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24/08/2017

Somos seres da fé, seres de Jesus


Nada é mais múltiplo no Ocidente que Jesus. É a figura que se multiplica. Claro que ele é branco, de olhos azuis e quase loiro, talvez ruivo. Anda altivo. É o único dos homens que surrado na cruz se mantém atlético; é o homem erótica e homossexualmente provocante. Mas apesar de ser este tipo, este estere-o-tipo, tão único, não se fez por narrativas únicas. Mesmo se tomarmos só a oficiais, elas são quatro. Há algo de Nietzsche no Novo Testamento, ele já se faz perspectivista desde o início!

Daí para diante, Jesus se multiplicou. Isso ocorreu de tal maneira no Ocidente que em determinado momento a cruz se separou de Jesus. A cruz virou símbolo dos escudos, das caravelas, dos impérios e da opressão. O cristianismo não trazia a cruz como salvação, mas a cruz que dizia “eu vou pegá-los, bastards”. Entre a cruz dos campos de batalha e o Jesus na cruz do interior das Igrejas se fez valer então uma enorme distância. Foi proposital.

Durante todos esses anos, uma das narrativas sobre Jesus quis se manter mais próxima do fio condutor das narrativas várias dos Evangelhos, principalmente dos quatro oficiais. O comum nelas, do que se trata? Amor.

É esse o centro doutrinário? Aceitar o diferente quando se trata até mesmo do Samaritano; aceitar o diferente mesmo quando se trata da quase apedrejada Madalena. Não! Não se trata de aceitar! Jesus nunca foi um liberal avant la lettre. Nunca pregou a tolerância, pregou o amor – amor não aos potenciais aliados, mas aos inimigos. O amor até então era um sinal de fraqueza no mundo romano. Transformou-se num sinal não de poder, mas de força, de altivez. É necessário às vezes separar não só a figura da cruz da figura de Jesus, como a própria missão da opressão fez. Pois às vezes é mesmo melhor manter o cristianismo enquanto ideologia, de um lado, deixando de outro lado o que nos interessa mais, quando precisamos falar do amor. O amor é o que pertence às histórias de Jesus.

Não temos no Ocidente nenhuma história mais universal e mais conhecida que a de Jesus. Jesus dos pobres, dos sofridos, dos pecadores – não há como mudar os relatos do Novo Testamento quanto a isso. Não existe o Jesus dos ricos e poderosos, embora exista o cristianismo da opressão. O Evangelho é alterável não pelas interpretações, mas pela não interpretação, ou seja, pela falsificação da leitura literal. Na mão dos pastores caça-níqueis, dos homens que usam a cruz para pauladas e a Bíblia para o jogo aleatório de frases diante do ignorante ou do mentalmente incapaz, o cristianismo opera realmente milagres: torna o homem de pouco cérebro um homem completamente sem cérebro. É o milagre do desaparecimento das últimas sinapses daqueles com QI de símio.

Jesus não voltará. Nunca mais. Talvez por que nunca tenha ido a lugar algum. Andarilho no meio de sofredores, ele está todos os dias por aí, uma vez que os sofredores estão sempre por aí. Há também filósofos tolos, ingênuos, como eu mesmo, que teimam em falar em “um mundo melhor”, que os repórteres sabichões querem de fato crucificar.

É incrível que os pastores possam pegar Jesus como elemento mágico, não só curando por meio das mãos que pegam dinheiro, mas até mesmo fazendo o dinheiro do aluguel atrasado aparecer – aparecer no bolso do pastor! Mas fazem isso sim, os pastores caça-níqueis (há os não gostam de dinheiro? há mesmo?!), pois lidam com aqueles de alma simplória, crianças grandes que funcionam segundo o pensamento mágico.

Todos nós estamos sujeitos a sermos simplórios e nos agarrarmos a algum explorador da fé. Todos nós. Há determinados momentos que só a mágica pode intervir para nos ajudar, e então, a fé na mágica, na besteira, tem a força da fé que temos cultivado no cotidiano. Pois no cotidiano não funcionamos no registro da descrença, e sim da crença. Nenhum de nós pergunta para o colega se a parede branca é branca e ninguém pensa que a comida da mãe está envenenada. Aliás, somos seres de fé a tal ponto que chegamos a cruzar com um outro carro à noite, ambos em alta velocidade, como se ambos soubessem dirigir e como se o outro não pudesse estar bêbado, drogado ou sonolento. Somos da fé. A fé nos faz sermos racionais! Então, ao mesmo tempo, propensos à mágica. Enganar-nos com a mágica dando-lhe o nome do símbolo do amor fica então muito fácil.

Todos nós podemos estar na boca de cairmos diante dos que buscam rola.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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One Response “Somos seres da fé, seres de Jesus”

  1. Luana
    25/06/2015 at 00:36

    É interessante essa separação da cruz e de Jesus feita no texto, a gente, ainda, confunde muito pensando que é a mesma coisa.

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