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25/07/2017

Peter Sloterdijk e as saudades de Mileto


“Tudo é água”, disse Tales. Seu discípulo Anaximandro acreditou que a água era excessivamente determinada para ser um princípio de todas as coisas, um arkhé; o que governa o cosmos é o indeterminado, em grego: ápeiron. Mas o discípulo de Anaximandro, Anaxímenes, preferiu voltar ao avô filosófico e encontrar algo entre o completamente indeterminado e a água, e escolheu então o ar como princípio cosmológico.

Água, ápeiron e ar – a primeira filosofia não estava preocupada com aparência e essência (Platão), nem com substância (Aristóteles), menos ainda em falar do sujeito como produtor ou organizador do conhecimento a respeito do cosmos (Kant). Muito mais tarde, quando Nietzsche filosofou, ele se tornou enamorado desses primeiros filósofos, e também ele procurou fazer antes uma cosmologia que uma metafísica: colocou-nos todos imersos em forças cósmicas vendo os valores humanos como o exercer dessas forças. [1]

Por sua vez, buscando se livrar do dualismo sujeito-objeto cartesiano, os pragmatistas americanos falaram em “experiência” como um feixe de relações cósmicas, uma espécie de acontecimento com características de Erfahrung (experiência histórica) e Erlebnis (experiência psíquica, vivência), palavras alemãs que Hegel deixou em sua mesa de trabalho para que John Dewey bem utilizasse.[2]

Em todos esses casos, após a virada epistemológica e o nascimento da filosofia do sujeito e também a devastadora crítica contemporânea a tudo isso[3], há o que hoje podemos chamar de uma filosofia do “entre”, uma teoria do meio, do ambiente. Essa filosofia do “entre” encontra fácil predecessores. Assim é se olhamos para traz segundo o vocabulário proposto por Peter Sloterdijk na sua “teoria das esferas”. Aliás, o nome “esferas” é bom se nunca nos esquecermos de acoplarmos a ele essa sua virtude, de ser uma “teoria da mídia”. E por que o meio, o “entre”? Porque a pergunta de Peter Sloterdijk vem de um insight de quem é um leitor inovador de Heidegger: “onde estamos quando estamos no mundo?”[4] Essa pergunta é semelhante a uma outra: se o Dasein é o ser-aí, onde é e como se manifesta esse “aí”?

Sloterdijk faz um pergunta pelo espaço, pela suspensão vitamínica que serve como um interior para aquilo que é ela própria, a suspensão, e elementos que a formam; mutatis mutandis uma “água”, um “ar”, um “apeiron”. Trata-se de um meio, menos como arkhé, mas certamente como o que nos dá o cosmos, deixando para trás o caos. Algo que funciona antes como lar que propriamente como casa. Algo do qual se possa dizer “Dasein ist Desiner”. O homem é aquele que se manifesta como um “designer de interiores”. [5]

Sloterdijk define a esfera como um meio que tem no mínimo uma díade, dois polos; mas não são esses polos o ponto de partida da narrativa e atenção, pois eles são guiados e, digamos, gerados, pelo que faz a esfera ser uma esfera: a ressonância. A ressonância faz com que falemos em dois ou mais polos, e ela dá o contorno do espaço e seu “interior” – não necessariamente físico ou mesmo real, mas surreal – de modo que também possamos falar em simbiose dos polos, interpenetração ou mesmo constituição de dois polos.

A esferologia é composta de “bolhas”, “globos” e “espumas”. As bolhas são o que cabe investigar no âmbito de uma microesferologia, no caso, então, a intimidade. Mas a intimidade aqui não é o que se investiga por uma sociologia do sexo ou um mapeamento da subjetividade, mas é algo que, se visto espacialmente, tem de ser estudado pelo historiador do espaço, o arqueólogo. Sloterdijk se faz filósofo à medida que se põe como um arqueólogo da intimidade. Trata-se de um profissional que busca encontras peças antiquíssimas que designers de interior que viveram no passado deixaram como relíquias, no sentido de aperfeiçoar o meio no qual estiveram em suspenção. Assim, no estudo das bolhas, ou seja, no volume Blasen, que é o Sphären I, a questão toda é investigar as mutações do “entre”, “do meio ambiente”, da esfera que podemos chamar de intimidade, em várias fases. Esse “entre” é o que preenche toda a esfera e a constituições por conta de ressonância.

Assim, “tudo é água”. É quando nossa narrativa ontológica começa a esfera íntima na qual há o útero em elementos na suspenção do líquido amniótico, como o caso do cordão umbilical, as partes moles fetais, o sangue, as paredes semi-elásticas. Tudo é som, tanto nessa fase quanto depois. A ressonância sonora cria o lugar. Se nos perguntamos “onde estamos quando escutamos música?” (ou um evangelho, ou seja, a boa nova)[6], vamos saber que estamos na música e ela em nós, envolvendo, penetrando e conformando. Ela é a grande ressonância contínua nos processos de mutação das esferas. Em um terceiro momento, já fora do útero, estamos no ar, mas mantemos o “interior” esférico não só com o ar, mas também com a pele da mãe e o som – o do mundo e também um novo, o do próprio bebê. Perde-se a placenta, a companheira e ampliadora inicial, mas se ganha o que já se tinha em parte, o som. Vozes são, então, o segundo polo para um primeiro polo, agora, que é o bebê. Esse som não tarda em ser a voz do daimon, do anjo da guarda, do gênio etc. Nenhuma placenta pode desaparecer sem que o som, o que é o “entre” contínuo, deixe de manter a ressonância vigente, gerando um segundo meio esférico, que agora contém algum esforço, ao menos o que exige outro meio, o ar. Todo o livro Blasen é a descrição, em vários níveis e com inúmeros instrumentos e narrativas, de uma espécie de uma possível ontologia contemporânea.

Entender essas ressonâncias iniciais é entender as possibilidades de uma filosofia que é uma teoria da mídia, algo que diz que é possível de fazer uma narrativa ontológica se não perdermos de vista que não temos que começar por polos, mas por tudo é água, som, ar etc., como se quiséssemos manter em mente o physiologoi e também a tradição parmenídica-heideggeriana. Há uma nostalgia de cosmologia jônica na teoria da mídia de Sloterdijk, a sua esferologia. Uma longínqua saudade nietzschiana de Mileto.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] O Nietzsche cosmólogo me é simpático, como está na leitura da filósofa brasileira Scarlet Marton, em oposição a leituras heideggerianas, que tendem a vê-lo como o penúltimo dos metafísicos. Ver: Marton, S. Das forças cósmicas aos valores humanos. São Paulo: Brasiliense, 1992.

[2] Ver: Ghiraldelli, P. Escola de Frankfurt e pragmatismo em espelhos. In: Rorty, R & Ghiraldelli, P. Ensaios pragmatistas sobre subjetividade e verdade. Rio de Janeiro: DPA, 2006.

[3] Para uma visão sintética desse processo: Ghiraldelli, P. A aventura da filosofia. Barueri-SP: Manole, 2010, vols I e II.

[4] Sloterdijk, P. O sol e a morte. Lisboa: Relógio D’Água, 2001, p.143.

[5] Sloterdijk, P.  Blasen. Sphären I. Frankurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1998, p. 84.

[6] Sloterdijk, P. Extrañamiento del mundo. Barcelona: Pre-Textos, 2008, pp. 285-314.

Turquia, Mileto, Teatro Balat - de boa acústica!

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3 Responses “Peter Sloterdijk e as saudades de Mileto”

  1. 22/02/2015 at 17:37

    Tales é grande! Tales é muito grande! Só na Filosofia para haver um principio formulado há 27 séculos que ainda é valido.

  2. LH
    22/02/2015 at 10:54

    venho acompanhando os textos sobre Sloterdjik, mas é tudo muito estranho pra mim. Placenta, ressonância, bolhas, vai demorar pra assimilar essa tese ai.

    • 22/02/2015 at 12:15

      Não creio! Os textos explicam tudo, basta ler o que está escrito sem cabeça cheia e pensar. O problema é a cabeça cheia.

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