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29/05/2017

Socialismo, fase necessária para o consumismo


Os Rollings Stones em Cuba são a prova cabal de que o socialismo foi uma fase necessária, em alguns lugares do mundo, para que estes pudessem entrar para a grande estufa, o lugar da zona de conforto e de mimo que rege a continuidade da domesticação do homem. Nada mais digo aqui que a ideia expandida, para o caso cubano, do que Peter Sloterdijk já disse para o caso geral, iconizado pelo fim da URSS (Esferas III).

É como se alguns lugares do mundo devessem ter um segundo empurrão para o interior do palácio de cristal (Sloterdijk), onde vale antes aparecer que ter (Debord, A sociedade do espetáculo): para além de Napoleão e a expansão da revolução burguesa, um pouco de Lênin e Stalin aqui e acolá, ou melhor, um pouco de Mao acolá e os irmãos Castro aqui.

Não se trata do fim definitivo do socialismo diante do capitalismo. Seria ridículo, a essa altura do campeonato, usar esses termos. Quando Rorty escreveu em um mundo no qual o leninismo havia chegado ao fim de uma vez por todas, ele o fez ainda dizendo que não via saída senão a da sociedade de mercado. Agora, com Sloterdijk abordando os tempos contemporâneos, ele já não pode mais usar a fórmula simples, da sociologia tradicional, “sociedade de mercado”. Trata-se de ver como que gente como os Rolling Stones podem chamar para o campo da pós-história – o lugar doméstico que, exatamente por ser doméstico, como um lar, nada acontece mais de histórico – os que estão entrando para este campo agora, quando muitos não irão entrar mais, nunca mais.

Stones e Obama juntos convidaram Cuba para o palácio de cristal. É um convite que se nega ao México e aos sírios, pois imagina-se que estes possam fazer a coisa por si só. É uma porta fechada definitivamente para certos povos da África negra, porque ali, todos nós concordamos, os exploradores impediram Deus de entrar. Lugares que até Deus abandonou, não há o que fazer.

A entrada no palácio de cristal tem um preço, bem anunciado pelo personagem deStones em Cuba Dostoievski: para tal construção não se mostra a língua ou se faz figa dentro do bolso, nem mesmo ninguém está vendo uma tal travessura. O palácio admite criatividade extrema, individualismo de uma riqueza de tipologia jamais vista, uma capacidade infinita de moda, mas a contestação sofre com um aviso imediato, um imperativo categórico de cunho mais que político, de fundo ético: não se reclama do paraíso. “Não se reclama do paraíso” não é igual a “cavalo dado não se vê os dentes”. Não! O palácio de cristal admite mil e uma críticas. Há balcão para devolução de peças, como todo Shopping. O que não há é a pergunta: que tal construirmos outra coisa, não o Shopping? Uma pergunta desnecessária, para muitos, pois o próprio palácio de cristal é isso, a base do grande Shopping. Abre-se aí todas as perspectivas para um espaço preocupado com entretenimento como trabalho e vice versa; performance para se sentir que há ainda algo sério; apartamentos singles em cidades que se parecem como espumas de prédios; sistema wireless mundial de modo a criar uma nova comunidade; bioengenharia na fabricação de todo tipo de prótese e também monstros e governantes perfeitos; disseminação da conversação sobre corpo saudável e gosto pela morbidez; grandes shows no estilo das Love Parade dos  anos 90, no sentido de uma volta à sinestesia uterina, que é sempre a melhor forma de casa, de domesticidade.

Cuba vai se sair bem com esse convite americano para a estufa. Pode até coroar isso com eleições livres, essencial para que o palácio de cristal possa ter um dia cheio de bandeiras tremulando do lado de fora, como nos dias de visita, quando, no passado, todos vieram a Londres e Paris para as Grandes Exposições do século XIX que adentraram o século XX.

Todos poderão visitar esse novo piso do palácio de cristal, dedicado à exposição de carros do passado.

Paulo Ghiraldelli, 58. Filósofo

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10 Responses “Socialismo, fase necessária para o consumismo”

  1. Edson Silva
    06/04/2016 at 13:33

    Que legal, vocês acreditam em Deus e em religião! Eu também acredito em mula sem cabeça, fada madrinha e duende! Indico os livros de Richard Dawkins.

  2. Robson de Moura
    31/03/2016 at 19:17

    “Agora, com Sloterdijk abordando os tempos contemporâneos, ele [e eu] já não pode [posso] mais usar a fórmula simples, da sociologia tradicional, “sociedade de mercado””.

    Aqui o povo fala só disso. Sociedade de Mercado. Compreendo perfeitamente que ele está anos-luz atrás das imagens do texto. Por favor, me indiquem leituras para engatinhar na direção de vocês!

    • 01/04/2016 at 12:51

      Robson, os nomes, uma vez explicados, não são o problema. Agora quando viram rótulos para não se explicar mais nada, aí sim é o problema.

  3. Orquideia
    26/03/2016 at 22:58

    “É uma porta definitivamente fechada para os povos da África negra,pois lá os exploradores impediram Deus de entrar”.
    Que judiação,que dó…
    Mas o mencionado confirma minha teoria de que sem a esperança trazida pela religião,a raça humana não consegue “ir em frente”.

    • Thiago Carlos
      28/03/2016 at 08:03

      Orquideia

      Desde quando a religião é a única fonte de esperança capaz de fazer a humanidade conseguir “ir para frente”? Ela, muitas vezes, funciona como o oposto disso que você afirma e no caso da África ela pode se tornar uma força anti esperançosa ainda mais perversa.

    • 28/03/2016 at 09:34

      Thiago, à parte da Orquídea, que deve responder quando quiser, eu respondo prá você: religião é sinônimo de esperança. Você está por fora de tudo. Tudinho mesmo. Agora, há povos que não ligam a religião à esperança porque a esperança não é um valor.

    • Thiago Carlos
      28/03/2016 at 11:05

      Mas eu não disse que ela não pode ser fonte de esperança. Só falei que ela pode funcionar advogando o oposto disso.

    • 28/03/2016 at 11:11

      Olha bem.

    • bardo toad all
      28/03/2016 at 13:42

      excelente colocação, Orquídea. o Paulo deve achar que a África precisava deixar o Deus [aqui entendido o Cristão e o Ocidental] entrasse, como se ali não tivesse previamente Deuses, cultura e civilização. parece que o dito filósofo é mais um apologista do genocídio e do aculturamento ocidental cristão europeu.

    • 28/03/2016 at 15:38

      Bardo, seja isso, mas não grite. Os outros não precisam saber que é deficiente cognitivo.

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