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25/07/2017

Sloterdijk não tem a ver com o pensamento político tradicional


A esquerda e a direita confluem para a ideia de que o homem depende sempre de leis externas de modo a compartilhar com outros a vida boa. A direita faz isso invocando a manutenção de alguma hierarquia social, de modo a dar continuidade a grupos sociais estanques, ainda que permita alguma mobilidade sócio-econômica individual (via partido, no caso do nazismo; via corporações, no caso do fascismo; via oportunidades de casamento e sorte no mercado, no caso da direita liberal). A esquerda faz isso invocando o fim da hierarquia em concomitância a uma equalização máxima de condições de vida, e isso associado a uma cota obrigatória de contribuição de cada um, o que torna cada um também incapaz de refazer qualquer distância sócio-econômicas já abolida. Peter Sloterdijk nada a tem a ver com esses princípios gerais que, grosso modo, caracterizam direita e esquerda.  Peter Sloterdijk se vê com um pensador à esquerda, mas ele está além de esquerda e direita.

Quando ele fala em “sociedade do fisco voluntário”, não está pensando no fim da organização social complexa, num lugar em que seja lá como for que se adquiriu riquezas, ricos mais e pobres menos iriam doar dinheiro, tempo e serviços para instituições necessárias à vida social. Ninguém pensaria em algo assim. Aliás, nem mesmo Nozick, que diz que todo imposto é um roubo, pensou em algo assim. Sloterdijk nada tem a ver com isso; ele tem a ver com a imaginação de como mudaríamos nossos espaços ao repor neles a animação advinda de criarmos coisas e cuidarmos delas. Seríamos uma sociedade orgulhosa se assim fizéssemos. Toda a nossa sociedade gera algum plus em algum determinado nível, e ficamos felizes de empregarmos esse plus em alguma coisa que gostamos, e mais felizes e orgulhosos ainda quando somos nós que temos que dar manutenção para tais coisas, sejam escolas, bandas, hospitais, asilos, barracas gourmet, tardes esportivas, museus, expedições anuais para a Mongólia ou parques para cães.

O que Sloterdijk quer é fazer oposição à Internacional Miserabilista, que comanda a ideia, em todas as frentes, de que o homem nasceu pobre, sem recursos, e que sempre está em situação de precisar mais e ter menos. Nessa situação, tudo que é doação se transforma num fardo. Na base da cosmologia da vontade potência de Nietzsche, associada à noção de uma economia do esbanjamento de Bataille (e talvez pela ideia de ócio conspícuo de Veblen), agrupada a uma psicologia antes timótica que erótica de Fukuyama e outros, Sloterdijk reconstrói a imagem de nós mesmos como aqueles que querem empregar esforços no gasto para o cuidado, na doação para aquilo que queremos ver ir adiante. Nesse contexto aparece uma sociedade do “dinheiro inteligente”. Cada um emprega seu dinheiro no que quer cuidar, sem ter que dar todo o seu dinheiro para outros que decidem no que empregar, sem prestar conta, e inclusive não dando manutenção justamente para aquilo que você gostaria de ver cuidado. O sistema de impostos que temos faz sempre esse segundo serviço, mesmo onde o retorno social é grande.

Essa situação é, portanto, uma situação filosófica, não uma situação real política. Todavia, ela não está longe da situação real política, pois se notarmos o quanto a economia americana, e de outros lugares, já gira em torno da doação, iremos nos espantar e verificar que o impulso para uma economia timótica é e sempre foi uma realidade. A tese de Sloterdijk é manter espaços de animação, necessários à nossa reposição de energia e manutenção de nosso ímpeto de continuarmos fazendo história. Uma economia timótica irá fomentar a animação dos espaços gerados e cuidados por ela, por seu indicadores de doação. Não deveríamos esquecer, por exemplo, de que universidades americanas públicas, que dependem de manutenção estatal, ainda assim recebem doações de ex-alunos e de pessoas da comunidade. Deveríamos lembrar que recentemente um milionário gaúcho construiu um grande hospital de cães e gatos para atender de modo semi-gratuito. Deveríamos relembrar que a TV mostrou por esses dias um homem pobre que reformou um hospital inteiro, em mutirão, porque viu tal necessidade quando sua esposa ficou internada.

A economia do doar, do esbanjar, do gastar a mais existe para além do que computamos existe. Ela desmente a Internacional Miserabilista, mas esta, ideologicamente, é forte, e volta a nos dizer que tudo isso não existe, que temos de colocar a polícia para arrecadar impostos e deixar o estado administrá-los, ou então o partido, ou então um ditador ou ainda simplesmente um grupo de banqueiros. É incrível que mesmo quando temos dados que desmentem a Internacional Miserabilista, ainda assim ela continue a nos dar imagem – falsa – de nós mesmos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 02/12/2016

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10 Responses “Sloterdijk não tem a ver com o pensamento político tradicional”

  1. Ackyllis
    21/12/2016 at 00:04

    Não conheço a obra dele mas já li sobre vontade de potência “generosa”, a ideia de se afirmar no mundo de forma a construir com os outros, não por meio de compaixão mas de potência de transformação, interessante mas só seria possível através de uma transformação cultural intensa e talvez, utópica. Apesar de ser emotivo, empático e social democrata, costumo ser realista, não podemos vencer a imposição de poder no mundo, ou o “individualismo” estatal que prejudica o coletivo ou o coletivismo estatal que apatiza o individuo, um poder sempre se estabelece, ao menos ate aqui na história. O que podemos fazer é criar mecanismo para tornar o poder mais desejável e suportável, desejável para quem ? Para todos acho que nunca. Mas claro que podemos nos alegrar com orgulho e potencia de interferir positivamente no mundo, uma potência desejável ao coletivo e consequentemente ao individuo de certa forma, gostei muito do texto e vou atrás da obra de Sloterdijk.

    • 21/12/2016 at 04:14

      O realismo é um lixo para o Sloterdijk, Ackyllis. Além do mais, você está lendo o texto sem lê-lo, apenas absorvendo palavras e as colocando em moldes de pensar velhos. Vai ter que se abrir ao novo.

  2. wagner santos
    04/12/2016 at 12:10

    A gestão de Doria São Paulo abrirá espaço para o que o Peter está propondo? Ele conseguirá trazer os ricos da cidade para cuidar dos parques paulistas como acontece em Nova York?

    • 04/12/2016 at 12:23

      Wagner eu acho que você não entendeu quem é Dória e o que Peter propôs e muito menos o que eu escrevi. Você está procurando alguém no governo para realizar coisas que eu falo que são feitas por pessoas? Lei de novo, por favor.

  3. Tony Bocão
    02/12/2016 at 14:21
  4. 02/12/2016 at 12:18

    Acho muito difícil se libertar da jaula de ferro de Weber. O homem é livre apenas para ser castigado. Mas, eu gasto 15% do que ganho com os meus bichos!!!

    • 02/12/2016 at 12:21

      Faz um esforço, se você ler de novo meu texto, dá mais um passo. Acho que lhe falta uma certa cultura a respeito do que trato nas citações.

  5. 02/12/2016 at 09:53

    A “situação da real política” tem relação com a escassez de recursos. Portanto, tem a ver com uma configuração concreta do poder face a impossibilidade de os recursos existentes atenderem a todas as demandas no pleito. É o caso histórico, por exemplo, das disputas em torno do “espaço vital”. Hoje, temos o petróleo e a agua potável.
    A tendência histórica é que a “situação da real política”, a cada vez, diminua os espaços para a construção da “economia timótica”. A sociedade moderna é avassaladora na destruição dos recursos. Logo, a questão filosófica sobre a “economia timótica” deve enfrentar o fato realístico da (im)possibilidade de convivência com a realpolitk. Ninguem, estando na sociedade moderna, escapa da “jaula de ferro”!!!

    • 02/12/2016 at 11:01

      Não! A Internacional Miserabilista se apoderou de você. Acho que você tem cabeça sim para ler meu artigo de novo e tentar se libertar dela. Acho que dá. Tente.

  6. Senô Bezerra
    02/12/2016 at 06:17

    É um ponto de vista que merece análise.

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