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16/12/2018

Teoria contemporânea do pecado


Nos anos sessenta as jovens espantaram o mundo e se espantaram mostrando as tetas na rua e em sala de aula. Atualmente todo mundo pode mostrar os seios, não as tetas. Ou seja, o que não se pode fazer é dizer que mulheres têm tetas, ou até mesmo seios!

Vivemos não uma era conservadora em termos de costumes, mas na era de descompasso entre a linguagem e os feitos. O verbo é o lugar do pecado, e só ele. Em uma sociedade onde todos os conflitos se tornaram disputas jurídicas, não importa o que você faça, só importa o que você fala e que possa ser posto em um “processo”, para dar fama ao promotor e dinheiro ao advogado de defesa. Há inclusive um acordo tácito entre ambos.

Os apressados chamam isso de “era do politicamente correto” e os apressados menos inteligentes falam de “ditadura do politicamente correto”. Em geral quem faz isso são os conservadores. Fazem assim por oportunismo apenas, pois imputam tal coisa a um esquerdismo tolo. Acertam em parte e, com isso, batem no adversário satisfazendo suas próprias necessidades de nunca analisar as coisas de modo filosoficamente mais rico.

O que se vê nessa era em que se bate no falante para livrar o praticante é um tipo de evolução que os clássicos da sociologia chamaram de “suavização das relações” por conta do advento da sociedade moderna, ou seja, a sociedade de mercado. Em um mundo onde toda a atividade é a de negócios, segundo regras da sociedade liberal, muitas práticas de exclusão e maldade podem continuar as mesmas, mas a ofensa verbal, ou seja, a briga de balcão, o “barraco no Mercadão”, precisa acabar. Os duelos não acabam pois, afinal, tirar os conflitos da vida humana é extingui-la, então, entra em cena, de modo que não cessem os negócios, a juridificação de tudo. Tomo um tapa na cara no balcão, mas só posso fazer algo contra quem me agrediu bem depois e através da transformação da cena em história, em narrativa do “fato”, que deve juntar-se às narrativas testemunhais e, então, chegar aos tribunais para que advogados, promotores e juízes avaliem tudo a partir de narrativas e interpretações, e produzam novas narrativas e justificações, criando punições que serão transmitidas em formas de narrativas e guardadas como jurisprudência. A era do trabalho dá margem para o nascimento da era da linguagem e da interpretação das narrativas.

Desse modo, não sai de cena Marx e entra em cena Nietzsche e Wittgenstein, mas é claro que os dois últimos passam a ter um peso tão grande ou maior que o primeiro. A luta de classes entra pela vida quase que exclusiva da luta de narrativas, luta jurídica. Os textos são glosados por textos – “não há fatos, só interpretações” (Nietzsche), e as interpretações ganham sentido e verdade em “jogos de linguagem” (Wittgenstein).

Assim, no mundo moderno atual ninguém diz mais “eu te arrebento”, mas diz “eu lhe processo”. A polícia continua atirando e matando em alguns lugares mais que noutros, mas isso importa menos que o caminho já sacramentado do mundo liberal na sua forma contemporânea, que é o da punição após um trâmite processual em que o final nunca chega. O final não é a punição via prisão, mas o “final” já se dá no próprio caminho, com a perda do dinheiro na negociação entre pares, no pagamento dos advogados. O pobre continua perdendo, é claro. Mas o que é que se queria? Que ele ganhasse?! Que Nietzsche e Wittgenstein possam descrever melhor nossa sociedade nada diz contra a injustiça apontada por Marx em descrição anterior. Só o bobinho acha que por nos atermos aos filósofos contemporâneos esquecemos os outros, o que os outros ficaram muito menos importantes!

Foucault foi o filósofo que mostrou a história das punições como história da suavização da relações à medida que o capitalismo também tomou esse rumo. Nada de enforcamentos na rua, feito agora somente por bárbaros do Oriente, nem mesmo a cadeira elétrica! Somente a doce e suave injeção letal. Isso é caso extremo, pois a punição mesmo é se dar conta de que há abutres advogados comendo tudo que você construiu ou vai construir, por conta de um “filho da puta” que você soltou pela sua boca grande em um loja cheia de filhos da puta de carne e osso.

Foucault também notou que essa juridificação do mundo viria com e pela religião. Os processos religiosos vieram da confissão e passaram para o plano jurídico. Agora, o caminho é o inverso. As novas igrejas que instituem a prática evangélica viram o quanto é lucrativo poder incriminar a fala e não o comportamento. Em uma religião onde o que importa é o aumento do público telespectador é fundamental que as punições sejam as menores possíveis, e as mais superficiais, desse modo o palavrão é o pecado máximo. O mandamento único é este: não pronunciar aquilo que se poderia pronunciar (aquilo que pronunciado não mudaria nada). Só a fala é punida, e assim mesmo só a fala supérflua. Que não se pronuncie, por exemplo, “boceta”. Posso ir no motel com a mulher do amigo, mas não posso falar a palavra “motel” – sim, funciona nesse grau a coisa em certas igrejas. E como elas crescem, acabamos encontrando gente assim, no Brasil, até em universidades e, daqui a pouco, na sala dos professores.

Esse desajuste entre prática e linguagem dá a impressão, então, para alguns, que a grande crítica que se pode fazer à sociedade é imitar Jesus naquilo que ele adorava fazer, que era andar por aí dizendo “vocês são todos hipócritas!”. Mas isso é um erro crasso. A hipocrisia é constituidora de toda e qualquer sociedade, portanto, revelá-la não diz nada que não saibamos e não caracteriza nossa época mais do que outras. O que caracteriza nossa época é que a frase de Marx “tudo que é sólido desmancha no ar” necessita de um adendo, um lembrete: “a linguagem nunca nos pareceu sólida”.

Ora, temos a impressão que ela não é sólida porque ela é som e grafia. Parece mero instrumento. Não parece constituir o mundo. Mas sabemos, com Wittgenstein, que “os limites do mundo são os limites da linguagem”. Sabemos com Heidegger que a linguagem constitui a si mesma e nossa existência. Assim, a juridificação tem sua verdade e sua razão. Efetivamente ela toma conta do mundo. Ela pega o mundo – sim! Pegar alguém pela linguagem é efetivamente pegar alguém. Mas é também poder não pegar alguém outro. Posso soltar o ladrão contanto que eu pegue aquele que foi chamado de ladrão por uma narrativa que não teve dinheiro para ser lida de outra maneira. Posso condenar na minha igreja evangélica a “mulher falada” (que se note aí o “falada”) de uma forma muito superior àquela instaurada na Igreja Católica, que nunca quis seguir Jesus quando este salvou Madalena.

A linguagem não é sólida, mas isso não quer dizer que ela não seja consistente. Ela é maleável. Atingir a linguagem é atingir algo que se pode pegar por níveis, camadas, setores. A sutileza da nossa moderna sociedade de mercado mudou nossa punição e nossa forma de luta uns contra os outros. Não a aboliu, mas permitiu uma seletividade mais matreira.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

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6 Responses “Teoria contemporânea do pecado”

  1. Pedro Santos
    22/12/2014 at 02:32

    Essa completa judicialização da vida, profetizada por Kafka em su livro O Processo está se tornando cada vez mais dominante. Hoje em dia o que determinado ministro do STF diz parece ter mais relevãncia para a sociedade que o que diz um parlamentar, que teoricamente é o representante do povo. Matérias que deveriam ser pautadas na Câmara são discutidas e aprovadoas por súmulas dentro da esfera jurídica e ninguém questiona o porquê de um órgão jurídico, não eleito, ter mais poder atualmente que o Executivo e o Legislativo, contrariando a tese de Montesquieu do equilíbrio entre os três poderes.

    • 22/12/2014 at 10:08

      Pedro boa lembrança! Kafka! Justo ele.

    • 4F
      25/12/2014 at 03:35

      Verdade. Mesmo assim, vou até arriscar uma resposta.

      São precisamente os representantes eleitos, pela sua prórpria condição de elegibilidade, ou seja, pensando apenas nas próximas eleições, que querem ver seu nome bem longe de questões polêmicas (leis sobre aborto, cannabis, etc.)

      Por isso acaba sobrando para o Legislativo ter que legislar sobre fatos consumados (vide, p. ex., a questão de fetos anencéfalos).

      Quando os legisladores se omitem, acaba sobrando para os juristas…

    • 25/12/2014 at 19:43

      Não entendi patavina da sua resposta a este meu artigo!

    • 25/12/2014 at 19:44

      4F! Isso é uma resposta ao artigo indicado? Creio que não, né?!

    • 4F
      26/12/2014 at 00:05

      Não!

      Era uma observação sobre a resposta de Pedro Santos acima. Mais especificamente, na parte onde ele diz:

      “Matérias que deveriam ser pautadas na Câmara são discutidas e aprovadoas por súmulas dentro da esfera jurídica…”

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