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24/06/2017

Peter Sloterdijk investiga as fontes da consciência da felicidade moderna


Em um de seus mais belos opúsculos recentes, Sloterdijk inicia assim: “Nossa excursão às fontes da consciência moderna de felicidade começará naquele século XIV …” Ele acredita que foi nessa época que surgiram os primeiros indícios do que é o ser-no-mundo humano, como isso se configura hoje em dia. Ou seja, ele segue em busca do homem do Renascimento.

O historiador Jacob Burckhardt foi um dos primeiros a falar com empenho do homem da cultura do Renascimento. Foi contemporâneo de Nietzsche, filósofo que nunca gostou de época nenhuma da história, exceto a do Renascimento. As visões de ambos consagraram o modo como boa parte dos bons scholars atuais no Ocidente tomam aquele período, ligando-o ou não ao nosso. Sloterdijk faz tudo diferente, senão melhor certamente de modo mais curioso e instigante. Ao falar da maneira que o homem do Renascimento pensa a felicidade, ele reconceitua a própria compreensão dessa época e sua articulação com a nossa vida atual. Sloterdijk põe na jogada um tema que conhecemos, principalmente por meio de Maquiavel, mas não o encaixamos perfeitamente na trama da vida contemporânea: a fortuna.

A ideia básica do filósofo começa por Boccacio. Nesse caso, de modo inusitado, o homem do humor não fala de humor, mas de desgraça. Traça uma narrativa da célebre peste que assolou seu tempo e, em especial, a cidade de Veneza. Do modo que Sloterdijk o a aborda, o autor do Decameron faz essa sua obra quase que cumprindo aquilo que o próprio filósofo entende ser uma descoberta do Renascimento, a prática de começar a incluir a história natural na história humana. A história da reação à peste é a história da busca de construção de novelas (pequenos contos) capazes de mostrar que, apesar de tudo, a vida é bela, que a alegria pode surgir em meio ao número de cadáveres que indicou que metade da população da Europa havia desaparecido em pouquíssimo tempo. Não se entendia o que havia ocorrido, se eram influências dos astros ou a ira de Deus. O que mais ou menos se sabia, ao menos para os autores de novelas, como Boccacio, é que esses pequenos contos eram a chance de um novo evangelho, uma nova e única forma de se acreditar em uma boa nova. A fórmula perfeita de endereçar esperança.

Em meio a esse evento da emergência da novela, veio então a noção de que as rotas de comércio fazem cruzar homens e micróbios de diversos lugares. Mais tarde, para se salvar disso, várias cidades instauraram a quarentena. Uma prática hoje vigente na Europa e nos Estados Unidos, às vezes sem grande sucesso. Quando pensamos nos muros diversos atuais (por leis ou por tijolos), contra correntes de migração e refugiados, vemos o quanto a quarentena não evoluiu para uma ideia melhor. Somos assim, frutos da busca de uma felicidade por carta literária. Nessas cartas, nessas novelas, surge a grande heroína do Renascimento, quase como santa ou fada: a Fortuna. Hoje ela está secularizada, mas não menos importante. Tornou-se a peça chave do que entendemos como a alavanca da verdadeira felicidade. A contingência e o inusitado trazem desgraças, mas só estes, também, sob o nome de sorte ou fortuna, trazem a riqueza que vale como riqueza. A novela conta isso. Desde aquela do herói Fortunatus, o homem aventureiro da bolsa que sempre repunha seu próprio conteúdo em dinheiro, até à literatura presente e ao que se chama novela de TV. A verdadeira riqueza é a que se ganha sem trabalho, mas pela sorte.

Essa ideia se entremeou com a peste. Colombo foi para o empreendimento do risco, da sorte e do azar, e trouxe a notícia de que havia o novo mundo. Mas os tempos eram tão difíceis, a peste tão assassina, que seu anúncio caiu no vazio, e ficou por conta de um aventureiro de mais estilo marqueteiro que ele, Américo Vespúcio, divulgar o novo mundo, um pouco mais tarde. Por contrabalanço do tempo, a peste fez o nome da América ser América. Lembro eu aqui: “Fazer a América” não é exatamente lançar-se na aventura? Não é se entregar ao que dizem as novelas curtas, de que a Fortuna é uma deusa que existe mesmo?

Convivemos hoje com a noção de que quanto mais controlamos tudo, menos sabemos do jogo de sorte e azar, de modo que não há como ter esperança se não acreditamos que a nossa verdadeira felicidade se deve a um ato da Fortuna. Essa mensagem do opúsculo de Sloterdijk, no brilhantismo de seu estilo e segundo sua sagacidade original, vale a pena de ser lido. A edição minha é bilingue, espanhol e alemão, e se chama Das Reich der Fortuna/El reino d la fortuna (Fundación Ortega Muñoz). Quem a trouxe da Europa para mim? Minha amiga Luma Miranda. Pois é, tenho sorte, tenho a amiga para trazer o livro e minha esposa para pagá-lo. É a fortuna.

Esse é um dos textos de Sloterdijk que mais exige do leitor sensibilidade e inteligência.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 25/09/2016

PS: em outros escritos, na trilogia das Esferas, Sloterdijk explora a ideia de Fortuna articulada com a felicidade de modo mais atual, mantendo o vínculo com o herói Fortunatus. Ele mostra as mobilidades sociais por meio de casamento e dinheiro, e também a própria ideia do capitalismo financeiro, o Grande Jogo, como comandante da economia mundial, o que põe a contingência no seu mais alto grau de comando na atualidade.

Gravura: Boccaccio a leitura do Decameron no reino de Joana de Naples, reino de Provença (quadro de 1849).

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3 Responses “Peter Sloterdijk investiga as fontes da consciência da felicidade moderna”

  1. Emisson
    30/09/2016 at 15:24

    Obrigado Paulo.Esperarei ansiosamente.

  2. Emisson
    29/09/2016 at 21:18

    Interessante.Sloterdijk traçou um parâmetro magnífico sobre a obtenção da felicidade mediante a fortuna.O mais incrível disto tudo é que ele traz o homem renascentista como exemplo de sua narrativa.A felicidade é um tema inerente à filosofia e de extrema complexidade.Minha pergunta é acerca desta complexidade.Existe um conceito estável e plausível do termo “felicidade”?, de modo que, seu conceito estabeleça uma iminência com seu empirismo?

    • 30/09/2016 at 00:54

      Emisson essa é uma questão que está no contexto da pergunta antiga sobre eudaimonia e no contexto moderno de felicidade psíquica. Estou escrevendo sobre estoicismo, por conta do meu trabalho na Paulo VI, logo que ficar pronto ponho por aqui. Acompanhe.

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