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29/05/2017

O que é a subjetividade moderna? Sloterdijk a partir do Evangelho de Matheus


“Reinar é servir”. Esse lema foi adotado oficialmente pela Igreja Católica, como missão do cristão. Consta do catecismo católico. Vem diretamente do ensinamento de Jesus, particularmente do Evangelho de Matheus.

A história contada por Matheus é a do homem que contratou serviços e, ao final do dia, pagou igual a todos, tanto os que foram chamados logo cedo quanto os que foram contratados mais tarde. Se achando injustiçados, os contratados mais cedo disseram ao contratante: “os que foram chamados para trabalhar mais tarde, ao final do dia, trabalharam menos, como puderam receber igual a nós?” O contratante disse então: “eu sou o dono do dinheiro, e contratei vocês por esse dinheiro que paguei, se quero pagar o dia cheio para todos, é um problema meu, não de vocês; será que agora não posso usar nem do que é meu?” Essa parte da história fala dos que serão chamados pelo Reino do Pai, os muitos, mas os poucos que serão escolhidos. Na continuação da história, surge a mulher que pede para que Jesus ponha seus dois filhos, no reino dos Céus, bem ao lado dele. Mais uma vez Jesus joga fora a ideia de merecimento como forma de troca e escalonamento, e diz que é seu Pai que irá escolher os lugares, não ele (sabemos muito bem que Deus, desde o episódio de Caim e Abel, tem critérios pouco previsíveis para o elogio). Os apóstolos se revoltam contra a mulher e seus filhos, por insistirem naquele tipo de questão, pela ousadia de pedir lugar no Céu. Então, Jesus se volta para eles e pede calma, e explica por que tais pessoas são assim: elas vivem sob governos que mandam, que resolvem e decidem. E acrescenta: entre vós, meus discípulos, não será assim, “mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Matheus 20:26-28).

“Reinar é servir” ou “governar é servir” tornou-se um ensinamento fundamental da Igreja no pós-feudalismo. Mas, bem antes, esteve como princípio democratizado no interior da Igreja. Como não raro ocorre com princípios, este se adaptou logo à formalidade de certas relações do período em que a Igreja mais cresceu, ou seja, a época feudal. A mentalidade feudal se fez vigente juridicamente por meio do regime de suserania e vassalagem. A partir do rei ou do príncipe, um senhor servia o outro, no sistema de concessão de terras, os feudos. Claro que, num sistema assim, o próprio príncipe acabava por ter o mesmo poder que qualquer outro nobre. Todos estavam presos à outorga de um a outro do poder de uso da terra e do exercer a justiça em tais domínios. Todos estavam articulados ao cordão de um grande terço, no qual as contas não eram orações feitas, mas repartições de mais uma parte de poder outorgado. O “reinar é servir” tornou-se antes de tudo, assim, uma regra jurídica em harmonia com os dizeres religiosos – certamente originalmente mais profundos – vindos lá de Matheus.

Nicolau de Cusa usou da mentalidade embutida nesse princípio para falar da visão de Deus.[1] A visão  de Deus é a que tudo vê, de um só golpe. Deus pode olhar cada um, pode retribuir o olhar de cada um com o seu próprio olhar, de um modo que o homem não pode, ou seja, simultaneamente. Nicolau de Cusa, inclusive, manda para seus amigos um tipo de gravura que assim age – aquela que conhecemos bem ao fazermos os olhos de Jesus (ou qualquer outra figura) bem no centro do rosto. De qualquer lugar que você olha, Jesus está olhando para você (creio que todos já viram esse tipo de quadrinho, o chamado “Jesus te segue” ou “Jesus te vê”). Ora, o homem também tem o poder de ver, mas não vê assim, como Deus; ele, o homem, vê como parte do olho de Deus. Ou seja, o homem ganha a visão a partir de uma outorga de Deus. Nicolau de Cusa chamou isso de “contração”. Trata-se de uma outorga que promove a aquisição de deveres e direitos. A visão do homem é parcial, não pode atender a todos simultaneamente, é uma contração da visão de Deus, recebe parte do poder de Deus. “Contração” nesse caso é  no sentido de diminuição e no sentido de recebimento de parte, de assunção de um dever perante uma outorga. Como no caso da suserania de feudos, ou como no caso da expressão “contraiu dívidas” ou “contraiu matrimônio”, ou seja, a maneira de adquirir deveres e direitos parciais. A visão humana é uma contração da visão de Deus.

Os melhores padres deveriam ser aqueles que pudessem utilizar essa outorga de visão para olharem tudo, dentro da limitação humana, de modo mais próximo do que Deus faria. Deveriam receber a outorga e continuar o trabalho na cadeia dos serviços.

Essa forma de serviço ou maneira de servir, de entrar na cadeia serviçal, é vista por Peter Sloterdijk como uma forma de sujeitar-se. Foucault, de certo modo, não fez diferente. É uma “sujeição ativa”. Adquire-se deveres e direitos nessa sujeição. Alguém se faz sujeito ao sujeitar-se – claro. Todavia, só até aí Foucault e Sloterdijk se parecem. O filósofo alemão põe suas próprias cartas na mesa ao lembrar que, desse modo, ser sujeito não é somente ter um “eu interior” ou ter o poder de se articular ao predicado, ou seja, tornar-se aquele que passa da teoria à prática por conta de ter narrativas próprias (razões) para a sua autodesinibição, mas antes de tudo ter competências e iniciativas por conta da sujeição. Sem servir, não se reina. Sem contrair, não se adquire funções e direitos. Peter Sloterdijk mostra como que essa parte do cristianismo, teorizada por Cusa e principalmente utilizada, na prática, pela Companhia de Jesus, fez dos jesuítas os primeiros sujeitos modernos[2].

Eles, os jesuítas, tiveram consciência (o eu interior, o papa Interior, a consciência), a disposição de ação por conta dos elementos treinados para a autodesinibição (a missão de evangelizar) e, principalmente, a capacidade de se colocarem na condição do próprio papa, uma vez que o serviam  incondicionalmente. O quarto voto dos jesuítas (além da adesão ao humilitas-castitas-pauperitas), o de servirem o papa incondicionalmente, é claro, lhes deu mais poderes que os poderes do próprio papa. Tornar-se governante é servir para tornar-se indispensável. Eles conseguiram isso bem rapidamente. A Igreja em determinado momento não via mais como não contar com o jesuítas. Eles eram a Igreja, e também eram o papa e até Deus em cada canto da Terra. A empresa dos jesuítas é, para Peter Sloterdijk, nessa tarefa de sujeitar-se, o elemento chave para que a teoria filosófica encontre o nascimento da noção de sujeito moderno. Eles, os jesuítas, se tornaram inclusive capazes até de dizer o que era pecado e o que não era (o casuísmo foi duramente criticado pelos jansenistas e, claro, Pascal). Assim, se tornaram consultores dos príncipes e do povo. Puderam fazer o papel de “homem interior” dos que não tinham lá uma interioridade desenvolvida. Sujeitaram-se a todos – príncipe e povo – e nessa indispensabilidade de sujeição, formaram-se como sujeitos. Foram os primeiros sujeitos modernos.

Eles, os jesuítas, foram o protótipo dos que ocuparam, no campo da subjetividade atual que funciona, não raro, como pseudo-subjetividade, o posto de consultores. Os homens precisam ser sujeitos, se querem ser modernos, mas nem sempre têm capacidade de consciência, autodesinibição e sujeição. Devem ser “conscientes de seus pensamentos e responsáveis pelos seus atos” (Luc Ferry, definindo o sujeito), mas como podem se comportar assim, num mundo onde vale a necessidade de aparecere assim antes do que ser assim, dá espaço para os insetos consultores. Os grilos falantes surgem então com poder de dar conselhos convincentes. Os candidatos a se parecerem com sujeitos pagam esses grilos. Governos, instituições, empresas e indivíduos povoam a Internet requisitando grilos. O que mais há nesse mundo é gente com empresa de consultoria! Estes grilos, então, estão longe de serem astrólogos somente, mas já se dividem em grilos consultores especializados, que podem estar na empresa ou terceirizados, ou então atuarem como personal trainers para senhoras ou apresentadores de TV para “massas” ou jogos eletrônicos para adolescentes ou, mais hilariantemente, simplesmente como macacos palestrantes que dizem para públicos descabeçados que eles estão aprendendo filosofia! Há “casas do saber” para tal, e há Talk Shows também para tal. Hoje o sujeito é o consultor. De certa maneira, trata-se do sujeito moderno se desviando totalmente da autêntica condição de sujeito. É como se o antigo bobo da corte, agora, reaparece-se na função do mago da corte! É uma fusão de serviços às vezes. O engraçadinho dá sugestões de vida!

Na transição para a modernidade, o sujeito só existe por conta de ser o indivíduo livre. A liberdade se instaura como pressuposto para a ética. Na transição para a contemporaneidade, ela ganha uma nova roupa. Sloterdijk diz: “é soberano aquele que decide em que armadilha cair”. Pensa-se soberano aquele que escolhe o seu consultor ou entertainer.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 31/12/2016

[1] Ver o capítulo 8 de Sloterdijk, P. Esferas I – Bolhas. São Paulo: Estação Liberdade, 2016.

[2] Ver o capítulo 11 de Sloterdijk, P. O palácio de cristal. Lisboa, Relógio D’água, 2008.

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7 Responses “O que é a subjetividade moderna? Sloterdijk a partir do Evangelho de Matheus”

  1. Pedro de Sousa Portela
    24/01/2017 at 23:12

    Parabéns, Paulo, por esse texto. Você captou de forma brilhante a mentalidade ou a espiritualidade Jesuítica, bem como, de onde brotou todo o seu poder no inicio da modernidade.

  2. 03/01/2017 at 14:39

    Mas, a modernidade, auto-reflexiva, não é um tipo de sociedade que escolhemos a partir de formalidades? O modelo econômico do mercado e o Estado, garante e motivador dessa ordem, são produtos discursivos, constructos racionais, criações ex-nillos. O custo de se viver numa ordem moderna, como disse Habermas numa entrevista, é altíssimo e as pessoas se cansam, desistem ou não conseguem entender o seu papel em toda essa figuração. A sociologia de Weber, era, em ultima instância, também uma tentativa de mostrar as pessoas o que elas estavam produzindo com as suas ações.

    • 03/01/2017 at 15:01

      Habermas é um sabichão. Não à toa Adorno não quis orientá-lo.

  3. 03/01/2017 at 09:37

    Nas férias estou lendo Direito e Democracia, um livro de 1997, mas que trás um debate extraordinário e muito atual: Como fazer para “regulamentar juridicamente a circulação do poder em sociedades complexas”. A fé de Habermas numa teoria discursa de mundo, como “cura” para os seus males, ainda que inteiramente dentro da filosofia das luzes é um caminho nada teológico para enfrentar as “disfunções da modernidade”. Nesse livro magnifico, Habermas abandona Hegel e o seu modelo totalizante, para voltar aos braços lúcidos e sóbrios de Kant!!!

    • 03/01/2017 at 10:23

      Sérgio é justamente isso, os braços “lúcidos e sóbrios” de Kant e o projeto do “conversando a gente se entende” do Habermas que são projetos teológicos. O problema não é o modelo hegeliano, que pode ser lido sem qualquer vínculo totalizante (como os pragmatistas fizeram). O problema é que as coisas que fazemos no cotidiano são completamente desconsideradas nesse projeto, e monta-se o plano de Deus. São peças que ninguém dá mais valor. Entrega-se prêmios a Habermas, claro, mas ninguém mais leva a sério isso. Formalidade por formalidade as pessoas percebem que Rawls faz melhor.

  4. 02/01/2017 at 10:22

    No Discurso filosófico da modernidade, Habermas censurava Heidegger por esse ignorar totalmente as teorias políticas surgidas na tradição do liberalismo e que, por isso, construiu um conceito capenga de modernidade, aliás, tão capenga que chegou ao absurdo de acreditar no solipsismo monológico dos mandarins de época. Com Foucault, não, Habermas não o censura, mas se pergunta: Poder para quê? Segundo Habermas, Foucault parecia ter construido um conceito de poder cujo o fim é ele próprio. Se, agora, sabemos que o objetivo é a sujeição, isto é, a conquista da condição de sujeito, então Foucault retorna ao posto de principal referencia numa teoria política do poder via esquerda.

    • 02/01/2017 at 10:33

      Habermas não conseguiu ler Heidegger como filósofo. Esteve preso demais à sua adolescência. Como diz Sloterdijk, Habermas é o último dos teólogos.

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Filósofo