Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

23/03/2017

Sexo, drogas & rock in roll entre Tati Bernardi e Zé Dirceu


Tati Bernardi quer “um Cazuza prá viver”

“Ideologia, eu quero uma prá viver” – eis aí uma frase que não vale nada e, em uma lírica, menos ainda. Quando a escuto, tenho a sensação de estar vendo a caricatura daquilo que, antes dela, já era um pastiche se movimentando. Nasci nos anos cinquenta, fui criança nos anos sessenta e jovem nos anos setenta. Para a minha geração o Maio de 68 sempre foi algo que, se lembrado, poderia produzir o pior, a imitação barata. Para a geração que veio depois da minha, os que foram jovens nos anos oitenta, esse pudor acabou. Cazuza foi algo mais ou menos assim, a chance de ser “cool”, se esfregar em Caetano e, de certo modo, dar aos jovens a sensação de estarem fazendo alguma coisa. Mas o que fizeram foi o pastiche e, em alguns casos, a caricatura do pastiche.

Essa estrutura mental que faz com que pessoas participem de reedições de certos movimentos culturais, de modismo ou não, mais ou menos sérios ou não, é a mesma que se encontra hoje presente nos que se desencantam do PT tardiamente. Deveriam ter se desencantado no início dos anos noventa (mas não, é claro, na fundação do partido, como o espertalhão do FHC sempre diz que ele fez, dado que ele é mesmo o espertalhão). Afinal, quando caiu o Muro de Berlim e, depois, com o fim da URSS, ficou claro que o PT não era uma “nova esquerda”. Ou seja, o PT não era Suplicy ou Betinho ou Luiz Eduardo Soares. Só um dado, para lembrar: quando caiu o Muro, havia gente do PT, sindicalistas, fazendo curso de sindicalismo na Alemanha Oriental! Curso de sindicalismo no país do sindicato atrelado ao estado sob uma ditadura comunista! Sabiam disso? Pois é! (como até pouco tempo havia petistas defendendo a ditadura cubana!).

Mas apareceram mais chances para dissidências. Por exemplo, questões internas todas e, principalmente, é óbvio, o “Mensalão”. Mas não! O PT realmente defendeu Zé Dirceu e outros, naquela época, porque já haviam incorporado a ideia que tanto se criticou no populismo, por exemplo, de Brizola: o militante deve sempre achar que o líder está certo, pois o líder fez o que fez para o bem da causa, do partido, do “socialismo” ou coisa desse tipo. A prova disso veio agora. Nessa segunda prisão de Dirceu o partido resolveu ficar quieto porque “agora Zé Dirceu tirou proveito próprio” do roubo. “Pode isso Arnaldo?!”

O voto em Dilma de gente que havia se afastado do PT e que, diante do discurso muito à direita de Aécio, foi buscar a estrela no fundo da gaveta, foi um voto já não mais do militante apaixonado, mas daquele que deu uma última chance para Lula e sua turma. Foi um voto negativo. Um voto para não deixar o PSDB entrar, um partido que se apresenta com um discurso de austeridade republicana insensível à pobreza. Mas não foi um voto de amor ao PT. Desse modo, espanta-me ver o texto de debutante ou de normalista dos anos cinquenta produzido por Tati Bernardi, posto na Folha de S. Paulo com o título “Como continuar petista?” O texto nos deixa de boca aberta, com a pergunta: de onde saiu essa moça bonita que está nesse grau de ingenuidade?

Mas ao mesmo tempo Tati Bernardi é a luz explicativa de tudo que o PT conseguiu fazer para destruir a agenda e o ideário da esquerda no Brasil, após ter sido justamente o pilar de sustentação da esquerda e também o atestado de vitória de políticas sociais que precisavam ser testadas e que, uma vez testadas, deram certo. A existência de Tati Bernardi nos mostra como gente como Zé Dirceu até hoje pode fazer pessoas acreditarem no heroísmo como título, como aval para qualquer malabarismo político-gangsterista.

Talvez o pior de tudo isso não é Tati Bernardi no seu reencontro com o que todo mundo já sabia, mas a tentativa da Veja, os que ainda estão na Guerra Fria e, portanto, mais ainda fora do tempo que Tati, vir querer lhe dar lição! A ingenuidade de gente como Tati Bernardi possibilitou sim ao PT ficar mais um pouco fazendo a coisa errada. Mas a ingenuidade de Tati Bernardi sempre deve ser lembrada como orgulho de todos nós, os eternos ingênuos. Também nós, filósofos, só somos filósofos por conta da ingenuidade. Sem a ingenuidade nossa não há experiência válida no mundo.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: , , ,

4 Responses “Sexo, drogas & rock in roll entre Tati Bernardi e Zé Dirceu”

  1. roberto quintas
    11/08/2015 at 13:29

    eu vou proferir uma heresia. O Cazuza é o pequeno burgues que fez sucesso com seu rock-pop [que deu espaço para o rock-infantilizado de Blitz e Mamonas] simulando contestação social [punk], sendo mais bem sucedido em sua emulação do que o Renato Russo. podem me apedrejar.

    • Matheus Kortz
      11/08/2015 at 14:49

      Nunca parei para pensar nesses termos, eu nem tinha nascido quando o cazuza morreu, eu acho… não me lembro. Acho que é por isso que nunca gostei de sua música, já não era de meu tempo, e não tema grandiosidade que um clássico exige.

  2. Matheus Kortz
    09/08/2015 at 11:53

    Professor, podemos dizer que a prova de que nosso país é atrasado está na presenç desses seres que vivem na guerra fria??

    • ghiraldelli
      10/08/2015 at 13:32

      Talvez

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo