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17/10/2019

Suzana Herculano-Housel comanda prática do Professor Pardal


O modo como Suzana Herculano-Houzel conta as coisas dessa tal de “ciência do cérebro” pode ser puro auto-engano. Caso não, então, pior ainda, pode ser desejo de enganar! O cérebro não fala. Quem fala somos nós, e não somos “um cérebro”. E ela teima em não aprender isso, coisa que o aluno de Humanidades de primeiro ano logo fica sabendo, e que continua sabendo depois do doutorado.

Cérebros fazem “movimentos”,  mostram “disposições neurais”. Só isso. Decidir que tais “disposições” são isso ou aquilo é um processo de associação, de trabalho mais falho que o de qualquer outra indução. Se uma certa disposição neuronal diz para nós algo melhor do que a nossa própria linguagem junto de comportamentos corporais, isso advém não de uma grande sabedoria, mas da montagem de um mapa de correlações que, na base, nada é senão um conjunto de chutes. Vejamos.

Você diz S: “o cérebro faz X (disposição neuronal) e isso mostra que ele sabe de Y (informação que lhe é dada por meio do dono do cérebro ver Y)”. Ora, como que você fez a correlação? Simples, você olhou um catálogo, montado por indução (portanto, sempre sujeita a mais falhas que imaginamos), onde alguém inicialmente estabeleceu: quando cérebro faz X, o que aconteceu fora dele é Y. Ou seja, você apresenta com S um enunciado que diz nada além do que já disse, ou seja, pode haver alguma correlação entre certos movimentos do cérebro e certos eventos do meio ambiente ou do resto do corpo. Afinal, quando alguém recebe a informação Y, esta pessoa responde com a linguagem (para ela mesma ou para outro), e também produz uma série de movimentos corporais, e tudo isso já nos dá a informação que precisamos para a nossa psicologia e para qualquer ciência a respeito do homem. Não à toa a folk Psychology serve para muitos cientistas e filósofos que, afinal, sabem mais sobre nós mesmos que a Susana, mas às vezes sabem menos que o pessoal do marketing.

Fazemos isso, essa investigação comportamental, desde que o mundo é mundo, ou seja, psicologia popular. Além disso, na academia, fazemos isso usando de psicologias de todo tipo, associando-a à antropologia e à literatura. Tudo que precisamos saber sobre nós mesmos é dado pela observação, em terceira pessoa, do que alguém diz e de como se comporta ao ser tocado por uma informação. Ou então sabemos por meio de nós mesmos, em primeira pessoa, por introspecção associada a métodos de auto-registro.

Se olhamos o comportamento do cérebro quando o portador de tal cérebro está diante de Y,  e vemos certa disposição neuronal, que denominamos X, isso que registramos pode ser relevante para a área médica do neurocirurgião ou para produção de remédios etc. Mas que fique claro: em termos do conhecimento do homem, não é um saber epistemologicamente superior, algo que, para efeitos de conhecimento da pergunta “o que é homem?”, seja um elemento que diz as tantas coisas que Susana Herculano acha que sabe ao ver tal correlação. O materialismo da química do cérebro não é tão superior, para se saber do homem, e não para produção de remédios, do que o materialismo dos filósofos de qualquer época.

Talvez o erro que aponto seja só um erro vindo da forma de expressão da Susana. Ou seja, na hora de tornar as coisa populares,  de virar colunista social, então Suzana pode estar dando a impressão de que ela, olhando o que ocorre com cérebro, tenha descoberto o segredo da natureza humana, como que falando que há no homem algo que conta coisas sobre ele para além de tudo o mais. Mas como o cérebro aparece de tal modo fetichizado nos textos dela, e de maneira tão insistente, que acabo achando que ela própria, Susana, já se enredou no auto-engano. Ela própria parece achar que está sabendo algo que qualquer psicólogo ou filósofo ou político ou marqueteiro não saiba sobre os homens. Não está.

Cientistas podem e devem observar correlações X-Y, podem nos trazer muitos benefícios investigando a química do cérebro. Afinal, quem de nós não toma anti-depressivos e correlatos? Mas, em termos de conhecimento geral do homem, de comportamento, desses do tipo que Susana conta nos seus textos, isso não vale tanto, talvez nada. Dizer que o ela disse em seu último artigo (Folha, 13/09/2016), que o cérebro sabe que o resto do corpo está em constante mutação, é algo que o Pato Donald ficou sabendo nos anos cinquenta, por conta do Professor Pardal.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 13/09/2016

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7 Responses “Suzana Herculano-Housel comanda prática do Professor Pardal”

  1. Manderlay
    13/09/2016 at 17:27

    Fui ler o artigo (no jornal) para tentar entender o texto (do blog). Penso que a parte relevante está contida nos três últimos parágrafos do artigo dela.

    O que ela diz com relação às próteses eu entendi de maneira análoga ao que acontece durante um sonho. Por exemplo, quando alguém sonha que corre, o “movimento” no cérebro é “real”, ou seja, a sensação cinestésica estimula certas áreas do cérebro, etc. A diferença do sonho com a realidade é que quando o corpo está em estado de reposo profundo o “circuito” que liga o cérebro com os músculos da perna está “desligado” ou fracamente ligado.

    Penso que o que ela quer dizer no artigo é que correr com uma prótese é, do ponto de vista da resposta do cérebro, parecido com o estado de estar sonhando com uma corrida, com a diferença que agora no estado de vigília o estímulo do cérebro para o músculo funciona, ou seja, o sinal é enviado, embora não tenha músculo para receber, mas a prótese.

    Ela não diz isso explicitamente. Eu elaborei esta analogia para tentar explicar melhor. Concordo que o artigo dela não é muito explicativo. Sobre os outros artigos que ela escreve no mesmo jornal não saberia dizer porque nunca li nada.

    • 13/09/2016 at 19:35

      Manderlay isso eu sei, claro. O problema é que ninguém precisa da “ciência” dela, do modo como ela põe as coisas, para explicar o que ela acha que explica. Acho que você entendeu o artigo dela, mas não sei se entendeu o meu.

  2. Daniel
    13/09/2016 at 09:59

    Parece que ela está com alguns modernos na inversão metafísica. Antes a metafísica antiga e medieval procurava, ou melhor, projetava a verdade para um “Além-Mundo”. Na modernidade isso parece se inverter com a questão do sujeito quando tentam procurar no pensamento, no cérebro, enfim no corpo, um “Além-Interno”, uma verdade interna no corpo que pode nos revelar um mistério.

    • 13/09/2016 at 10:03

      Daniel, é mais ou menos esse tipo de ingenuidade sim.

  3. valter josé maria filho
    13/09/2016 at 09:53

    Bom texto….

  4. 13/09/2016 at 09:51

    É que a Suzana tem dificuldades de sair do plano literal. Quando alguém faz uma ironia, por exemplo, ela demora um dia para entender! Foi o que ela disse uma vez em texto na Folha, Paulo.

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