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24/04/2017

Só um Deus pode nos salvar


A Oliver Cromwell se atribui a seguinte frase: ‘nunca um homem sobe mais alto do que quando não sabe aonde aonde vai’. A sentença é lembrada por Peter Sloterdijk no livro em que constrói uma “teoria filosófica da globalização”, que na língua portuguesa ganhou o belo título O Palácio de Cristal. O filósofo alemão cita esse dito no sentido de introduzir uma variante entre os idólatras da inovação e os seus detratores. Sinceramente, acho necessária essa alternativa.

Penso que Sloterdijk faz, como Rorty, aquela observação de que o importante talvez não seja rir ao ler Nietzsche, o que de fato é o que ocorre, mas de rir de ter um dia achado graça em Nietzsche. Antes que uma dialética incessante do Iluminismo, é bem mais interessante uma dialética incessante do riso. Sloterdijk faz isso ao voltar a criticar o progressismo de burgueses ou de Lênin, que se justificam perante o crime por meio do amor à necessidade da novidade, mas também ao deixar a dica para os que, como eu, acham as críticas do tipo das de Cioran um tanto fraquinhas. Criticar os “melhoradores do mundo” porque eles propõe a novidade nunca me soa senão como um amontoado de clichés datados. Dizer que São Paulo era um fanático que fez o mundo mais sangrento do que Nero é sabedoria de adolescente que descobriu o ateísmo e o pessimismo no Facebook, não na escola. Aliás, cá entre nós, o pessimismo me soa ridículo uma vez que seu contraponto é o otimismo. Que banalidade essa divisão de visões!

Sloterdijk nos dá a chance de fugir dessas becos todos. Ele lembra que talvez Nietzsche, na poemização filosófica do Zarathustra, tenha de fato dado chance para a chance. Ou seja, tenha voltado os olhos para um elemento do qual teimamos fugir: o “Dom Acaso”, a força nobre que, quando aceita, nos coloca na ponta da língua de uma história aberta para o exterior. Nessa hora, a frase de Cromwell, o homem da Revolução Gloriosa inglesa, diz o que gente como Comte, depois, com o seu “saber para prover”, quis evitar. O que Rorty anunciou contra todo platonismo, paradoxalmente: a contingência tem cadeira cativa no mundo. O não cativo tem cadeira cativa. O mundo é um lugar para a Fortuna, na sua acepção moderna.

Por isso Richard Rorty tinha um lema que deixava todo os sabichões extremamente incomodados: “antes esperança que conhecimento”. Poderíamos dizer: nossos desinibidores (Sloterdijk) vem antes do fundo da caixa de Pandora do que de uma mais nobre visão de Bacon, com o seu industrialismo. “Saber para prover” só vale mesmo como esperança, não como saber. O próprio saber não é uma certeza do prover. Somos apanhados pelo mosquito da Zika, que é quase como uma paródia, ou um pastelão, da cena dos anos oitenta, quando fomos apanhados pela “peste gay”. Somos apanhados pela eleição de um fanfarrão de cabelo do tipo daquele que o Visconde de Sabugosa tem nos bagos. É como se Bush pai elegesse um neto mais débil mental que o filho! E isso também como uma outra paródia, a de que russos (russos!) ganharam a eleição americana por meio do Facebook. Mel Brooks gostaria de ter escrito algo assim, mas agora não adianta mais, já ocorreu como realidade. Quem leva a sério essa história que nada tem de séria, e que inaugura somente um teatro da eterna comédia de erros, entende o quanto a crítica ao progressismo ou a crítica ao melhorismo são instrumentos, atualmente, pseudo-intelectuais. Serve para encher a fila do gargarejo de palestras de fracassados e desistentes, que se apresentam como professores porque não tiveram a chance de imitarem Seinfeld. São animadores de puteiros.

No mundo atual a única coisa que o conhecimento tem nos ensinado é que não temos mais o direito de dizer “eu não sabia”. Não temos mais o direito à ingenuidade. Mas, também, não temos o direito de dizer “eu não sabia que meu saber é só esperança, não saber positivo.” Por isso mesmo datas como Natal e Ano Novo possuem magia. São datas onde, sorrateiramente, o “Dom Acaso” é verdadeiramente desafiado. Invocamos nessa data que Deus, ou seja, o Destino, fique do nosso lado – contra o acaso. Sou daqueles que tentam rir até de Heidegger, quando o leio dizendo que “só um Deus pode salvar-nos, ainda”. Mas, nesse caso, confesso, minha tentativa  é sempre frustrada. Acabo não rindo como gostaria.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 25 de dezembro de 2016

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3 Responses “Só um Deus pode nos salvar”

  1. 25/12/2016 at 22:20

    um texto, que em alguns momentos me incomodou, e não por nada de mais, por um fazer graça em torno do que? a esperança enquanto esperança, enquanto valor ou resposta ao existencialismo, esperança enquanto promessa ou fé, gostas dessa ideia de resposta? também o acaso que é a moeda do poeta: isto gostei. Mas, simplesmente isso? O saber é uma esperança?
    O Saber pelo Saber, o Poder pelo Poder, falar simplesmente em pessimismo e otimismo como se fosse apenas a dicotomia, mas a coisa não é tão simples, e talvez não seja nem mesmo sobre pessimismo, ou sobre ‘acreditar’ ou não; um deus? baco, dionísio? o próprio Nietzsche coloca, “só acredito em um deus que saiba dançar”, achamos graça? que é a graça, é maravilhosa? passa perto de uma filosofia da beleza, sente o cheiro de essência? “acredito porque é absurdo”, qual foi o santo que o disse? o do mês de agosto?
    Acho a esperança a miséria daquele que não pode ou não sabe ou não consegue sofrer, e isso cessa mesmo a Angústia? A culpa, quem foi agora… Kierkgaard? O pecado original, Deus introduziu o pecado, importa mesmo isso?
    Abraço, amigo, este que é reação ao texto lhe é entregue. Algum movimento… Me parece que padecemos de náusea.

    Assinado: por alguém que padece no século xxi pelo saber & poder, algo de Schopenhauer… o homem é o que mais sofre, porque? espero que saibas, é por isso! mas será? há todo o existencialismo e os rebeldes e malditos e os tristes e todos estes poderiam cair num mesmo saco de pessimistas? é claro que não, hoje pensei: “existe uma realidade objetiva muito triste, enquanto fato positivo, logo me propus uma questão lembrando de Espinoza, sobre os afetos tristes, depressão e ansiedade são mais generalizados hoje? Como sair pela culatra? Há! Gostaria de ouvir uma réplica sua quanto a isto tudo. Nem todos são leitores do facebook, e alguns também caem em circuitos sinistros, difíceis, sofridos, o caminho é acaso também, e determinação.

    • 25/12/2016 at 22:46

      O que eu tinha para dizer está dito. Acho que até demais, até mais do que o necessário, até com referências a mais. Textos filosóficos são para serem mastigados. A leitura apressada, sem pensar, sem curtir e viver, não ajuda.

  2. Thiago
    25/12/2016 at 22:08

    Quando eu vejo um Renan Calheiros, que desacatou veemente uma decisão do STF de sair do cargo e ficar por isso mesmo, e de um Lula, que roubou mais do que tudo e que ainda quer se candidatar, eu percebo que seu texto não poderia estar mais certo. Talvez, afinal, deveríamos de vez aprender a fazer o que esses caras de pau fazem: abraçar o acaso de vez e ver no que que dá.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo