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18/11/2017

A sociedade da despedida da dor


Você já viu um porco morrer? Já olhou nos olhos de um boi antes um pouco dele ser abatido. No primeiro, os gritos são de socorro, no segundo, dá para perceber lágrimas. Os humanos, quando matam outros animais, fazem questão de dizer que não agem assim com outros humanos. Bobagem. Os humanos fazem menos drama para morrer e, portanto, podem ser mortos com muito mais facilidade e menos remorso. O cultivo da morte é demasiado humano. A morte dos animais pertence aos humanos que ainda não conseguiram se identificar com o legado de Deus, a Terra.

O homem bate no cachorro. Apesar do cão ser um animal que aprende muito rápido, ele demora muito para se afastar do seu dono, que ele interpreta como um companheiro, mesmo agredido. Um animal dito “selvagem”, como o leão, reconhece depois de anos quem o criou, e chega a levar tal pessoa para ver a sua família, sua esposa leoa com seus leõezinhos. Esses animais não precisam de uma terrível missão, com a de Jesus, para se disporem a seguir a parábola do Bom Samaritano. Eles reconhecem o diferente como diferente, e são capazes de amá-lo até contra seus instintos tão determinantes. O filósofo Montaigne escreveu vários ensaios sobre a inteligência animal, exatamente para dizer ao homem: sua razão o conduz ao ceticismo, então, por que a põe com elemento superior à inteligência dos outros animais? Montaigne sabia das coisas.

Ninguém é obrigado a não ser um Karnal que, enfim, ainda vive nos pampas dos anos 60. Mas viver num centro urbano, hoje, e achar que comer animais, matá-los para comer, é alguma coisa que se reduz a “hábito alimentar”, no contexto da vida gourmet do momento, é atrazo: é carência de civilização, civilidade, falta de inteligência, coração empedernido. Fazer como Reinaldo de Azevedo e Pondé fizeram, que foram em seus jornais falar contra as moças que salvaram os beagles daquele laboratório fajuto, que não fazia pesquisa alguma e só maltratava animais, é uma prática de falsários. Essa gente põe a razão científica como tudo podendo, em nome de remédios que não fazem tão bem quanto parecem, e de maquiagens que poderiam ser feitas sem o concurso do sofrimento animal. É interessante que a tal razão científica tenha se tornado o deus dos conservadores! Nietzsche, um eleito do conservadorismo, foi sem dúvida o homem que mais ridicularizou esse tipo de conservadorismo. Nietzsche ousou dizer que a ciência não podia ser livre. Mas ela é, por natureza.

As pessoas de hoje adquiriram um sentimento pelas árvores uma identidade com muitos bichos. Isso é um ganho moral inestimável. Tão grande quanto o ganho que incluiu entre humanos a mulher, a criança, o pobre, o negro, o aidético, o anão etc. A democracia liberal é um regime, em certo sentido, hoje, totalitário. Mas, já imaginou viver sem os ganhos dela? Já imaginou viver sem a Doutrina dos Direitos Humanos, dos Direitos Civis, dos respeito às minorias? Seria como viver sem os ganhos do horizonte de perdão posto pelo cristianismo. Seria estar num mundo perverso que abandonamos exatamente porque não quisemos mais ser perversos.

Vivemos hoje, é certo, em uma sociedade em que muitos passam pela automutilação caseira. As pessoas estão amortecidas e, então, se punem. Querem voltar a sentir dor. O problema apresentado pela médica na série Sob Pressão (Globo), que se corta, não é incomum no mundo de hoje. Numa sociedade desonerada, onde o sofrimento precisa ser eliminado, e de fato é, é claro que devem surgir os que se auto-oneram. Todavia, essa é uma transição que teríamos de passar. Não vamos, por conta da Marjorie Estiano, querer voltar aos lutos dolorosos ou às crucificações. Ou seja, não é por conta de termos um geração de gente mole nas escolas que vamos reintroduzir a palmatória. Precisamos entender a desoneração como fenômeno do mimo inerente e crescente que faz parte de nossa condição humana.

Não matar os animais está dentro do projeto que Marx chamou de “missão civilizadora do Capital”. O capitalismo se associou bem à democracia liberal e mais ainda à nossa condição própria que requer o mimo, o plus, a vida com o “mais” – inclusive com a mais-valia, claro. Mais-valia faz parte do “mais” e da sociedade de abundância (Galbraith) em que vivemos. Mais tudo, mas menos dor. Essa é nossa regra. Em menos de duzentos anos deixaremos de matar animais e comê-los. Em menos de cinquenta anos não haverá mais gente no Brasil matando gay, travesti e trans. Haverá mais gente se cortando? Talvez. Mas o fim da dor é um vetor inexorável. Fabricaremos dores suportáveis e administráveis. A sociedade da eutanásia assistida.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 23/08/2017

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3 Responses “A sociedade da despedida da dor”

  1. Vicente Santiago
    24/08/2017 at 12:51

    “Amarelos” assim são chamados os pregadores da morte, ou “negros”. Mas eu os mostrarei a vos em outras cores.
    Estes são os “Verdes”.

  2. Matheus
    24/08/2017 at 01:10

    O Pondé “não consegue” ver nada além de bom no que acontece quando pessoas se dizem defensoras disso ou daquilo, só porque ele identifica ali um egoísmo disfarçado. Ele não vê for ou sofrimento. Só vê a resignação trágica de alguém que está em decomposição, sem levar em conta as vidas que são salvar.

    • 25/08/2017 at 01:10

      Matheus, o Pondé projeto o egoísmo dele próprio nos outros. Ele imputa a canalhice dele nas pessoas. É um tonto. Um infeliz.

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