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18/11/2018

Subjetividade pós-metafísica – um mini verbete


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

“Fim do sujeito” – eis aí um enunciado que pulou os muros da academia e chegou até à imprensa. Isso ocorreu principalmente a partir do final dos anos setenta, especialmente por conta do invólucro chamado “pós-moderno”. Mas, do que se trata?

O sujeito não chegou ao seu fim, como término no sentido de acabamento, ou como inutilidade no sentido de não ter mais sentido. O que se esgotou, de fato, foi a ideia inicial e primordial de sujeito, ou seja, o de vir do grego hypokeimenon, que significa “o que é posto em baixo”, traduzido para o latim subjectum, aquilo que subjaz, e em ambos os casos isso ter sido visto como um suposto metafisico, um suposto último. Em ambos os casos, trata-se do suposto ou pressuposto que não supõe mais nada, e que então, na verdade, supõe a si mesmo. Sujeito, nesse sentido, sempre foi o “fundamento” e, como fundamento último, o chamado “fundamento metafísico”. Foi o sujeito metafísico ou a “metafísica da subjetividade” (Heidegger) que foi anunciada com tendo se esgotado, dentro do contexto do que se fez como “pós-moderno”.

Esse sujeito haveria se esgotado na medida em que nossa época, pós-metafísica, tem a tendência de não confiar mais, ou não mais precisar, de um fundamento que seja o fundamento último (ou primeiro). Um certo pragmatismo disseminado nos diz, como Rorty cansou de afirmar, que podemos nos contentar com a atividade de “dar e pedir razões”, e com isso chegar a ter crenças sólidas e desejos legítimos que se entendem como provisórios. Só os ainda religiosos ou filósofos tradicionais iriam querer um ponto fixo, um além-mundo, para uma garantia eterna sobre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, que aparecem em sentenças e atos do lado-de-cá-do-mundo.

Podemos concordar com o pragmatismo. De fato, todos nós, de uma forma de outra, concordamos. Mas podemos discordar quanto ao fato de que um certo fundamento, inclusive com o nome de “sujeito”, permaneça válido não segundo uma ordenação metafísica, mas como um elemento norteador de nossa vida. Seria um loucura afirmar não queremos mais a igualdade em dignidade só porque não temos mais, no âmbito do além-mundo, um modelo de dignidade e um modelo de homem adequados para legitimar a busca por igualdade de dignidade no mundo-do-lado-de-cá. Aliás, se desaparece a metafísica, o além-mundo e o mundo-do-lado-de-cá perdem o sentido, a dualidade explode.

Por isso, os estudos em subjetividade podem ainda ter lá a sua força, mesmo numa era pós-metafísica.  Estudos desse tipo vieram com Foucault, por exemplo, ao querer mostrar como que engendramos instâncias capazes de nos sujeitar e, assim fazendo, nos tornar sujeitos, criar a subjetividade por meio de subjetivações. Podemos dizer que Agamben também participa de estudos sobre a subjetividade que são pós-metafísicos.

A ideia de Agamben é que, se adotamos o paradigma de que o sujeito é o suposto, e este suposto, ou seja, aquilo que nos enunciados é o que recebe a predicação, ou seja, é o sujeito da predicação, então há espaço para se falar em subjetividade.

Agamben vê nos estudos de Benveniste o espaço de criação do sujeito e da subjetividade. Ou seja, não temos a linguagem como algo natural, mas como algo aprendido, ainda que aprendido por conta de potencialidades nossas, e então quando adotamos a linguagem, junto dela pegamos os shifters, e um deles, o “eu”, é o que nos faz poder assumir a linguagem como sendo a nossa fala. Se digo um enunciado e quero que esse enunciado seja meu, eu começo dizendo “eu”. Este “eu”, para que ele seja eu, precisa se manter preso à enunciação, à voz que emito. As outras palavras não precisam disso. “Vaca” é vaca. Mas o “eu”, o “aqui” e o “agora” não fazem esse sistema atemporal de referência, eles fazem a referência em associação temporal com a enunciação, a fala, aquilo que se faz voz humana, ou que tomamos como sendo a voz humana. A linguagem é, assim, uma instância em que, ao nos tornarmos usuários dela, nos possibilita auto-referência, e então uma apropriação de acúmulos de experiências que, enfim, são da linguagem, mas que se parecem como sendo as nossas, a de quem pode falar “eu”. A linguagem é, então, um instrumento de subjetivação na medida em que nos dá um self que vem associado ao “eu”, e nos faz achar que este self é o eu, o eu não linguístico. Mas só existe, de fato, o “eu” linguístico, e este é que nos possibilita criar nosso eu psíquico.

Essa explicação, claro, tem de ser tomada no âmbito da filogênese e no âmbito da ontogênese, guardada as devidas proporções e acertos de uma narrativa e outra.

Assim, se cada usuário da linguagem começa a falar como sendo um eu, e tendo um si-mesmo, um self, pode até substancializar isso e tomar uma tal peça como sujeito metafísico. Foi o que ocorreu na história do Ocidente, por conta do pensamento filosófico metafísico que desembocou na metafísica moderna, a metafísica da subjetividade. Mas, em outro caminho, o usuário pode, também, perceber que se trata de algo linguístico; e sendo que a própria linguagem tem estatuto ontológico fraco (ela, a linguagem, não ocupa o lugar das coisas que nomeia de modo a aparecer também como um coisa), este usuário pode se tomar por um eu, uma subjetividade, existente no âmbito da linguagem, sem base metafísica. Um eu que assim se vê tem mais facilidade de aceitar-se no contexto rortiano do mundo pragmatizado.

Um eu pode, então, se ver como sujeito, sabendo que uma tal condição pertence ao campo da linguagem, e que a subjetivação é adquirida no uso do “eu”, por meio de uma dessubjetivação. Pois afinal, ao tornar-se usuário da linguagem, deixa-se para trás uma “subjetividade anterior”, perdida para sempre. Trata-se de uma subjetividade que teria existido antes da fala, na existência da infância, ou seja, o tempo do in-fante, o que não fala. Pode-se pensar na infância como uma instância imaginária, que existiria também no âmbito da filogênese, e que garantiria que os fonemas emitidos pudessem ir cedendo espaço para sons que são os das palavras. Nesse percurso nasce o eu, o novo falante, e então a nova subjetividade ou, enfim, a única subjetividade que podemos levar em conta.

10/03/2018, Cond. Jaguaré, São Paulo.

 

 

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2 Responses “Subjetividade pós-metafísica – um mini verbete”

  1. Marisa Neres
    13/03/2018 at 16:47

    Aliás, me lembrei agora de algumas anotações que eu estava revendo ontem; anotações que fiz da minha leitura do seu texto “Verdade, metáfora e estratégias redescritivas” que está no seu livro sobre Richard Rorty.
    E a questão que eu gostaria de colocar é a seguinte: o que é o mais-além da linguagem que Habermas afirma existir ao argumentar contra as asserções de Rorty sobre a questão da verdade? Se esta coisa fora da linguagem (a razão, vá lá) que garante a verdade existe, como se poderia apreendê-la se não pela nossa linguagem?

  2. Marisa Neres
    13/03/2018 at 16:39

    Paulo, olha só este trecho: “A linguagem é, então, um instrumento de subjetivação na medida em que nos dá um self que vem associado ao “eu”, e nos faz achar que este self é o eu, o eu não linguístico. Mas só existe, de fato, o “eu” linguístico, e este é que nos possibilita criar nosso eu psíquico.”
    É exatamente isso o que eu penso que acontece. Mas eu penso também que essa estrutura própria da linguagem permite que nos remetamos a abstrações e, logo, caiamos, sempre, na metafísica. Aliás… Nietzsche já disse muito isso, né? A minha questão principal é que, no caso, da sociologia, a sua pretensão de objetividade (à moda iluminista) e o seu “descuido” com a problemática da linguagem a faz sempre recair na metafísica da qual se tenta a todo custo escapar.

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