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23/11/2017

O que é a solidão?


Sobre a solidão temos nossas mais negativas impressões. Será que estamos certos ao avaliar assim?

O que é a solidão? Dou duas respostas só aparentemente incompatíveis entre si, uma minha e outra do sociólogo e antropólogo alemão Thomas Macho. Primeiro a dele: “Civilização é a capacidade de cultivar a solidão”.[1] A minha: “Não existe a solidão”.

Ambas as frases contrariam o senso comum, mas, não raro, é esse mesmo o papel da filosofia.

A afirmação de Macho não é difícil de entender. Durkheim nos ensinou a ver sociedades primitivas tendo seus elos sociais criados por poucas crenças comuns. Nessas sociedades o que ele chama de consciência coletiva preenche quase todo o campo de pensamento dos indivíduos. Eles acreditam nas mesmas coisas e fazem as mesmas coisas, com poucas especializações, em geral nada além da divisão do trabalho entre homens e mulheres. Ora, sociedades modernas, complexas, têm uma consciência coletiva diminuta e os indivíduos possuem entre seus pensamentos um bom espaço para a consciência individual, não comum. As atividades são diversificadas, seguindo uma colaboração do tipo daquela em que um supre as deficiências e necessidades do outros. Vivemos nessas sociedades e não imaginamos que, em sociedades primitivas, nas quais nossos antepassados começaram a vida civilizada, a noção de que o pensamento era algo particular, privado e possível de se tornar um campo secreto era impossível. Como todos pensavam as mesmas coisas, todos sabiam de tudo que se passava na cabeça dos outros.[2] Todavia, quando passamos a viver em sociedades em que a consciência coletiva se tornou diminuta, os pensamentos individuais cresceram e só então fez sentido essa noção que temos hoje, que a mente é em um reduto de segredos e um campo só nosso, um eu próprio, um lugar que possui uma porta fechada aos demais. Ora, isso não ocorreu do dia para a noite. E foram os religiosos e filósofos que deram o primeiro passo no sentido de ousarem abrir um espaço novo no próprio pensamento, ao lado do pensamento maior, o da consciência coletiva.

Esses religiosos e filósofos não disseram que tais pensamentos eram deles mesmos. Tenderam a ver neles uma manifestação de novidade em suas cabeças e, por isso mesmo, como algo exterior. Nomearam daimons, gênios e anjos como responsáveis por isso. A fim de melhor se darem com tais entidades, criaram então isolamentos corriqueiros, dentro da sociedade, ou então isolamentos esporádicos, maiores, que implicavam na busca de uma situação de eremitas, alguns por uma fase outros por uma vida toda. Esses retiros ou buscas de meditações se fizeram em desertos. Questões de reflexão simples foram resolvidas pelas técnicas filosóficas de abstração, questões dramáticas de grandes decisões foram resolvidas por períodos grandes de reflexão, com indubitável presença de forças poderosas, talvez Deus ou próprio anti-Deus – isso ficou a cargo mais de religiosos. Sócrates ficava em transe na cidade, talvez ouvindo seu célebre daimon. Jesus teve de retirar-se para o deserto, para resolver uma querela com o demônio que, enfim, punha a ordem da sociedade contra os desejos de Jesus de fundar uma religião. Em ambos os casos, essa nascente individualidade se fez na inauguração das técnicas de solidão.

Só civilizações já em alto grau de desenvolvimento, como a grega antiga e a hebraica, puderam gerar solitários como Sócrates e Jesus. Solitários temporários, claro, mas ainda assim, solitários. A partir daí centenas de filósofos, religiosos e outros puderam se comprometer com técnicas variadas de solidão. O homem comum também ganhou uma tal capacidade, sem precisar sequer lançar mão do encontro com qualquer figura vinda do exterior. Com a escrita e a leitura, os homens puderam ver que o que levavam para o processo de solidão eram eles mesmos, em forma de dupla reflexiva, a conversa entre o eu e o si-mesmo. A solidão dos renascentistas assim se fez. A solidão dos modernos se fez ainda de modo radical, sendo que a própria conversa interior já como algo que nem parecia uma conversa a dois, mas uma conversa consigo mesmo, uma conversa estranhamente não tautológica. O romantismo a partir de Rousseau viveu essa última caraterística.

Assim, quanto mais civilização mais condições de se colocar em prática a solidão.

Ora, tendo desenvolvido essa explicação, para dar conta da expressão de Thomas Macho, acabo por dar todos os elementos para explicar também a minha afirmação. Ou seja, nenhuma solidão é efetivamente uma solidão. Retiramo-nos em dupla, o si-mesmo e o eu, no mínimo. Por isso nosso temor da solidão só se justifica em pessoas que não se acostumaram com a reflexão. Pessoas acostumadas à reflexão, à resolução de dramas interiores, sabem que nem na morte poderão estar sozinhas. Aliás, principalmente na morte, estarão em conversa consigo mesmas, estarão exercendo o pensamento.

Podemos aqui lembrar a própria definição de pensamento de Platão: a conversa da alma consigo mesma. Ora, isso nada mais é que os processos levados a cabo por Jesus e Sócrates, agora disseminados, aperfeiçoados e tornados possíveis para o homem comum, que afinal de contas lendo, escrevendo e se vendo obrigado a ter seus próprios pensamentos, está sempre em reflexão. Podemos ficar sozinhos, mas jamais em completa solidão. Assim, a rigor a solidão não existe. Ou, se quisermos manter o termo, que o tomemos nessa nossa característica moderna de nos colocar na jogada diante de nós mesmos.

Mulheres ou homens que não se descasam com medo da solidão, então, possuem alguma razão? Caso eles tenham não formado o hábito da reflexão, do equacionamento de seus dramas interiores, talvez tenham sim medo da solidão, que certamente será o vazio. Caso contrário, à medida que a vida a dois se tornar chata, ela nem precisa se tornar insuportável para dar abertura para a aventura na solidão. O divórcio virá como algo natural.

Os homens que usufruem da civilização em seu máximo, podem então saber que estão aptos para a solidão. Eles não se sentirão sozinhos. Por isso Heidegger teve a sensação de que filosofar era, no seu melhor, uma atividade solitária. Quando a jovem Hannah Arendt o procurou para “aprender a pensar”, ele a recriminou, dizendo que pensar era pensar solitariamente. Ele tinha lá sua razão: em nossos tempos efetivamente isso é possível, podemos pensar sozinhos se estamos aproveitando ao máximo as inúmeras técnicas de retiro que durante muito tempo temos criado e posto em prática.

Quando nos damos conta de que a solidão tem esses contornos, podemos começar a filosoficamente compreender a solidão e, então, ajudar todo a vê-la com menos sinais negativos que até então.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

PS: Esse tema foi desenvolvido também no Hora da Coruja, em dois programas. Um sobre intimidade e outros sobre solidão, no mês de novembro de 2014.

[1] Macho, T. Mit sich allein. Einsamkeit als Kulturtechnik, in: Aleida und Jan Assmann (Orgs.): Einsamkeit. Archäologie der literarischen Kommunikation VI. München: Wilhelm Fink, 2000, 27-44.

[2] Sloterdijk, P. Bubbles. Spheres I. LA: Semiotext(e), 2011, pp. 263-8

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21 Responses “O que é a solidão?”

  1. Claudio
    03/12/2014 at 16:05

    “A solidão é um eterno diálogo consigo mesmo.”

    Essa é uma frase que sempre disse, e que só agora eu realmente entendi porque.

    Excelente!

    Obrigado e um abraço

  2. Alaer Garcia
    28/11/2014 at 19:18

    Caro Paulo
    Esse artigo lembra meu livro de 22 anos atras, que ficou na lista dos mais vendidos- ´Sem solidao nao ha soluçao´. Ainda tem na estante virtual.
    Esta frase que vc diz que é sua, que a solidao nao existe, faz parte de um capitulo, teve disciordancias de alguns colegas na época. Veja vc citou Thomas Macho faltou citar o autor da outra tese.

    • 29/11/2014 at 01:49

      Garcia, essa frase eu não digo que é minha, ela é uma frase banal, qualquer um pode dize-la. O que fiz foi a partir de Thomas Macho porque ele cria uma situação de construção antropológica para a solidão, segundo técnicas. A solidão existe como ganho do individualismo moderno, mas ao mesmo tempo não existe, porque o ganho do individualismo pode ser lido como ideológico, uma vez que efetivamente somos “dois em um”, como disse Arendt de Sócrates.

  3. Afonso
    28/11/2014 at 11:00

    Creio que foi Saramago que disse algo como as pessoas fazerem ruído demais para não ouvir o próprio pensamento – ou talvez a falta de pensamento/reflexão – daí, sim, o medo da solidão, quem sabe.

    • 28/11/2014 at 14:10

      Afonso, creio que isso possa se aplicar ao Saramago mesmo.

  4. Alexandre
    23/11/2014 at 00:03

    Você acredita que a chave para se obter a sabedoria é aprender a escutar a “voz interior”? Acredita que podemos encontrar a verdade apenas consultando essa voz? Não seria esse o único meio confiável que temos para alcançarmos a sabedoria?

    • 23/11/2014 at 05:59

      Alexandre e se sua tal “voz interior” for muda? Ou imbecil?

    • Alexandre
      29/11/2014 at 12:49

      Interessante a sua resposta, fiquei até sem saber o que dizer. A sensação que eu tenho é a seguinte:
      1. Compreendemos o mundo e a vida através da linguagem, sendo que um mero detalhe (uma vírgula) é capaz de mudar completamente a maneira como interpretamos algo.
      2. Existe uma compreensão que está além dessa linguagem, um universo de sensações que já existia antes da formação dessa linguagem em questão, esse universo de sensações seriam os nossos desejos, o conhecimento de tudo o que existe e a nossa individualidade.
      3. Essas sensações podem ser ser transformadas em linguagem e crenças, desde que o indivíduo saiba desenvolver esse processo.
      4. Existindo esse universo de sensações com todo o conhecimento que há para ser acessado, haveria ainda um último problema, o indivíduo poderia consultar essa sensações e perceber que essas sensações dizem algo diferente do que ele que ele acredita ser verdadeiro e do que o mundo diz ser real, bom, justo etc… então esse individuo teria que encontra mecanismos para descobrir o que é verdadeiro: a antiga crença ou o que diz a sua intuição.

      Espero não ter dito muitas bobagens, não sou muito bom em expressar as minhas ideias.

    • 29/11/2014 at 15:14

      Bem, talvez eu viva pela linguagem, e não só compreenda o mundo com ela. Ela é o limite do meu mundo. Sem ela o viver seria de tal forma inoperante que, para nós, não seria um viver.

  5. Luh
    20/11/2014 at 12:55

    Oi!
    O texto ficou muito bom, nunca tinha pensando desse jeito.
    Eu assisti ao programa também, está ótimo, a Fran com você no programa, é lindo de se ver com aquelas corujas no fundo =D

  6. Valmi Pessanha Pacheco
    19/11/2014 at 11:35

    PAULO
    Muito bom
    Apenas, se me permite, a admirável abordagem refere-se, exclusivamente, ao pensamento ocidental. Gostaria que explorasse o tema da solidão sob a luz dos “sábios de pés descalços” e, particularmente, do Zen Budismo.
    Valmi Pessanha.

    • 19/11/2014 at 13:11

      Valmi não tenho cultura oriental para tal empreendimento. Conheço muita coisa oriental, mas para fazer a comparação é preciso mais, é necessário familiaridade. Não me arrisco. Ao menos não por enquanto.

  7. Cesar Marques - RJ
    18/11/2014 at 20:01

    Estava eu lendo um livro do Frei Betto (que é filósofo católico), quando me deparei com o seguinte parágrafo que me remeteu ao tema solidão:

    “Morto Dionísio, o Velho, Dionísio II, o Jovem, deixou-se convencer por Dión a chamar Platão de volta a Siracusa. Quem sabe agora as boas ideias haveriam de livrar a pátria de Arquimedes do peso da opressão? O filósofo escandalizou-se com o que viu: ‘A gente ficava inchada por comer duas vezes ao dia, e ninguém dormia sozinha a noite.’ Como filosofar se a gente anda dedicada aos excessos? Dionísio, o Jovem, à semelhança do pai, aborreceu-se com as críticas de Platão, mandou Dión para o exílio e prendeu o filósofo, primeiro em seu palácio e, em seguida, no fundo de uma caverna – que ao menos num ponto lhe foi propícia, pois ali dentro criou o Mito da Caverna. Dión refugiou-se em Olímpia, enquanto Platão quedou atado numa correia de cachorro até o jovem tirano decidir desterrá-lo.” (retirado de A Mosca Azul/Frei Betto – Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2006.)

    Se esse comentário feito pelo filósofo Frei Betto a respeito da biografia de Platão estiver 100% correto, podemos dizer que a solidão (forçada pela prisão) foi uma mola propulsora para Platão criar a passagem mais famosa da sua obra A República, a Alegoria da Caverna?

  8. Gustavo
    18/11/2014 at 17:28

    Caro Paulo, parabéns pelo texto e pelos programas que tem apresentado. Vim aqui depois de ver o Hora da Coruja dessa semana. Minha pergunta é sobre os orientais, o nirvana é definido como o estado mental em que a pessoa não se perturba com nada. A pessoa treina na medição o desligar a sua mente, o não pensar em nada. Seria possível dizer que esse estágio último é quando consegue-se desligar o eu interior. Quer dizer, quando se consegue acançar um estado em que não ouve mais o daimon, em que se consegue anular a dupla reflexiva, em que o fardo da existência é nulificado pela ausência de consciência?

    Inté.

    • 18/11/2014 at 18:07

      Gustavo! Os retiros de solidão de Sócrates e Jesus são semi-dramáticos e dramáticos. O retiro de Rousseau é um devaneio, é a tentativa de não pensar. São técnicas diferentes com objetivos diferentes. São solidões que respondem a questões da civilização, a questões diferentes DA CIVILIZAÇÃO. No segundo caso, não parece estarmos a um passo de Freud quando ele fala, na segunda tópica, na pulsão de morte?

    • Gustavo
      18/11/2014 at 18:37

      Sim, me lembro de você explicando no programa que a maneira como se organizam as civilizações ao longo da história deve ser sempre o pano de fundo sobre o qual olhamos o que é chamado de solidão. Na parte em que você fala sobre sobre as técnicas semi-dramáticas e dramáticas, seria possível explicar um pouco mais sobre a diferença entre elas?

      Muito obrigado pelos esclarecimentos!

      Inté.

    • 18/11/2014 at 20:22

      Gustavo. Vou tentar. Preciso elaborar melhor isso.

    • Gustavo
      19/11/2014 at 09:34

      De todo modo, muito obrigado.
      Outra coisa sua que tem me interessado muito é quando você fala que Platão não tinha o conceito de conceito, e que Aristóteles é quem começa a mexer com isso. Tem mais sobre isso nos seus livros? Quais?

      Inté.

    • 19/11/2014 at 13:15

      Gustavo. A Aventura da filosofia (Manole), A filosofia como medicina da alma (Manole). Mas veja, isso não é um tema, isso é uma constatação, basta você ler Platão e isso já aparece, caso Platão falasse em conceito não haveria então o “mundo das formas”, que é um lugar com estatuto ontológico.

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