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22/09/2019

Sloterdijk: a fortuna e o homem do Renascimento


Michel de Montaigne é o típico homem do Renascimento. Nele se aglutinam forças de pensamento helenista relativamente contrárias, criando uma situação quase impossível de ser pensada na origem dessas filosofias. Estoicismo e ceticismo convivem no coração desse ensaísta, aquele que disse ter por assunto preferido ele mesmo. Sempre entendi isso. Ou achava que estava entendendo. Mas só com Sloterdijk pude realmente compreender Montaigne como homem do Renascimento de um modo mais satisfatório, ao menos para eu mesmo.

Tive isso claro na minha cabeça na quarta feira passada, dia 5, ouvindo Sloterdijk no Instituto Tomie Otake, aqui em São Paulo. Sloterdijk lembrou de Fortunatus, o herói que tinha aquela bolsa que sempre repunha o dinheiro gasto. Sloterdijk tem insistido em ver nesse conto um símbolo do pré-anúncio da idade moderna. Trata-se da época em que o homem se vê como necessariamente aventureiro, pois entende que não há porto seguro e o que cabe é saber aproveitar o momento da sorte. Algo também dito em Maquiavel.

Quando tomamos o tema da fortuna para olhar o Renascimento e, particularmente, Montaigne, então tudo faz sentido. Ele é o homem pós agostiniano que já se vê como dividido entre o interior e o exterior. Todavia, diferente de Agostinho, se entrega a um mar de dúvidas. Sabe que o máximo que pode fazer para se louvar por uma conduta sábia, é o de manter uma proximidade entre sua conduta pública, exterior, e seu estar consigo mesmo, o estar ‘em casa’, a vida interior. Não há razão, diz ele, para prezar opiniões dele próprio mais que de outros ou de sua mesma diante de outros, e vice versa. Não tendo uma âncora para fixar o lugar de onde pode dizer o que é certo e o que é verdadeiro, o que se pode fazer para viver sobrecarregado desse ceticismo é, simplesmente, chamar com ensinamento mais uma corrente helenista: o estoicismo. Uma moderação dos excessos se faz necessária: nada que se faz externamente deve ir tão longe que não se possa, depois, voltar para o interior. Eis a regra básica: o eu externo não deve ser disparatado em relação ao eu interno e vice versa. Nada de excessos exteriores e nada, portanto, de arrependimentos lamentosos a quatro paredes. O estoicismo se casa com o ceticismo. Mas, aqui, moderação não quer dizer resignação. Moderação aqui significa saber que o mundo é regido pela fortuna tanto para o eu interior quanto para o eu exterior, e então estar atento para, como diz Sloterdijk, “apanhar a bola na hora que ela é jogada”. Na linguagem nossa, popular e brasileira: o cavalo só passa encilhado uma vez, não se pode deixar de tentar montá-lo.

Montaigne deixa claro que sua moderação, que pode conviver com suas incertezas, não é resignada: “jamais serei grato à impotência por qualquer bem que ela me faça”. (Ensaios,  Penguim e Cia das Letras, 2010, p. 360). Esse é seu ensinamento básico. Aí reside o triunvirato ceticismo, estoicismo e fortuna.

Quando eu era garoto não entendia a razão pela qual Cabral teria chegado ao nosso continente por conta da sorte, ou seja, por obra de uma calmaria que o fez desviar da rota. Sabia-se que desse lado havia terras. Então, por que essa narrativa de louvor ao acaso. Claro, estávamos em 1500. O Renascimento estava posto e a ideia da liberdade da fortuna era o modo de narrar tudo para o qual se dava importância. Em 1513 Maquiavel escreveu em O Príncipe: “a sorte, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos circunspectos, mais ferozes e com maior audácia a dominam” (Pensadores, 1987, p. 105). Isso é bem coadunável com Montaigne, um homem que viveu os anos mil e quinhentos: “Prezo pouco minhas opiniões, mas prezo igualmente pouco a dos outros, e a fortuna me paga dignamente” (Ensaios, p. 359). É à fortuna que se pode remeter ao final. Por isso mesmo, quem sabe disso e sabe aproveitar o momento, deve poder fazer bom julgamento de si. Ele diz: “se o acontecimento me derrota e se favorece o partido que recusei, não há remédio, não me recrimino, acuso minha fortuna, não minha obra: isso não se chama arrependimento” (p. 359).

Nós modernos somos os que assumiram essa descoberta do Renascimento de um modo ritual. Passamos a ver em tudo a Roda da Fortuna: casamentos, mortes, guerras, aniversários, visitas inesperadas, viagens, prospecções várias, empregos diferentes, mídia, e, finalmente, institucionalizamos a fortuna: loteria esportiva institucional e a jogatina do sistema financeiro. Esse processo mostra a glorificação da fortuna. Só ela é efetivamente uma deusa. E só vale a pena ser rico, ou seja, ter fortuna, se a riqueza é de fato ter fortuna, vir pela fortuna. Contamos com a sorte, e quando dizemos “God Bless América” ou “Deus te ajude”, mais ainda. A bola da vez – é necessário tentar apanhá-la. Todo amor moderno é audácia, é arriscar-se, pois a própria fortuna é mulher e quer ser arrebatada de modo forte. Quem tem pegada tem, que não tem, que não se lamente. “Não deu sorte”.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 07/10/2016

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One Response “Sloterdijk: a fortuna e o homem do Renascimento”

  1. Matheus
    28/10/2016 at 10:46

    Interessante a arte da fortuna cega como algumas representações da Justiça tbm o são. Mas queria focar na cornucópia, esse chifre do qual vertem moedas de ouro. Isso se dá na passagem mitológica de Zeus que brincando com a cabra almatéia quebra o chifre dela e depois o “abençoa” fazendo dali verter tudo, todos os frutos os quais ela podia facilmente comer pois caim sobre sua cara. Depois evoluem a concepção da cornucópia para o dinheiro/ouro. A cornucópia está presente no simbolo da economia (o mundo, a roda dentada – simbolo do trabalho – e ela)

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