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27/03/2017

Sloterdijk e a fantástica ideia de naturalizar Platão


No interior de sua teoria das esferas, o filósofo alemão Peter Sloterdijk (pronuncia-se “Slotertaik”) passa pelo que batizou de “ginecologia negativa” e pela ideia robusta de naturalização de Platão.

Platão disse que o homem entra para o mundo terreno, sensível, depois de ter vivido eideticamente (em forma ou ideia), no mundo suprassensível. Uma parte da alma do homem, portanto, esteve em um mundo de eidos, que é, digamos assim, o mundo das perfeições que são matrizes de tudo que existe no mundo terreno, imperfeito, mutável. Assim, estando agora nesse mundo imperfeito, sensível, sabe da perfeição porque, pela filosofia (e pedagogia), pode tentar apelar para reminiscências do mundo perfeito. Podemos saber o que é Belo, e não só o que são coisas dotadas de beleza, porque estivemos, com parte de nossa psique, na presença do Belo. Quando vemos um jovem belo podemos acreditar que já vimos a face de um deus, lembramo-nos da características do Belo em si, com o qual já convivemos no mundo das perfeições.

A ideia maluca e altamente inteligente e rica de Peter Sloterdijk é que há quem possa querer naturalizar Platão. Desse modo, onde estaria o  mundo pré-mundo, que equivaleria, no campo da natureza, ao que Platão chamou de mundo das matrizes? A resposta: na câmara escura que faz parte da primeira esfera, aquela que se forma com dois polos, de um lado o que será o feto, de outro lado seus companheiros, os elementos placentários – que se constituirão no líquido amniótico, no cordão umbilical, e a própria placenta. Na pré-noite/dia do útero forja-se um tipo de campo eidético. Nesse campo, não razão para se achar que a psique se constitui só a partir de determinada data, quando há já informações para um cérebro, mas ela se forma de algo que mais tarde poderemos considerar como cinestesias, aquilo que ainda no útero se especializará em aparato de audição e tato. Assim, principalmente pelas vibrações, antes mesmo de constituído o ouvido, temos de admitir já um corpo sensitivo que vai avaliando o que é que seus companheiros de útero “dizem” e o que a vale a pena “ouvir”, e também o que é feito “lá fora”, não só lá fora da mãe, mas fora do útero e no interior da mãe – todas as vibrações sonoras do corpo da mãe em seu funcionamento. Eis aí nessa esfera de proto-alma o mundo das formas de Platão, o mundo das ideias, mas sem vislumbres metafísicos, ainda que filosóficos.

Investigar esse mundo é adentrar pela vulva da mãe. Não de modo sexual, mas de maneira ginecológica. Todavia, por meio de uma “ginecologia negativa”, pois não se pode chamar nada daquilo que se encontra adentrando esse campo, de objeto. Não há ainda sujeito ou objeto. Thomas Macho, um pensador, antropólogo e teórico das comunicações da Alemanha, é aquele que inspira Sloterdijk em falar sobre “não-objetos”. Nessa investigação então, conta-se com dados das ciências naturais, mas também da antropologia, teoria da cultura, teoria das comunicações, história das religiões e, desse modo, constrói-se uma vida da primeira esfera em uma narrativa filosófica. Eis o fruto da “ginecologia negativa”.

O que brota daí, dessa investigação da primeira esfera, é uma noção da subjetividade. A Grávidasubjetividade não é senão, num primeiro momento, essa esfera de dois polos que vai se desenvolvendo de modo que, ainda como não-objetos, tenhamos o feto e os seus companheiros placentários. Nisso, é o “ouvir” e não o “ver” que conta como formador desse tipo de mundo eidético. De modo que as primeiras distinções não são senão as sonoras. A primeira travessia do mundo das sereias se dá no mar amniótico, ali, por meio de vibrações, na distinção do que vale a pena “ouvir” porque são sons de “bem vindo”, e do que não vale a pena ouvir e o que não vale a pena dar crédito. Caso isso não ocorresse, quando os ouvidos viessem a se constituir, junto com cérebro, os sons viriam de uma vez sem hierarquias, tornando o mundo louco logo de início. Um mundo louco em profusão sonora insuportável. É nessa primeira esfera, então, que ainda como um proto-ouvir, que se pode se deixar ou não deleitar pelo que estimula afetivamente e o que não faz isso. É nesse mar que se desdobra o que, fora dele, em outro mar, em outra narrativa, se fez a aventura de Ulisses com as sereias.

Adorno e Horkheimer viram Ulisses atravessar o mar das sereias por meio de uma contenção dos desejos. Como ainda não havia a autodisciplina, Ulisses contou com a disciplina das cordas e ceras. Atravessou o local amarrado e ouvindo, mas tendo os argonautas livres para remar, sem ouvir o encantamento, dado que estavam com ceras nos ouvidos. Walter Benjamin, por sua vez, seguindo Kafka, sugeriu que tal passagem de Ulisses teria sido uma forma já de desmitologização, de desencantamento do Odisseu. Kafka é quem diz que Ulisses, tão preocupado com cordas e cera, já não tinha mais nenhuma preocupação com as potências míticas realmente, e por isso as sereias não cantaram para ele, e ele apenas gritou como se as ouvisse, num jogo de cena – o que confirmaria as sereias e, ao mesmo tempo, ao menos para ele, já as colocaria para escanteio.

Ora, Sloterdijk vê esse episódio como aquele em que o canto das sereias tem a ver apenas com a lembrança do mundo ideal platônico naturalizado. A vivência da primeira esfera é o que conta. Ouvir sereias e achar belo, encantador, é ouvir sons que tem a ver com essa situação pré-natal, sons de descanso, de bem vindo, portanto, sons de despertar do desejo. O desejo se forma com esses sons. Então o ego se forma ao ouvir esses sons e aos distingui-los. Sabemos bem o quanto de fato, após o nascimento, o bebê já sabe o que é o som da mãe e o que é o som de outros. E passarinhos que não são chocadas ouvindo o som da mãe têm dificuldade em cantarolar. Tudo depende de como se conseguiu passar pelo mar das sereias.

Chegar à Itaca, nesse sentido, é chegar à porta da vulva, para aportar já na esfera modificada, em que o elemento placentário foi embora e alguma daimon, gênio ou anjo da guarda o substitui na companhia do pós-feto. É esse rebento que retoma agora a audição sem o a voz das sereias, mas com um terceiro elemento nessa nova esfera, a voz da mãe e seu aconchego, sendo o segundo elemento o do gênio ou daimonion ou anjo da guarda.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. A filosofia como crítica a cultura (Cortez, 2014)

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6 Responses “Sloterdijk e a fantástica ideia de naturalizar Platão”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    21/05/2014 at 11:29

    Paulo
    Nessas maravilhosas metáforas e metonímias obstétricas não poderia deixar de citar Sócrates, filho de parteira, que ao iluminar a obscuridade das mentes, foi talvez o primeiro a caracterizar a SUBJETIVIDADE.
    Parabéns, excelente texto.
    Valmi Pessanha.

  2. Wagner
    15/05/2014 at 23:46

    Acredito que o mundo das ideias foi e é uma tarefa deixada ao pensamento por Platão. O pensamento não deve estagnar-se com as aparências e deve sempre estar em movimento, em busca “de”. O mundo das ideias é um estímulo à movimentação, ao desenvolvimento do intelecto humano.Mais que isso, herdamos de Platão uma maneira de pensar que, para o bem ou para o mal, domina o ocidente. De um lado o rigor, a investigação, os métodos; de outro o abandono do mundo, o horror ao que julgamos imperfeição, o desdém. O esclarecimento cessa o poder de determinado mito e cria outros. O que cremos saber hoje é a mitologia a ser superada num futuro próximo ou distante. E se há algo de verdade, se é que pode haver, ela simplesmente guarda o que nossa linguagem e capacidade permitem saber sobre ela. A verdade é o esgotamento de nossas possibilidades de linguagem. A verdade é o fim da “viagem” pois não há mais movimento. A Odisseia é o movimento de um tempo, e o que houve de movimentação de lá para cá deve-se, em muito, à natureza desbravadora do pensamento, sacada e proposta em exercício filosófico por Platão. Os mitos e os deuses de hoje são os que possuem poder suficiente para neutralizar a movimentação em nosso tempo. Se não os desafiamos, se não somos Ulisses, é porque os aceitamos como verdade, e esta verdade nos paralisa. Já houve tempo em que nada caminhou. Será que estamos em movimento?

  3. Gustavo
    11/05/2014 at 11:31

    Caro Paulo,

    deixe ver se entendi: no modelo de naturalização de Platão pensado por Sloterdijk, o contato da alma com o mundo das Ideias ocorrido antes de nossa vinda à realidade sensível pode ser interpretado como a transmissão de uma herança genética, passada pelo contato direto com a mãe pelo cordão umbilical. Assim sendo, recebemos por meio desse contato os nutrientes eidéticos que irão compor o referencial para a formação da psique – o cérebro, como você comenta em seu texto. O nascimento poderia então ser pensado como um evento traumático de interrupção desse contato, como se o ato de o médico ou a parteira cortar esse elo direto com o mundo das matrizes (e com a própria matriz) trouxesse o recado: “olha, a partir de agora é com você e o seu daimon no mundo. O contato direto com o que era perfeito se perdeu para sempre, e agora você está condenado a passar o resto de sua vida mergulhado em meio à confusão e imperfeição dos sentidos, buscando ascender novamente à segurança fetal”. Embora traumático, esse afastamento é gradativo, afinal, logo após o parto o bebê é entregue aos braços da mãe, onde encontra conforto, sentindo o seu som, o seu calor e o seu cheiro. Tenta reestabelecer a conexão pela amamentação, mas ele e a mãe já não são mais um, a unidade inicial dá lugar a uma dualidade que se caracteriza pelo lento afastamento que ocorre dia após dia.
    Muito bem, a partir dessa interessante perspectiva de se compreender a reminiscência seria possível pensar na transmigração da alma como sendo a reprodução? Ora, se o que é passado de geração para geração é essa herança eidético-genética, então a transferência da matriz de referenciais perfeitos e imutáveis que formaliza a psique (e que é obrigatoriamente anterior a ela) é a transmissão daquilo que mais intimamente pertence a nós, o que nos perpetua.

    Enfim, de todo modo essa minha tentativa de diálogo é uma forma de arrancar de você mais elementos para pensar melhor todas essas coisas.

    Inté.

    • 11/05/2014 at 12:10

      Não, nada disso, nada de herança, você não leu com cuidado.

    • Gustavo
      11/05/2014 at 12:34

      Hum… certo. Vou ler mais vezes.
      Valeu.
      Inté.

    • 11/05/2014 at 15:09

      Gustavo, veja que você desprezou completamente a entrada na vagina.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo