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18/08/2019

Como Sócrates fez filosofia? Como nós a aprendemos?


A bibliografia básica sobre Sócrates que o brasileiro utiliza é em geral francesa. O erro básico dela é privilegiar como método socrático antes a maiêutica que o elenkhós. Outro problema ainda é aquele criado pela filósofa e professora da USP Marilena Chauí, principalmente ao querer fundir os dois métodos, como se um fosse uma “fase” do outro.

A bibliografia de língua anglo-saxã criou uma visão mais apropriada de Sócrates. Superou a francesa. O que fez?

Lembrou que a maiêutica surge uma só vez na literatura platônica, no episódio em que Sócrates, já platonizado, faz o menino escravo mostrar que sabia um teorema matemático. A forma de perguntar de Sócrates teria feito o trabalho de anamnese. Esse Sócrates único já é o próprio Platão falando. Ou seja, o garoto sabia do teorema porque todos nós, antes de estarmos nessa pele, frequentamos enquanto forma ou essência (Eidos, Idea) o “mundo das formas”, com status ontológico, claro. Nesse mundo contemplamos tudo em sua virtude máxima. Depois, ganhando corpo e adentrando o mundo sensível, sofremos um trauma e esquecemos as coisas, e o esquecimento é reforçado porque somos, aqui, empurrados para pensarmos através da informação da sensação, que vive nos enganando. Ou seja, ficamos na caverna. Sairíamos dela pela filosofia, e esta, então, melhor se exerceria como um método de provocar a recordação de ordem metafísica, a recordação do momento vivido junto as formas excelentes, quando também éramos só forma (a melhor parte de nossa alma, disse Platão). A filosofia seria então um trabalho de parir ideias, não de inventá-las ou cria-las. Sócrates paria saberes como sua mãe paria crianças.

A bibliografia anglo-saxão nunca desmentiu isso. Mas, paulatinamente, foi obrigando os scholars, até mesmo os franceses, a irem se afastando dessa versão que, enfim, quase que se tornou folclórica. Mesmo para aqueles autores mais filósofos que historiadores, que quiseram sempre deixar sem separação a figura de Sócrates da figura de Platão, a ideia de que o método socrático seria o elenkhós e não a maiêutica ganhou força. Nesse sentido, a tentativa de fusão escalonada, de Chauí, nunca teve adeptos a não ser ela mesma, mas sem grande poder de convencimento, ao menos aos meus olhos, exatamente pela falta de textos que pudessem arredondar arestas entre os dois personagens, em relação ao caso metodológico.

O elenkhós então é o método de Sócrates. A palavra “elenkhós” quer dizer refutação. Como funciona? O elenkhós básico funciona assim: Sócrates pede para o interlocutor dizer algo que acredita sinceramente e que pode ser confiável. Ele, Sócrates, concorda também com o dito. Então, afirma algo, um segundo enunciado, que à primeira vista é condizente com o que foi afirmado primeiramente, e pede aquiescência do interlocutor. Se este dá aval, ele continua. Todavia, põe então um terceiro enunciado, e pergunta se o interlocutor pode continuar o aval. Em geral, se o interlocutor dá o aval, ele próprio começa a pressentir que está obrigado logicamente a não dar aval a uma das duas frases anteriores que, por sua vez, pareciam ligadas logicamente. Eis então que a continuidade da investigação fica interrompida. Se o interlocutor de Sócrates é um amigo sincero, que quer aprender, Sócrates retoma o processo do zero, ou muda de caminho. Caso o interlocutor seja um sofista esnobe ou um sabichão, Sócrates força um pouco a percepção das contradições lógicas, e então o acompanhante se irrita ou se diz confuso.

Mutatis mutandis o método utilizado por Sócrates lembra a falsificação de Popper. Pomos na mesa teses e tentamos ver o que é coadunável com elas, mas, no limite e principalmente, o que as fazem se tornar uma mentira. Se depois de muitas tentativas de falsificá-las elas se mantém em pé, então temos uma verdade de momento, ou seja, uma verdade científica. A diferença essencial com Sócrates é que nunca ele conseguiu obter qualquer ideia válida por meio do elenkhós. A auto-refutação sempre vence. Sócrates sai de sua conversação não como entrou, mas sem a obtenção de uma boa e definitiva resposta para o que estava sendo investigado. Ou, em termos popperianos: nada se torna verdade, tudo é, ao final, refutável ou se torna inseguro. O próprio Platão se irritou com esse método socrático. Criou a doutrina platônica, a célebre teoria das formas, exatamente para conseguir verdades e mostrar que Sócrates tinha um método poderoso, que Sócrates não era um sofista. Alguns scholars afirmam que Platão desistiu do platonismo e, ao final da vida, voltou a achar que só o elenkhós mesmo, com seu desmoronamento contínuo, tinha validade.

É claro que na França os métodos de recuperar o memorizado deram o tom para a elenkhóspedagogia. Isso veio para o Brasil por meio de Portugal. Nosso movimento pedagógico da Escola Nova, que criticou isso e pediu o fim do “beletrismo” em favor do ensino por problematização, por solução de problemas, nunca vingou de todo entre nós. Anísio Teixeira e Paulo Freire foram falsificados, maltratados, e se tiveram hegemonia nos livros em certas épocas, nunca o tiveram na prática de sala de aula. Então, para cada professor, a maiêutica sempre foi algo muito mais compreensível que o elenkhós. Assim, quando liam na bibliografia afrancesada sobre a maiêutica como sendo o próprio de Sócrates, tinham seus corações acalentados, tinham sua prática confirmada. Uns faziam perguntas sábias e, de certo modo, ajudavam os alunos. Os que não conseguiam isso acabavam por usar a repetição e a régua quebrada na cabeça do aluno. Sabemos bem o quanto os métodos exclusivamente baseados na “educação bancária” predominam hoje, incólumes, inclusive na universidade. (Sabemos também como que o analfabetismo escolarizado no Brasil, quando critica o ensino de memória, o faz em favor de um aluno que não tem criatividade e nem memória!).

Até hoje na universidade, entre alunos de filosofia, a lógica é bicho papão. Os alunosSócrates Mafalda Snoopy adoram frases soltas, sem argumentação lógica. Detestam conversar entre si usando lógica. Aliás, falam em argumentação, cobram isso, mas não sabem do que se trata. Pedem que aforismos sejam “argumentados”. Quando querem argumentar não conseguem fazer o trabalho dialético da conversação socrática, o que incluiria por teses e as refutar conjuntamente, em dois ou três ou mais parceiros. Fazem confusão entre argumentação e “pegadinha”, e acabam por usar o cliché “você cometeu um ad hominem”. Também muitos professores não conseguem ensinar o aluno a ler um texto de filosofia mostrando como há a argumentação no texto. E isso induz alguns alunos a achar que a leitura de livros de filosofia é para autodidatas, o que é estupidez pura. Bem, assim, por tudo isso e mais um pouco, Sócrates não é visto com o praticante do elenkhós e sim da maiêutica. Assim, a bibliografia anglo-saxã teve dificuldades de vingar entre os nossos professores. Além do mais, há um bocado de professores que é anti-americanista de forma imbecilizante (se é que exista outra forma de anti-americanista), e tais professores acabam por não consultar outra historiografia que não a socrática afrancesada, ou antiga mesmo, talvez exatamente para não pensar. Pois o elenkhós faz pensar, a maiêutica nem tanto.

Desse modo, o erro de adoção de uma bibliografia envelhecida adicionado ao erro do preconceito contra as universidades americanas, ou então a bestificação dos que acham que filosofia é sempre europeia e continental e acabam, então, nem mesmo percebendo como o próprio Continente já absorveu muito da Ilha e da América, tem colaborado para que os erros continuem. Inclusive o tropeço de Marilena Chauí, que me preocupa exatamente por conta da qualidade e penetração da renomada filósofa brasileira. Seus manuais são bons, por isso mesmo deveriam ser retomados e revistos. Mas, enfim, é do movimento crítico mesmo, próprio da historiografia filosófica, que as coisas andam. Ela, Marilena, não muda? Então mudo eu. Faço eu meus livros de Sócrates etc. É o que tenho feito. E que continuo. Estou para lançar pela Editora Cortes o Sócrates: pensador e educador. Vocês vão se divertir e gostar. É um livro para o leitor inteligente. E tem mais nele que o debate metodológico.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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6 Responses “Como Sócrates fez filosofia? Como nós a aprendemos?”

  1. Diego Evaristo
    07/04/2015 at 19:25

    Olá Mestre!
    Meu professor de filosofia deu uma aula sobre a metodologia de Sócrates, falando sobre maiêutica. Como já tinha lido seu texto, perguntei o que ele achava do elenkhós, e se não seria um método melhor de definir a metodologia socrática. Ele me respondeu que essa era uma forma da esquerda enxergar o filósofo. Pensei o dia inteiro e não consegui chegar no porque ele falou isso. Poderia dar sua opinião?
    Grato!

    • Diego Evaristo
      07/04/2015 at 19:26

      OBS: ele é advogado também!!

    • 07/04/2015 at 19:36

      Diego, ele não sabia o que falar, não sabia o que era o elenkhós, então foi pelo meu nome e minha fama. Mas o elenkhós nada tem a ver com esquerda. É um consenso entre scholars socráticos, principalmente os de língua inglesa. Seu professor não tem cultura filosófica. Aliás, ele não tem cultura nenhuma, ou seja, não sabe que elenkhós quer dizer refutação, e isso que Sócrates fazia.

  2. Cristiane Marinho
    08/03/2015 at 12:18

    Texto maravilhoso, Paulo! E pautado em uma argumentação própria ao elenkhós. Abraço!

  3. Isaias Bispo
    08/03/2015 at 04:18

    Paulo, você já disse para a Marilena que o método socrático era o elenkhós e não a maiêutica? Parabéns pelo texto!

    • 08/03/2015 at 09:27

      Bispo, e lá a Marilena quer escutar alguém?!

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