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20/09/2019

Talvez tenhamos mesmo que nos livrar do MinC


Será que realmente precisamos de um Ministério da Cultura?

Há males que vem para bem? Sim, e há o bem que vem para o bem. Talvez essa crise nos ensine a sermos mais generosos de um modo geral, em termos filosófico-utópicos. Talvez finalmente tenhamos que levar a sério algumas ideias interessantes, as que aglutinam a filantropia, o mecenato e a curadoria.

Pode ser que tenhamos, finalmente, de criar alguma coisa, no trato com a cultura (artes em geral & letras), que não raro temos elogiado, mas que sempre tivemos medo de tentar, algo que atribuímos à mentalidade vigente na América e nos países de cultura britânica. Trata-se da ideia de requisitar os ricos no sentido de integrá-los na sociedade, dando-lhes a chance de orgulhosamente poderem ser reconhecidos para além do trivial e falso reconhecimento causado pela posse do dinheiro. Aliás, dinheiro não cria nenhum reconhecimento, no sentido de fomentar uma identidade perdurável. Isso não é possível? Será que nossa elite do dinheiro não está realmente interessada? Podemos saber sem tentar?

Para uma visão tradicional da esquerda, os ricos são perversos, brutos, incultos e só são capazes de fornecer algum retorno para a cultura – e mesmo para a sociedade – por meio de um martelo do estado, que os faça por a mão no bolso por meio de forte taxação. Mas essa é uma visão ideológica. Ela jamais foi posta à prova após termos entrado para a República.

Tivemos a disputa entre positivistas e liberais e, depois de 1930, os positivistas levaram a melhor, finalmente, e daí para diante tudo que entendemos como sendo da ordem do progresso passou a depender do estado. Os liberais foram vistos como “carcomidos”, eternos chorões centrados nas elites paulistas e adjacências. Enquanto nos Estados Unidos se viram próximo da esquerda, sempre cultivando a liberdade, aqui os liberais foram vistos como negando direitos, cultivando a liberdade só para eles e, de resto, querendo incentivos estatais para suas empresas sempre falidas, dinheiro este muito maior que aquele que o estado poderia dar, por leis trabalhista, para os mais pobres.

Ora, nossa sociedade foi educada para acreditar nisso. Mas, o caso é que isso pode não ser de todo o retrato real de nossas elites. Inclusive, não sabemos, mas esse modo negativos de vermos as elites pode ter conquistado o próprio auto-retrato dos ricos. Essa visão pode ter vindo a calhar, como uma forma preguiçosa de se adaptar a um retrato não generoso, herdeiro de lutas antigas vencidas pelo estatismo positivista, traçado pela visão dos partidos populares (inclusive o varguismo, claro), adversários das elites liberais. Essa hipótese não é tola!

Peter Sloterdijk aposta que o gasto sem retorno, a vida sem acumulação, tem suas raízes antropológicas. O homem precisa de reconhecimento e, para tal, não titubeia em doar e até gastar a mais do que pode, exatamente para atrair o olhar do outro. O homem é um animal timótico, ou seja, não tem apenas cognição e paixão, mas possui o thymos, o órgão da ira, do ressentimento, mas também da coragem e do orgulho, de tudo aquilo que fixa a identidade. Uma vida timótica é uma vida em que dá ao indivíduo a chance de ser reconhecido porque o orgulho tem por onde se expandir. Grupos sociais e indivíduos podem se sentir muito bem em uma sociedade se lhes cabe, diretamente, o cuidado para com as instituições culturais dessa sociedade.  Que se preste atenção nesses ditos: “isso é dos meus cuidados, isso é uma criação de minha família, isso tem tradição porque meu grupo social gerou e manteve” – esse tipo de frase é comum em lugares em que o thymos dos ricos e mesmo da classe média é posto para se desenvolver em associação com tarefas sociais de manutenção da vida comunitária. O espraiamento dessa mentalidade em uma comunidade é possível a partir dos de cima. Os exemplos não faltam na história. Trata-se da proliferação de uma economia timótica dos afetos, como diz Peter Sloterdijk, que ele elabora olhando para Hegel, Nietzsche e Bataille.

No Brasil, na verdade, nunca demos chance para essa mentalidade. Botamos na cabeça que não daria certo, e sempre tivemos medo de dizer a nós mesmos: não é só o que é comercial que vai valer se não tivermos o MinC, mas talvez possa valer também aquilo que não é comercial, mas que receberá seus curadores entre as elites. Será que não? Será mesmo que nosso modo de ser, que dizemos que é paternalista e dependente do estado, já não é mais só ideologia? Será que espelha alguma boa descrição de como somos? Por que não aproveitar a chance do fim do MinC e buscar uma nova forma de relacionamento entre sociedade e artes, de modo que artistas e pessoas ricas tenham uma relação direta? Caso isso ocorra, vamos ter uma arte só comercial? Ou iremos no começo passar alguma dificuldade e, depois, nos surpreender com a integração dos mais ricos no cuidado para com a cultura não comercial?

Sloterdijk tem escrito sobre isso não só por conta do apreço à cultura. Ele tem advogado um fim dos impostos em geral, obrigando cada sociedade a pensar na sua capacidade de guardar e cuidar do que é seu.  Nós podíamos pensar num sistema misto, e começar agora, já, com a cultura? Ou não há coragem, justamente da parte dos artistas, de criar?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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34 Responses “Talvez tenhamos mesmo que nos livrar do MinC”

  1. André
    20/05/2016 at 14:12

    Eu vejo o problema da moral (instituição de valores) aí. Quem não consegue fazer sua moral/cultura/comunidade fundar o valor do que é bom e desejável ficará ressentido e jogará a culpa nas elites do momento. Vemos comentários de cristãos reclamando que o lulopetismo quis destruir valores cristãos, assim como vemos agora esquerdistas reclamando que Temer e a “direita” quer destruir os “progressos sociais”, sufocando os mais pobres.
    Não tem essa, quem faz parte dos “vencedores” se acha do bem e acusa seus oponentes de vileza ou ignorância. É preciso acabar com esse tipo de pensamento quando se trata de obras e atos culturais ou artísticos. Pois insistir nessa dicotomia é não ser capaz de admirar um Dostoiévski por ser um ateu nem admirar um Camus por ser um cristão. Há também o conflito entre o classicismo feito pela nobreza e o vanguardismo feito pelos plebeus. Boa arte não depende necessariamente de condições econômicas, depende mais de talento e diligência. A distribuição deles é bastante democrática.
    Enfim, a perda da cultura do status de ministério, entre outras mudanças que o atual governo está operando, talvez estimule a iniciativa do povo. Ou não, quem sabe o brasileiro seja um eterno resignado pelas benesses do Estado e um praticante contumaz do beija-mão.

    • 20/05/2016 at 14:38

      Será que você leu meu texto, André?

    • André
      20/05/2016 at 15:39

      Li sim. E concordei. De fato, a questão moral está nele. Eu me desviei um pouco do tema, é inevitável quando se é prolixo. Tentei, ingenuamente, contribuir com o debate.

  2. Mateus
    20/05/2016 at 02:53

    Professor, me perdoe a fuga do tema citado, mas qual é o livro ou texto em que o Peter fala sobre as “taxações subjetivas”, ou diretamente sobre essa área da tributação?

    • 20/05/2016 at 11:00

      Vários, você pode ver uma reunião de textos assim feito pela Carla CArmona, da Espanha, pegue na Amazon

  3. Vinicius
    18/05/2016 at 18:59

    Tenho acompanhado seus blogs ultimamente, e cada assunto que vc aborda, me surpreende por perspectivas que nunca pararia para pensar. Embora a filosofia muitas vezes seja no sentido utópico, mas vejo que no fundo vc quer que nos tornemos melhor, mais sensatos e quem sabe uma sociedade melhor. Para mim está sendo saudável acompanhar por caminhos de óticas diferentes, mas infelizmente para muitos isso incomoda.

    • 18/05/2016 at 20:55

      Vinícius, eu tento não ser doutrinário, como os outros.

  4. luana
    18/05/2016 at 15:26

    Seu burro, ele fecharam o ministério da cultura para alienar o povo, pois é assim que a direita trabalha, vai dizer que você não sabia disso? O Próxima passo é o ministro da justiça trocar o diretor da policia federal para arquivar a lava jato e encobrir a corrupção, é assim que a direita trabalha, rouba bilhões e bilhões e depois esconde tudo e quer que o povo fica burro sem cultura e educação.

    • 18/05/2016 at 15:27

      Luana você é um gênio.

    • Guilherme Pícolo
      18/05/2016 at 16:34

      Uau, que pérola o comentário dessa Luana! kkkkk! Também, você pediu, com o título provocativo que escolheu… KKKK! Será que um dia o liberalismo, no Brasil, deixará de ser visto e associado a doutrinas conservadoras de direita ou o chororô “das elite” egoísta e desalmada… Espero que sim!

    • 18/05/2016 at 16:54

      Picolo o título não é provocativo, é exatamente o que eu penso.

    • 20/05/2016 at 21:17

      Ajudem a divulgar isso:
      “Um país bom, precisa de cultura livre e incentivada (seja: teatro, música, pintura, escultura, etc. sem censura), para que as pessoas e o povo possam evoluir, descobrir, avançar em paz e prosperidade”.
      O país sem liberdade de se manifestar culturas, fica refém de fanatismos religiosos e terroristas, que vão impondo cada dia mais ” proibições “, conheçam exigindo um tipo crenças, depois de palavras, depois um tipo de barba e cabelo, depois roupa , depois casa, família, assim vão exigindo cada vez maid submissão aos líderes tiranos religiosos.

  5. Marco A M Neves
    18/05/2016 at 15:21

    Cultura pode ser considerado como um índice de aprendido e transmitido em sociedade.
    Cultura pode ser também definido como Nação e Sociedade.
    Cultura é também diferente de erudição.
    Quando falamos em cultura permita-me colocá-la como um segundo passo posterior a educação

  6. Luiz
    18/05/2016 at 14:01

    A melhor coisa que o temer fez foi fechar o ministério da cultura que só servia para financiar artistas de esquerda que promoviam o comunismo.

    Esse ministério da cultura foi criado com o objetivo de destruir a cultura ao promover eventos culturais contrários a família e a moral judaica cristã. Por tanto pelo bem da Cultura e da moral, esse ministério foi extinto.

    Para completar a cereja do bolo o temer deveria acabar com a maldita lei Rouanet e pra gente ter uma educação decente é necessário fazer uma limpa e demitir todos os professores esquerdistas que doutrinam os alunos para o comunismo, pois só assim teremos uma cultura e educação que preste.

    • 18/05/2016 at 14:28

      Luiz, quando eu escrevo, faço para inteligente, não é para você.

    • Luiz
      18/05/2016 at 15:12

      Burrice é acreditar que o governo tem se meter com a cultura do povo, pois quem faz isso são os governos autoritários para doutrinar o seu povo.

      E é exatamente isso que vem acontecendo durante o governo PT. Esse governo vem usando a cultura para destruir os nossos valores morais e promover o comunismo.

      Porquê você acha que tantos artistas apoiam esse governo?
      e a ascensão do funk que promove a putaria, você acha que tudo isso aconteceu por acaso ?

    • 18/05/2016 at 15:30

      Luiz, quando você aprender que esse seu “porquê” é um erro grosseiro, aí você reaparece aqui. Por enquanto, você falando de cultura é algo a não ser ouvido. Termina a escola básica, arruma emprego, faz sua primeira barba, aprenda o português. Daqui 20 anos, volte.

  7. 18/05/2016 at 11:51

    Eu escrevi um livro em 2012, tentei em várias editoras e ninguém se interessou, escrevi duas peças de teatro, tentei em várias companhias, a maioria você não consegue nem falar com o diretor geral, consegui 3 ou 4 pessoas que leram meu trabalho, as 3 gostaram, mas disseram apenas “boa sorte” continue tentando uma hora você consegue!
    Chega ser uma piada falar que há incentivos para que todos tenham a chance de mostrar seu trabalho!
    É quase um circo onde só entra quem pertence a família circense. Agora com o fim do cartel da Cultura quem sabe não seja apenas por sorte que alguém consiga!
    Por falar nisso minha terceira peça escrita está aqui:
    http://reflexhuman.blogspot.com.br/2015/12/gomes.html

    • 18/05/2016 at 12:05

      Roberto, se você tem competência você põe seus textos na net. Acorda meu caro.

  8. Correia
    18/05/2016 at 11:12

    “Os ricos farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.”
    ? Leon Tolstoi

    • 18/05/2016 at 12:06

      Correia, é fácil ter um frase pronta, que não é nem sua, para não pensar.

    • Correia
      18/05/2016 at 12:42

      Exato!

      Assim como é muito fácil cair na ingenuidade de achar que os ricos, bondosos ricos, duma hora pra outra, vão querer ajudar os pobres, dividir a riqueza com estes sendo que quem produz a riqueza são os pobres.

      Outra coisa muitíssimo fácil é se autoproclamar filósofo e reproduzir apenas o que outros filósofos já disseram.

    • 18/05/2016 at 12:51

      Correia, repito o que lhe disse, você é o cara que não consegue ler e pensar, já tem tudo sabido. É um gênio. Vou correndo pegar seus livros.

    • Correia
      18/05/2016 at 12:59

      Obrigado, professor!
      Só uma correção: O gênio filósofo aqui é o senhor.

    • 18/05/2016 at 13:08

      Correia, eu sou filósofo. O gênio é o da lâmpada. Você é apenas o burro.

  9. Cristiano Frota
    18/05/2016 at 10:52

    Definitivamente, pelo que reconheço, não há o que temer quanto à cultura. No exterior e aqui mesmo, pelos séculos, somos marcados pela relação entre a elite econômica e a elite artística. No fim, eles acabam criando juntos clássicos na música, na dança, etc. Me parece que a esquerda quando veio, veio para segregar, tanto é que termos como “emancipação” ficaram unicamente atrelados a esses grupos.

    • 18/05/2016 at 12:07

      Essa proposta minha pode ser considerada de esquerda, e assim pensa Sloterdijk

    • Cristiano Frota
      18/05/2016 at 18:04

      Sim, claro, Paulo. Mas, não é posta por essa esquerda que temos aqui.

    • 18/05/2016 at 21:00

      Cristiano, qual esquerda temos aqui? PT, PSOL? ACho que não temos que pensar nos mesmos.

    • Cristiano Frota
      18/05/2016 at 18:09

      Sim, claro, Paulo, compartilho disso que falou. Você talvez seja único. Queria me corrigir: “A esquerda brasileira no geral, quando vem, vem para segregar…”.

    • 18/05/2016 at 20:59

      Cristiano, será? Olha, a esquerda não veio para segregar, mas há momentos que grupos minoritários não entendem uma questão simples. Vou dar o exemplo americano: afro-americano dá direitos, só afro, tira direitos. Quando o movimento minoritário não entende os ganhos que tem ao se acomodar à democracia vigente, e então reclama uma identidade excludente, ele acaba perdendo direitos. Rorty explicou isso para feministas, negros etc. nos EstadosUnidos, nos anos 80. Aqui, não adiantou explicar.

    • Cristiano frota
      18/05/2016 at 22:33

      Sim, sim! Totalmente de acordo, prof. Obrigado pelo comentário.

  10. Tony Bocão
    18/05/2016 at 09:52

    Já é prática da OSESP a anos.

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