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20/02/2020

Susana Herculano-Housel e a auto-ajuda que quer ser ciência


O artigo da colunista da Folha Susana Herculano-Housel tem como título “O porquê disso tudo” (22/12/2015). O “tudo” que ela quer explicar é nada mais nada menos que a falta de razão para continuar a fazer o que fazemos se no fim todos morremos e se, segundo o que ela chama de “lógica”, também a humanidade ira se ferrar. No meio do diminuto texto ela então resolve esse problema filosófico que durante 25 séculos, sem solução, foi abordado por inúmeros filósofos. Estamos diante de um prodígio. 

O que ela conta? Ah! Sim, sim, ela fala do cérebro. A peça mágica de Susana entra em ação. Vejam: “

Temos em seu cerne [cerne do cérebro] um conjunto de estruturas, o sistema de recompensa e motivação, que premia algumas de nossas ações – justamente aquelas que prolongam nossa existência – com uma sensação inequívoca de satisfação, prazer e felicidade. É a alegria do presente e a expectativa decorrente de um pouquinho mais de prazer que nos mantêm em movimento e interessados em permanecer assim e, portanto, vivos.

Ela poderia trocar “cerne” e “conjunto de estruturas” por qualquer outra palavra. Poderia também trocar para sempre a palavra cérebro por qualquer coisa do tipo “psicologia”. Folk Psychology diriam davidsonianos e outros filósofo americanos. Ou seja, nossa psicologia humana é auto-reguladora no sentido da completude. O que Peter Sloterdijk chama de antropotécnicas são os mecanismos da evolução que nos tornaram assim. Vários filósofos chamaram a auto-completude de “Deus”. Outras falaram dos vários sentidos da “eudamonia”. Alguns denunciaram esse tendência à auto-completude ou paz interna ou felicidade como auto-engano, ideologia, mecanismos inconscientes, forças culturais de amizade, tendência a auto-preservação etc., Por não ter tido um professor de filosofia no ensino médio, pode-se não aprender a trocar palavras e, então, acreditar que ao se falar “cérebro” dizemos algo do efetivamente real, algo mais real que tudo que está ao redor, e que resolvemos o problema que ninguém resolveu. Aliás, quanto estamos nessa situação de incultura, nem sabemos como o problema foi equacionado.

Se podemos dizer que o homem é endorfinado ou se o homem tende à felicidade, ou até se podemos dizer que “apesar de tudo” o homem quer a felicidade, isso não muda nada. O que muda é o escritor saber da existência de jogos de linguagem (Wittgenstein) diferentes que buscam se adaptar a conversas diferentes, e que o jogo de linguagem da auto-ajuda chamada neurociência não é dos melhores, talvez seja o mais pobre.

Aliás, em termos de “realidade”, posso operar o cérebro para modificar comportamentos, mas também posso operar a linguagem e modificar comportamentos. Posso operar a sociedade ou parte dela e modificar comportamentos. Posso alterar a literatura de uma época e de um lugar e alterar comportamentos. Aliás, todos nós preferimos alterar comportamentos por vários mecanismos, inclusive educação, e não por intervenção cirúrgica, a não ser quando estamos diante de alguém acidentado que perdeu funções etc. Nesse sentido, neurociência é algo do hospital, e lá deveria ficar. Quando sai do hospital só presta para o desescolarizado em filosofia escrever mais um supra sumo de besteirol.

Putz, isso cansa. É muito ruim como literatura.

Paulo Ghiraldelli Jr, 58, filósofo.

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10 Responses “Susana Herculano-Housel e a auto-ajuda que quer ser ciência”

  1. sergio porto romero
    12/03/2016 at 21:35

    A diferença dos avanços dos conhecimentos científicos (incluindo aí as ciências humanas e sociais) em relação à intuição dos grandes filósofos é que enquanto esses dão apenas suas opiniões (por mais geniais que sejam), aqueles são baseados em evidências e experimentação, coisa que distingue as abordagens científicas das demais. Evidências e experimentação nos dizem como o mundo (e nele nós inseridos) é e não como achamos ou gostaríamos que fosse. Por isso na antiguidade todas as áreas do conhecimento pertenciam à filosofia e hj apenas algumas poucas que não foram ainda capturadas por ciências mais bem estruturadas. Por mais genial que seja o filósofo, ele nunca vai poder superar o poder das evidências e da experimentação. Como exemplo cito a física e a biologia de Aristóteles que, não obstante a sua genialidade, hj sabemos estarem totalmente erradas. O cérebro humano é muito complexo (a estrutura mais complexa conhecida pois o número de partículas no universo é da ordem de 10 elevado a 79 enquanto que o número de diferentes circuitos possíveis na rede de neurônios do cérebro humano é da ordem de 10 elevado a 1000000, isso mesmo um milhão!) e nem sei se algum dia a ciência será capaz de entender de forma definitiva o seu funcionamento, mas o seu papel é continuar tentando e avançando nos conhecimentos, como tem feito de forma muito bem sucedida ao longo dos séculos. Abs.

    • 13/03/2016 at 03:09

      Sérgio, nem a ciência e nem a filosofia funcionam com essas certezinha sua.

    • sergio porto romero
      20/03/2016 at 22:31

      Caro Paulo, obrigado por ter respondido, sou seu fã do hora da coruja e outros vídeos. O Sr. poderia apontar os principais pontos dos quais discordou? O objetivo do meu comentário não era rebater o seu artigo e sim colocar uma opinião minha a respeito da abordagem científica, da qual sou admirador. Abs.

    • 21/03/2016 at 09:13

      Sérgio, está no texto querido.

    • sergio porto romero
      27/03/2016 at 22:36

      Caro Paulo, eu me expressei mal. Na verdade eu me referia a discordâncias com o meu comentário inicial e não ao trabalho da Susana. Aproveito para esclarecer que, se pareci dogmático ou portador de alguma certeza, novamente não me fiz entender direito. Uma das características da abordagem científica e que me faz admirá-la é justamente a ausência de certezas absolutas, diferentemente das religiões, p.ex.. Os conhecimentos científicos estão sempre abertos para serem contestados ou aperfeiçoados. O problema é que as atividades humanas como a política, a ética e o convívio em sociedade são muito complexas, e a abordagem científica é mais difícil nestes casos, mas imagino que seja possível avançar cada vez mais também nessas áreas. Por exemplo, existem experimentos científicos na área de comunicação para avaliar o impacto do numero de horas assistidas de TV na opinião que as pessoas têm de determinados assuntos. A psicologia também usa muito os testes científicos. Não sei com relação a sociologia. Gostaria se o Sr pudesse comentar a respeito. Abs.

    • 28/03/2016 at 09:35

      Sérgio, o trabalho da Susana é um lixo. Uma auto-ajuda tonta. Chamar aquilo de ciência é ser ignorante em ciência.

  2. Maximiliano Paim
    23/12/2015 at 11:28

    O jornalismo está permeado dessas pessoas. Fabrício Carpinejar (ou capim mijado) é um desses sofistas dos piores.

  3. Micaías de Souza
    22/12/2015 at 18:48

    Camus diria justamente o contrário: a vida passa, necessariamente, por uma reflexão sobre a morte. E, de fato, a felicidade pode levar ao suicídio. Ele diz: ” a grande questão da filosofia é o suicídio”. Ele assim diz, pois a emergência da consciência é um momento trágico, já que o ser humano aprende primeiro imaginar e só depois toma consciência da sua posição no espaço: social, histórico, etc.
    Entretanto, este raciocínio, apresentado pela Susana, não chega nem próximo das ideias de Pavlov. Todavia, mesmo que o discurso dela estivesse adequado às ideias de Skinner e Pavlov, denotariam uma inércia conceitual e literária na área da psicologia e ciências correlatas.

    • 22/12/2015 at 23:10

      Bem. Micaías, é claro que minha questão não é essa. Não dá para levar a sério o que é dito em neurociências, como ela faz.

  4. G. DE JESUS
    22/12/2015 at 17:46

    Se Schopenhauer conhecesse a neurociência como mecanismo de findar o sofrimento não teria nos contaminado com o vermezinho do pessimismo. Ainda bem que não foi…

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