa ontologia que nos apanha sempre acompanhados, e que nos faz adentrar a vulva para ver aí placenta e feto como em interpenetração, em ressonância e vivendo em um clima de imunização, é o achado teórico de Sloterdijk. Ele assim se expressa, tomando o problema metafisicamente:

“Ao proceder assim [como na esferologia], desaparece um problema que a metafísica clássica discutiu até à saciedade: se partimos inicialmente com o Um, vemo-nos obrigados a pensar na maneira como esse Um pôde separar-se de si mesmo ao ponto de dar existência, a partir de si mesmo, a uma transição para o número Dois ou mais. A metafísica especulativa clássica é simplesmente um vasto exercício de imaginação sobre  autodilaceração e o autoacoplamento do Um, a sua cisão primitiva ou a sua divisão primeira, e das vias que levam à reunificação. Aqui reside a matriz das chamadas Grandes Narrativas. Tudo que o século XIX compreendeu sob o conceito de História permanece submetido a este esquema. As miragens desaparecem logo que começamos com o Dois. Com o pensamento do Dois, faço referência ao ponto de vista de uma ontologia pluralista e minimalista.  O que denomino esfera é dado, desde o início, apenas como uma forma diádica, como uma estrutura solidária de Dois. Esta, por outro lado, tem as sua próprias estruturas temporais que não se deixam reduzir à forma primitiva da narrativa: unidade – separação – reunificação”.[3]

Consideremos então a esferologia como uma proposta para um melhor encaminhamento da noção de sujeito. Assumido isso, o que se pode perguntar é se haveria alguma filosofia que, antes de Sloterdijk, teria apontado para um indivíduo cujas características denotariam uma subjetividade desenvolvida segundo a esferologia.

Por quê?

Talvez, porque seria relativamente constrangedor se tivéssemos de admitir que o pensamento por esferas, utilizado para a noção de subjetividade em novos termos, não tivesse encontrado alguém que, despossuído da noção sloterdijkiana de esfera, não tivesse reivindicado para o homem características apontadas por essa teoria, pela esferologia. Não deveríamos descartar a esferologia por isso, mas certamente ela teria menos força de convencimento. Felizmente, para Sloterdijk, esse não é o caso. Ele tem condições de mostrar que outros pensaram o homem, o indivíduo moderno ou, digamos, o que deve emergir após o vagalhão crítico e desconstrutivo contemporâneo, segundo elementos também encontráveis, no ponto de chegada, pela esferologia, que é uma teoria que não se resume ao ponto de chegada. Nisso, ele está bem acompanhado. Nietzsche pode ser um seu colaborador.

Segundo o que apreendemos da leitura que Sloterdijk faz de Nietzsche, este não seria somente um anunciador do sujeito sloterdijkiano finalizado, mas uma tentativa de ser, ele próprio, um “eu” com as melhores características desse sujeito. Sloterdijk mostra isso em falas de Nietzsche e em falas de Zarathustra.

Na leitura de Sloterdijk a respeito de Nietzsche, este pensador pode ser descrito legitimamente como aquele que, após tantas críticas ao sujeito[4], soube mostrar-se a si mesmo como um “eu” novo, ou ao menos em busca de novas paragens. No decorrer de alguns de seus livros, Nietzsche diz “eu” inúmeras vezes de modo enfático, e cria longos autoelogios que chegam a constranger o leitor, tão acostumado à ideologia da humildade e ao convívio com culpa e autodiminuição (real ou simplesmente hipócrita, tanto faz).  Não é o caso de tomar isso como mera idiossincrasia ou coisa pior, diz Sloterdijk, mas ver nessa prática autoral como Nietzsche quis, ele próprio, ao se fazer um destino, tentar mostrar-se na condição de um eu além do convencional. Devemos tomar esse “egoísmo” de Nietzsche como uma espécie de seu especial narcisismo – um ‘heteronarcisimo’.[5] Trata-se de um culto de si mesmo, mas de um si mesmo que são outros, que são o estranho do mundo, pois esse eu nunca foi um ponto solitário e unitário. Com Nietzsche e em Nietzsche há a emergência de um eu incapaz de negar sua originária disposição de composição acompanhada, e por isso, de energia transbordante, tudo o que é necessário para autodesinibição – desinibição mesmo – que é base para que alguém possa se fazer sujeito.

Esse eu nietzschiano é, em certa medida, o eu que poderia ser desenhado por Sloterdijk pela teoria das esferas (quando tudo corre bem nas transformações esféricas), em um ponto de chegada de um processo sem falhas da formação da intimidade. Assim ele aparece, também pela mão desse filósofo, no curioso e instigante livro O quinto “Evangelho” de Nietzsche.

Nesse livro, Sloterdijk anuncia Nietzsche como quem poderia assim pronunciar, parafraseando Descartes: “eu sou penetrado, portanto eu sou”.[6] O eu proposto por Nietzsche não seria o da filosofia do sujeito, nos moldes cartesianos. Esta nada mostraria senão uma forma de expressão de uma “alucinação filosófica a qual, em nome do ‘sujeito’, proclama a fuga para a identidade”. O eu proposto por Nietzsche também não seria o da filosofia da intersubjetividade, isto é, “a filosofia do diálogo”. Nesta, os “sujeitos falam entre si, frente a frente, ou se acusam mutuamente porque um afasta o seu rosto do outro”.[7] Nada disso é nietzschiano ou sloterdijkiano. “Os interesses de Nietzsche”, diz Sloterdijk,

“têm a ver com uma teoria do penetrar penetrado, com uma ética do transbordamento e da inserção em outros, com uma lógica da absorção e da remissão. Ele não conhece o diálogo simétrico, as negociações, o valor médio das banalidades: para ele são importantes as relações intersolares, as emissões de raios que se dão de astro a astro, o perpassar das entranhas, o fazer prenhe e o emprenhar.”[8]

Citando Nietzsche, que diz ‘nas entranhas da baleia eu serei uma anunciador da vida’ (Nachgelassene Schriften [fragmentos póstumos] KSA, 10, 28), Sloterdijk continua: “Ele não se interessa por opiniões, mas por emanações. No nível intelectual, ele é radicalmente bissexual, um astro que deseja ser transpassado e um sol que perfura e ‘vence’.” [9]

As metáforas da interpenetração, do perpassar por entranhas e do estar prenhe e emprenhar são suficientes para que não se pense no modelo de um indivíduo unitário e solitário ou de um indivíduo no contexto de uma interação ou um acontecimento intersubjetivo. O modelo da esfera com polos de ressonância interna está em perfeita sintonia com um resultado: a subjetividade que se livra desses dois modelos vinculados ao homem que participa do “clube liberal”[10] – aquele homem que é um indivíduo unitário e solitário e que, então, se filia por livre e espontânea vontade a uma sociedade de indivíduos do mesmo tipo. Na esferologia o sujeito é aquele que cumpre sua capacidade e possibilidade de tirar de si elementos desinibidores, que efetivamente são a base para o seu torna-se sujeito à medida que isso que o faz passar da teoria à prática, sem mágica. Nada de coelhos de cartolas que é o que se exigiria do indivíduo unitário e solitário, estando ele nessas condições ou nas condições de interação, o que dá no mesmo. Uma subjetividade gerada nos moldes de Slotedijk, assim, pode produzir um sujeito na sua concepção mais apropriada, sem os inconvenientes de se ter de inventar uma desinibição a partir de energias artificiais e artificiosas. Se o sujeito é o que encontra em seu interior as forças de desinibição, os elementos de justificação, a razão para agir que o caracteriza como autônomo[11], isso não vem do passe que tira energia do abracadabra. A ressonância inicial que faz a esfera ser uma esfera é a interpenetração. É esse processo inicialmente diádico que, desde um nível sinestésico até um campo mais propriamente psicológico e sócio-psíquico, cria a subjetividade como que um ambiente em que o costume é a interpenetração, a ressonância, tudo que garante mais tarde uma psicologia individual que não precisa de nenhuma socialização extra para ser aquela do homem como sujeito.

Todavia, aqui surge um problema. Sloterdijk afirma essa perspectiva de um eu alheio às teorias individualistas e substancialistas, que paga tributo a um velho aristotelismo, mas ele é também aquele que toma Nietzsche como um “designer de tendência” do individualismo.[12] Foi ele quem, na Europa, produziu o equivalente do feito de Ralph W. Emerson na América, ou seja, a proclamação da utilidade do individualismo, a apologia da autoconfiança e, principalmente, o brilho do inconformismo. Mas não teria sido o individualismo fruto da visão do cogito inicialmente isolado e de seus contrapontos centrados no interacionismo e intersubjetivismo?

Aqui, todo cuidado é pouco.

É necessário redescrever o individualismo. É útil pô-lo sob a ótica de Nietzsche, de um autêntico Nietzsche, não aquele dos copiadores fascistas, fruto da gentalha que o fez torna-se cultivado pelas massas, fenômeno cujo exemplo corriqueiro, atualmente, se dá nas redes sociais virtuais, onde surgem aqueles que eram justamente o seu avesso. Afinal, Nietzsche foi um homem com completo desprezo pelo tipo que Hanna Arendt chamou de o filisteu da cultura.[13]

A melhor compreensão dessa perspectiva demanda dois passos atrás. Primeiro, é de bom alvitre voltar à passagem da baleia, que é reveladora, contida nos “escritos póstumos” de Nietzsche. Segundo, faz-se necessário, então, reabrir o tema do individualismo.

2.

A frase de Nietzsche ‘nas entranhas da baleia eu serei uma anunciador da vida’ remete obviamente ao chamado complexo de Jonas.

Jonas é um personagem bíblico. Ele é chamado por Deus para pregar em Nínive, mas, amedrontado, foge da incumbência. Desce ao cais e pega o primeiro navio de partida para o mar alto. No meio do trajeto, uma tempestade monstruosa se apodera da embarcação e ameaça colocar a nau a pique. Jonas vê nisso um sinal de que Deus está não somente à sua procura, mas já o achou. Pede então que os marinheiros o joguem ao mar, de modo a salvarem o navio e a si próprios. Afinal, tudo indicava que Deus queria apenas a sua vida. Os marinheiros relutaram, mas diante da insistência de Jonas, cederam e o lançaram ao mar. Jonas não morreu, pois foi engolido por uma baleia. Viveu então três dias nas entranhas da baleia, em meio a algas e todo tipo de elementos internos do monstro. Então começou a orar a Deus, iniciando o processo de tomar seu destino. Deus atendeu o seu chamado e fez a baleia cuspi-lo. Uma vez salvo, Jonas compreendeu o seu destino e assumiu a missão de pregador e profeta.

A psicologia em geral tem usado dessa passagem para caracterizar aquele que foge de seu

NIETZSCHE 1906 Edward Munch (há uma cauda de baleia no fundo?)

NIETZSCHE 1906 Edward Munch (há uma cauda de baleia no fundo?)

eu mais íntimo, de suas tarefas que, uma vez realizadas, trariam sucesso, colocando-o acima de pais, mestres e outros, o que o tornaria um diferente, deixando-o ao dissabor de, sendo tratado como um diferente, cair no ostracismo. Se utilizarmos o jargão de Nietzsche, Jonas teria fugido de modo a negar o imperativo “torna-te o que tu és”. Abraçar o destino é uma versão do “amor fati” de Nietzsche, que nada tem de resignação, mas que põe o “amor aos fatos” na tarefa de lançar-se nos afazeres da vida afirmativamente, querendo viver a vida, sem vínculos com o platonismo e o cristianismo, a metafísica e a religião que acolhe os que partem para a busca de um além-mundo, exatamente porque se comportam como ressentidos, agem como fracos e sentem como culpados, os que não aceitam esse mundo com seus infortúnios e desafios. Ora, Nietzsche diz que ele será o Jonas completo e redimido, não o Jonas nomeador de seu complexo. Mostra coragem ao lançar-se ao mar. Na entranha da baleia ele sabe que sairá para a afirmação da vida. Afirmação e pregação da afirmação.

Peter Sloterdijk fala do complexo de Jonas[14] como um dos elementos importantes de um livro inspirador para a sua teoria das esferas, o A terra e os devaneios do repouso – ensaios sobre as imagens da intimidade, de Gaston Bachelard.

Bachelard disserta sobre como que o ato de ser engolido por um peixe ou o ato de engolir em geral e depois expelir está presente no âmbito onírico de nossa cultura. Ele cita inúmeros contos e passagens de histórias em que algo semelhante ao ocorrido com Jonas reaparece (afinal, quem nunca escutou nenhuma, ao menos conhece Pinóquio). Não contente, explicita essa figura da baleia e de Jonas como o que não seria só uma base para o próprio indivíduo Nietzsche estabelecer sua ponte com sua assunção de sujeito, mas a potencial ponte para todos nós. Assim, seguindo Bachelard, o vemos falando das tarefas escolares em que o professor pede uma redação qualquer às crianças, e boa parte delas inventa histórias em que alguém é engolido por outro e expelido. Bachelard lembra que o engolir tem a ver com a volta ao útero, a busca de proteção.[15] Sloterdijk fala do homem que, enfim, é sempre mal nascido, pois é lançado para situações em aberto, e que então tem de rapidamente reestruturar sua esfera, seu campo protegido por algum limite que garanta imunidade ao mesmo tempo em que proporcione, no seu interior, o bom andamento da ressonância entre os polos, agora protegidos. Reestruturar sua esfera é renascer mais uma vez do interior, o que é impossível, mas que por isso mesmo aparece em sonho, devaneio e coisa de história infantil – porque é uma necessidade premente. Voltar ao útero para se re-energizar de acordo com nova ressonância e, enfim, manter-se em interpenetração, é uma maneira de poder ser expelido para o aberto de modo a trazer consigo tudo que é necessário para não fugir da vida, mas se autoelogiar e se autoafirmar. Afirmadores da vida fazem isso.

Assim, quando Sloterdijk cita Nietzsche e a baleia, é difícil não entender que ele está conferindo a este filósofo um renascimento para uma dupla circunstância: claro que se trata de alguém que foi engolido e que, ao sair, vai deixar de fugir e assumir sua função; mas também se trata de alguém que, vindo das entranhas, tendo sido imiscuído novamente em um tipo de liquido amniótico, atravessado por nutrientes vários da própria baleia, saberá de antemão que deverá, para afirmar a vida, cumprir sua tarefa de “designer de tendências”, no caso de Nietzsche, a tendência vindoura, a do individualismo.

Todavia, esse individualismo não deveria ser qualquer um. Não seria o individualismo que toma o indivíduo como um caroço de cogito, seco, mas como quem toma o sujeito e sua autoafirmação, seu autoelogio – tão característico em Nietzsche – como uma maneira radical de se por no campo do individualismo. O individualismo de Nietzsche é um individualismo vindo de quem vem de três dias de convívio dentro de um outro. Tudo que o novo líquido amniótico fez foi colocar para o hóspede a seiva e o suco gástrico de outro. O que ali o hóspede teve foi o líquido para ser bebido, o creme para se tornar um lambuzado e os ingredientes que fizeram os seus poros comporem um corpo enquanto uma fina peneira dentro da baleia. Saindo dali para tornar-se o que se é, o novo profeta, descarado e ousado, não poderia ser outra coisa que não o que é o mundo, o que é diferente. Vale aqui lembrar Heidegger: se a pedra é sem mundo e o animal é pobre de mundo, o homem é criador de mundos.[16] Nos termos de Sloterdijk, relativamente emprestados de Heidegger: seu círculo de desinibição é seu mundo e seu mundo não é algo completamente exterior à subjetividade.

Por isso Sloterdijk diz que Nietzsche surgiu como “o descobridor do ‘heteronarcisismo’, porque no final das contas, o que ele afirma em si mesmo são os outros, as alteridades que entram nele formando uma composição que o atravessa, o encanta, o tortura e o compreende”. Por isso mesmo, cada indivíduo pode se autolouvar e autoafirmar e, assim, afirmar a vida. Pois tendo sido atravessado, sabe do que é estranho, sabe da existência do estranho que se pronuncia na vida, não buscando nenhuma fuga. “Sem surpresas, a vida seria um erro. Tem que haver uma coisa no mundo que seja mais rápida que argumentos”.[17]

Ora, o que é mais rápido que argumentos é o que cada um de nós, ao afirmar a vida, estará

Mapa de 1595 com o desenho de Jonas

Mapa de 1595 com o desenho de Jonas

fazendo de mais harmônico com uma boa formação subjetiva. Pois a microesfera inicial não é outra coisa que não o preparar sem argumentos, o viver como não-objeto (Thomas Macho), o ser atravessado pelo cordão umbilical e, depois, pela voz do daimon ou anjo da guarda, e então da mãe e outros. A esfera logo chega a cinco polos e funciona como um conjunto musical. Quem surge assim no mundo, acompanhado, como nós surgimos, tem tudo que é necessário para um renascimento constante, uma saída diária de barrigas de baleias, para então cumprir funções de “designers de tendências”. Ora, se a tendência é o individualismo que deveria brotar contra o afogamento e abafamento, próprios de uma era de cultura de massas, de política democrática de indistinções ou de distinções igualadoras, e de uma cultura também totalitária de massas, então que sejamos como Nietzsche disse que ele próprio tinha de ser: um dedicado a ‘ser outro’. Afinal, Nietzsche foi o homem do experimentalismo, do fazer experiências com o pensamento. Do testar-se novamente.

Com essa perspectiva, Sloterdijk chega até à contestação de certas leituras convencionais de Nietzsche ao dizer que, em sua teoria, “não existe uma vontade e, por conseguinte, uma vontade de poder; vontade é apenas um modo de falar; existe apenas uma variedade de forças, de discursos, de gestos, os quase se compõem sob a regência de um Eu que se afirma, se perde e se transforma”. [18]

Nenhum eu substancial de cheiro aristotélico reemerge nesse contexto, seja isolado ou em interação. O eu que se apresenta aí é coadunável com o seu parente chamado de cérebro, que em Nietzsche funciona como simples aparelho central linguístico e organizacional, máquina de processamento, nada mais. Só assim ele pode efetivamente ter esse caráter de autoafirmação e autoconstrução. O “designer de tendências” faz seu próprio eu como projeto e ensina outros a fazerem algo semelhante. Há uma história de esferas que assim permite. Ressonâncias envoltas ao limite que cria imunidade e permeabilidade dão ao final tudo que o homem precisa, se nenhuma avaria grave ocorre no processo, para se por a si mesmo como aquele que se autoelogia escancaradamente, se afirmando, afirmando o estranho em si mesmo e, portanto, afirmando a vida.

O homem é mal nascido, explica Cioran, e Sloterdijk toma isso como ponto de partida. Mas por isso o homem busca no aberto suas invernadas, suas esferas.

Com isso, se entendemos nossa própria condição de sujeito, também podemos entender o próprio Nietzsche como quem fazia autoelogios obscenos. “O autoelogio tardio sintetiza os pressentimento acerca do próprio vir a ser e o remate final, o egoísmo na autoimagem: como seremos o que somos, à medida que agarramos o acaso de sermos ‘eu’”. [19]

Assim, tudo encaminha para que não haja avaria no processo de reestruturação contínua da esfera que é a subjetividade. Isto é, se o polo não perde o outro polo que também é o que o envolve e o aumenta (que é a sua companhia) a cada fase de reestruturação, o indivíduo tem tudo para estar envolvido na subjetividade que pode funcionar como o Jonas saído da baleia, ou como o Nietzsche afirmador da vida, ou como, no quadro americano, Emerson – que Nietzsche leu e cultivou – fez com o seu elogio ao inconformismo.

Mas a história de Emerson e Nietzsche, também importante, e que aparece exatamente também em O quinto evangelho de Nietzsche, de Sloterdijk, é mesmo uma outra história. Ao menos é uma outra história quanto ao que posso contar. Pode ser que eu conte.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

[1] [2005] Sloterdijk, P. A invenção da subjetividade. O Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio D’Água, 2008.

[2] Eu não incluo Rorty nesse tipo de “filosofia do diálogo”. Penso que Rorty difere de Habermas para além do que ele próprio quis insistir e assim fez. A filosofia como conversação não é propriamente a filosofia do diálogo, e nem o modelo de Donald Davidson, aparentemente formalizado, é tão asséptico quanto pode parecer à primeira vista. Penso em desenvolver esses aspectos que mostram que Rorty e Davidson podem ser tomados antes mais próximos de Sloterdijk e do próprio Nietzsche do que de teorias do tipo da de Habermas.

[3] [2001] Sloterdijk, P. O sol e a morte. Lisboa: Relógio D’Água, 2007, pp. 121-2.

[4] É fácil para o leitor de Nietzsche se lembrar de sua fala “não sou eu quem pensa, o pensamento meu vem”, contra Descartes, e também contra Kant. Ou do Nietzsche que diz que não há ponto de apoio para as forças. Ou aquele Nietzsche para quem Deus, para ser acreditado, depende de nossa credulidade na gramática – ou seja, a tese de que é a ontologização substancialista de peças da linguagem que nos faz achar que temos o sujeito gramatical como um eu existente.

[5] [200] Sloterdijk, P. O quinto “Evangelho” de Nietzsche. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004, p. 99.

[6] Idem, ibidem, p. 97.

[7] Idem, ibidem.

[8] Idem, ibidem

[9] Idem, ibidem.

[10] Sloterdijk, P. Bubbles, op. cit., p. 85.

[11] Sloterdijk, P. A invenção da subjetividade. O Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio D’Água, 2008.

[12] Sloterdijk, P. O quinto “Evangelho” de Nietzsche. Op. cit., p. 81

[13] Arendt, H. A crise na cultura: sua importância social e política. In: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972. Para uma ampliação e aplicação da noção de filisteu da cultura ver: Ghiraldelli Jr., P. e Castro, Susana. A nova filosofia da educação. Barueri-SP: Manole, 2013.

[14] Sloterdijk, P. Bubbles, op. cit., p. 99.

[15] Bachelard, G. A terra e os devaneios do repouso. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 101-39.

[16] [1983] Heidegger, M. Os conceitos fundamentais da metafísica. Rio de Janeiro: GEN/Forense Universitária, 2011

[17] Sloterdijk, P. O quinto “Evangelho” de Nietzsche, op. cit., p. 99.

[18] Idem, ibidem, p. 100.

[19] Idem, ibidem, p. 68

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3 Responses “Teoria das esferas e a noção nietzschiana de eu”

  1. Carlos Bengio Neto
    27/09/2014 at 12:10

    “O calor do corpo, de esponja, de medusa: decepção em meu quarto, de ser menos gordo que uma baleia. Mas basta, eu tenho o mal, a angustia da baleia que se afoga, sobretudo a doçura, a doçura açucarada da morte. Gostaria de morrer, lentamente e atentamente, assim como mama um bebê” Georges Bataille – O Padre C.

  2. 23/09/2014 at 16:00

    Isto me lembra uma frase que ouvi de um bêbado falando aos amigos: “o que seria de mim sem nós”!

    • 23/09/2014 at 16:44

      Cuidado com o “nós” – o raciocínio seu parece bom.

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