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30/04/2017

Soraya e o dentista matador de leões


Talvez estejamos negligenciando o aviso do filósofo alemão Peter Sloterdijk, de que filhos atuais tendem a ser “bastardos”. Antes éramos filhos de nossos pais, agora, não mais. Em outras palavras: os filhos do dentista que matou Cecil, caso ele os tivesse (não sei se têm), estariam contentes como ele parece estar? Eles reconheceriam no dentista um pai? Ou adotariam a condição de bastardos.

Não há aquele pensador moderno que não tenha dito que o mundo moderno muda rapidamente, que nada fica mais velho tão depressa quanto “o moderno”. Todavia, o que espanta na modernidade é que podemos falar essa frase mais e mais vezes e com uma validade nova. Não há hoje em dia quem, não tendo ficado em um bunker secreto ideológico, gostaria de ser filho do dentista assassino de leão Cecil. Pois todos nós, exceto o dentista e os que ficaram no tal bunker, mudaram sua sensibilidade para com elementos da natureza de um modo muito rápido. Uma árvore, um passarinho, um leão … Nós não os vemos como nossos pais e avós.

Cortar uma árvore? Fazer um estilingue para caçar passarinho? Achar bonito ver leões

Schwarzenegger, Schwarzenegger, republicano, conservador, mas sempre adiante nas questões ambientais e sempre solícito nas questões de solidariedade humana e causas humanitárias.

Schwarzenegger, republicano, conservador, mas sempre adiante nas questões ambientais e sempre solícito nas questões de solidariedade humana e causas humanitárias. Condenou veementemente o dentista e começou campanha pela defesa dos animais africanos.

mortos? Tudo isso teve lá seu momento de glória. Os que assim fizeram eram cruéis? Aos nossos olhos de hoje, diante do tipo de sensibilidade atual, claro que sim. Mas como nossos pais e avós podem estar vivos, temos de compreendê-los como pessoas que merecem respeito, amor, mesmo tendo sido cruéis, ou ainda sendo. É uma tamanha falta de juízo não perceber que Pelé, ao não ver racismo no torcedor que jogou a banana no campo diante de um negro, deve ser compreendido como quem tem uma sensibilidade que “saiu da jogada”. Mas Pelé, ao menos para mim, dá para ser perdoado porque ele é brasileiro, nos deu alegrias, parece boa praça, enquanto que, para mim, não há como perdoar o dentista que, afinal, não conheço, e agora só sei que ele é o energúmeno que disse que “só matei um leão velho”.

A questão toda da sensibilidade alterada é difícil de entender, pois achamos que uma “pessoa boa” dos anos cinquenta tem as mesmas características da “pessoa boa” de agora. Ou seja, entendemos que o saber se amplia, mas imaginamos que a índole é natural. A história toca no saber, não na índole. Esta, talvez, dependa mais da geografia que da história. Mentira. A sensibilidade é tão variável geográfica quanto historicamente. Caso não fosse verdade, não estaríamos hoje com os cães usufruindo a condição de filhos de inúmeras pessoas no mundo ocidental.

Mudamos a sensibilidade europeia e americana para com a mulher, a criança, o negro, o índio, o gay, a natureza, o patrimônio histórico, o livro, as igrejas, as histórias em quadrinhos, as novelas, as mães e os cães. Quando alguém hoje atira em Cecil, tudo que pedimos é que essa tal pessoa não seja nosso parente, de modo que não tenhamos que tentar amenizar o mal que fez.

Soraya (Letícia Spiller), nesse corpo, pode-se levar vantagem se opiniões forem como as do dentista?

Soraya (Letícia Spiller), nesse corpo, pode-se levar vantagem se opiniões forem como as do dentista?

Talvez quem mais hoje represente essa situação de conflito seja a personagem Soraya (Letícia Spiller), a loira gostosona e esnobe de I love Paraisópolis, novela da Globo. Ela é uma rica esnobe, racista, preconceituosa com pobres e por aí vai. Mas ao mesmo tempo ela pode gostar de alguém pobre, e sinceramente ela é capaz de pedir favores para alguém assim, pois a ideia de que ela é superior não lhe passa pela cabeça como alguma coisa que não seja natural. Ela mesma não entende a lei do racismo. Para uma pessoa como ela, ser punida por racismo sempre terá sido uma injustiça. Sua sensibilidade não é a de nossos tempos, supondo aí que os nossos tempos seja o tempo dos sensíveis aos problemas de preconceito racial etc.

Para muitos de nós, filósofos, essas diferenças de sensibilidade são vistas como ganho moral. Para outros, não mesmo, são diferenças, mas que não podem ganhar juízo de valor. Tenho simpatias com certo perspectivismo pragmatista, e isso não me faz não poder estar entre os primeiros. Compreendo valores diferentes, mas, em vários casos, acho que os valores que adoto são ganho moral, e que o modo que tenho para lidar com tais diferenças é tentar conversar com outros e tentar talvez convencê-los de que o meu ganho moral também seria ganho para eles. Isso em tese. Na prática, na rua, eu não teria estômago para ficar olhando para a cara do dentista matador do leão, embora com Soraya eu fizesse diferente. Ela é linda. Mas digo isso em tese, talvez ela ficasse como o dentista em segundos, na convivência.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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5 Responses “Soraya e o dentista matador de leões”

  1. Vfg Forte
    03/08/2015 at 11:02

    Paulo,

    Este texto acabou lembrando outro que você postou contando a história de um negro libertado pela Lei Áurea e o seu antigo proprietário falido, que foram parar na mesma pensão. Seu texto me lembrou como seria difícil julgar a relação deles naquele período de grande mudança. Nos dias de hoje, seria inimaginável.

    Estabelecer o grau de anistia àqueles que não entendem a mudança à sua volta é também um exercício diário, principalmente quando se gosta de se exercer violência nas argumentações.

    Vou tentando me conter…

    • ghiraldelli
      03/08/2015 at 11:53

      Bem, eu disse que seria capaz de perdoar a bela, não o dentista.

  2. Clayton
    01/08/2015 at 18:33

    Ghiraldelli, como tem escrito ultimamente sobre “um mundo melhor”, gostaria de sugerir que escrevesse um texto sobre a questão de caridade x ações sociais/humanitária. Uma das críticas a respeito de determinadas ações sociais é que acaba contribuindo para uma desresponsabilização do Estado, o que vc pensa sobre isso?

    • ghiraldelli
      01/08/2015 at 19:42

      Meu livro Filosofia política para educadores tem o que ´penso, dá uma olhada. Mas irei seguir sua sugestão, tentarei escrever de novo, sob outro ângulo.

    • Clayton
      01/08/2015 at 21:10

      obrigado!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo