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18/11/2017

Sloterdijk: para olharmos para além de luta e sexo


Marx no ensinou a ver a sociedade como contendo opressão. Freud nos fez ver a civilização como resultado de repressão. Nos anos sessenta estourou no meio intelectual o freudomarxismo e, com ele, o sucesso da “hipótese repressiva”. Tanto no capitalismo quanto no socialismo o trabalho nada seria senão um elemento antigo de formação do homem, mas como parte de um processo de desvio das energias psíquicas em favor da obra civilizatória. Segundo tal narrativa, não teríamos feito a civilização nos termos que a fizemos se não tivesse havido a sublimação, ou seja, a transformação da energia libidinal.

Entre outros, Foucault foi um dos que mais se destacaram, principalmente contra Marcuse, na crítica à “hipótese repressiva”. Para ele, caso vivêssemos sob os cânones da visão dada pela leitura de Freud e Marx, nos termos de boa parte da Escola de Frankfurt, nunca teríamos feito absolutamente nada em termos culturais. Fazia-se necessário, segundo ele, não se pensar em desvios segundo repressões e sublimações libidinais, mas em algo positivo, algo como a disciplinarização do corpo em função de se atingir a alma, de modo a gerar não o homem reprimido, mas o homem disciplinado e potencializado nas suas forças, e então produtivo.

A narrativa foucaultiana tinha tudo para fazer sucesso. Mas a visão freudomarxista era muito mais poderosa que se podia imaginar. Forte o suficiente para abocanhar os leitores de Foucault. Não foram poucos os que leram Foucault erradamente, pela via da política de esquerda. Deixaram de lado o rigor do conceito de disciplina de Foucault, e o reabsorveram no contexto da crítica da alienação de cunho frankfurtiano. Isso se transformou numa vulgata da Nova Esquerda americana e, no Brasil atual, não raro a encontramos na boca de seguidores meio desavisados de Foucault. O hilário dessa situação é que muitos à direita, mais preocupados em ler a vulgata da esquerda que os próprios autores, aprenderam também errado, associando o pensador francês ao marxismo (Pondé à frente). Criaram então um imbróglio bem mais estúpido que aquele da Nova Esquerda americana e seus adeptos brasileiros.

Justamente por tais narrativas chegarem a tal desgaste, a ponto de saírem da mesa do marxismo de boteco, da esquerda, para caírem no boteco da crítica ao marxismo, da direita, é que penso que o tempo de vida de tudo isso passou. Não creio que vale a pena ficar aqui e ali corrigindo essas facções partidárias que se imaginam filosóficas. Talvez seja o caso de varrer tudo isso para um canto, e esperar as coisas melhorarem por si só nessa área. Paralelamente a isso, penso que vale a pena começarmos a pensar em narrativas que não tenham mais a ver com opressão ou repressão do modo que tais coisas foram se agrupando para culminarem no Maio de 68.

Penso que poderíamos, agora nesse século, testar teorias não em abandono a Marx e Freud, o que seria ridículo, mas na aposta de narrativas que deixassem Thânatos e Eros descansarem um pouco. Menos “luta de classes” e menos “sexo”, mas sem que isso fosse abolido por reacionarismo e carolice, não nos faria mal. Os fios condutores de nossas narrativas a respeito do que fazemos no mundo e com o mundo e de como nos criamos a nós mesmos, pode ser pensada sobre novos parâmetros, sem qualquer viés conservador? Creio que sim. A luta política tradicional, isto é, classista, e as peripécias da libido, estão afastadas do que é mais enfático no modelo filosófico social de Peter Sloterdijk.

A narrativa de Sloterdijk se faz a partir da sua teoria das esferas. Trata-se de uma narrativa que busca responder a pergunta “onde estamos quando estamos no mundo?”. Ora, se levamos a sério a convicção de Martin Buber, de que temos “instinto de relação”, então não é estranho dizer que estamos no mundo em relações com alguma coisa propriamente nossa, nada artificial ou sobreposta, mas desde sempre posta e contínua conosco, que forma um contínuo Dois em interpenetração. Luta e repressão pode caber aí, nesse caso, mas não como fio condutor de nossa condição, e sim como elementos contingentes e periféricos. São nossas ressonâncias que criam nosso ambiente de estar no mundo, e estar no mundo é estar “dentro”, e não perdidos na imensidão de um “fora”. Viver em esferas é viver desde o primeiro momento como uma subjetividade que, ainda sem sujeito, se faz a partir de uma díade, que formam os polos da esfera que, estando em ressonância, criam a própria esfera como um campo imunológico.

Nesse sentido o homem de Sloterdijk, bem como sua civilização que efetivamente o faz homem, não é formado por luta e repressão, mas pela sua capacidade de ser um (desde sempre) “designer de interiores”. O homem é um repositor de sua condição que é um estar dentro. Ele surge de uma díade pré-natal e passa no pós-natal e na sequência desenvolve a reconstrução do ambiente interior de onde veio. Esse ambiente escuro e sonoro nunca foi de solidão, mas de vida da díade, do duplo que se estabelece inicialmente como um Aqui e um Com, algo que na terminologia posterior podemos chamar de feto e placenta. É daí que se origina seu instinto de relação. É dessa ressonância que todas as outras virão. São essas ressonâncias sinestésicas tendendo a psíquicas, que geram a esfera como o interior surreal que vai sendo mobiliado.

Essa teoria de Sloterdijk é, portanto, uma teoria da mídia. Os polos do duplo interior que, em ressonância, dão o ponto de partida da esfera, não são os observáveis e narráveis, mas é o que ocorre nesse meio, na própria ressonância, que se faz necessário descrever. Falar do homem nessa perspectiva não é falar de luta e repressão, mas de interpenetração. Interpenetração entre um duplo inicial que permanecerá nuclear enquanto pensamento. O pensamento é a conversa conosco mesmo, disse Platão. Ora, isso é possível, a reflexão entre o eu e o si-mesmo, porque nossa origem é a de um duplo.

Assim, a própria intimidade, na conta de Sloterdijk, não tem um lugar especial para o que é comumente chamado de lugar de intimidade, que é o lugar do sexo. Uma “arqueologia da intimidade” não descobre o que o senso comum chama de intimidade, mas faz o elenco de situações vividas que compõem amplamente a microesfera chamada intimidade, o campo de ressonância entre no mínimo dois polos. Sem a esfera o sexo não seria outra coisa senão algo semelhante a um confronto em um ringue. Sem os fracassados nos processos de transferência, pelas quais ressonâncias são repostas quando algum polo da esfera é substituído por outro (por exemplo, quando a placenta vai embora e fica em seu lugar o som que, enfim, já havia nos atingido pela cinestesia, que não é o som da mãe, mas do mundo, das boas vindas, de si mesmo e de outros bebês), não teríamos os gaps de formação da subjetividade, e então não teríamos o que temos, os indivíduos inadaptados, com pequenos ou grandes distúrbios, com incapacidades de mostrar seu “instituto de relação”.

Somos capazes de abandonar Freud-Marx como modelo, e não como clássicos, e olhar para nós mesmos a partir desse novo modelo? Temos essa capacidade de acompanhar a criatividade de Sloterdijk? Ou apesar de falarmos em perspectivas e trocas de paradigmas não somos capazes de descrever as coisas senão pelo esquema da “hipótese repressiva”?

Há uma série de fenômenos sociais que a “hipótese repressiva” não apreende, e que também a disciplinarização de Foucault não dá conta. Deveríamos dar uma chance para o modelo de Sloterdijk.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015)

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7 Responses “Sloterdijk: para olharmos para além de luta e sexo”

  1. eduardo
    03/05/2016 at 12:40

    Paulo, há algum site para baixar os livros do Peter?

    • 03/05/2016 at 12:43

      amazon.com ou amazon.com.br

    • eduardo
      04/05/2016 at 13:58

      Obrigado

  2. Kleber da Cruz
    14/01/2016 at 09:20

    Algo me diz que as Canções da Inocência e as Canções da Experiência de William Blake tratam do mesmo assunto, porém de maneira poética. Até mesmo a questão de seus poemas estarem sempre acompanhados de ilustrações, que, na verdade, são iluminuras. O que vc acha professor?

  3. Hayek
    06/07/2015 at 13:27

    Dificilmente Sloterdijk vai ter uma influência do tamanho de Freud e Marx, devido a incompreensibilidade dos seus textos. É um novo Heidegger!

    • ghiraldelli
      06/07/2015 at 14:58

      Hayek a filosofia é para todos, mas não para qualquer um. Você não sabe, mas a influência de Heidegger é decisiva no século XX e será no XXI. O alcance de uma filosofia e sua fortuna crítica não são avaliadas por quem está fora do campo filosófico, pois tal pessoa não sabe o que foi emitido e o que “pegou”. Para você conseguir dizer isso que disse como uma verdade boa, e não como senso comum, você tem que estudar o Sloterdijk. Muito do que você atribui a Freud e Marx, na forma popularizada, não diz respeito a eles. Sacou agora seu erro?

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