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27/03/2017

Peter Sloterdijk e a filosofia da boa caverna


Uma das mais famosas alegorias da história da filosofia é a da Caverna de Platão. Criada para ser usada como artifício didático para não filósofos, essa história visava proporcionar uma espécie de imitação do vivido pelo filósofo quando de sua fuga do mundo da cópia em direção à contemplação do real.

Ouvindo a alegoria, os não filósofos poderiam imaginar mais ou menos o que seria uma tal situação para o filósofo.  A metáfora do encontro com a luz e saída da escuridão da caverna fez a sua história. Povo e filósofos jamais deixaram tais metáforas visuais de lado.  A filosofia cristã aproveitou ao máximo de tal figura. E o cogito de Descartes, na abertura da modernidade, nada quis mostrar senão algo “claro e distinto”.

Ao lado dessa linha filósofo-pedagógica hegemônica, uma tendência menos notada se fez presente, aquela dos pensadores que jamais desprezaram o interior da caverna, o mundo da escuridão, mas não como algo negativo e, sim, como o campo antes do ouvido e do sinestésico como elementos de construção do porvir. Nesse ramo, desenvolveu-se uma história da filosofia que ainda espera pelos seus biógrafos, historiadores e arqueólogos.

Ali mesmo ao lado de Platão, Sócrates lia pouco e não escrevia. Preferia ouvir. Mesmo em se tratando de livros, não raro pedia para que lessem para ele. Ouvia tanto que até ouvia vozes! A voz do daimon! A voz dos sonhos! Além disso, Sócrates se dizia mestre na arte erótica, a arte de conversar e amar, ou seja, uma espécie de namoro. Desse modo, colocava-se como respeitoso a Eros. Não em seu tempo, mas quando do início de nossa Era, sob a vida romana, surgiu o mito de Eros e Psique, criado por Apuleio. Ora, nesse mito Eros é uma criatura da noite, que vem para fazer amor sem que sua amada possa ver seu rosto. Essa figura tão importante para filósofos da luz como Platão, foi tomado por outros como uma figura da escuridão. O amor aparece à noite. Mais tarde, quando o amor deixou de ser um demiurgo e se tornou apenas um sentimento, ele conservou tal característica: “passar à noite”, “ir para a cama”, “ter a primeira noite”, “viver a noite de núpcias” – eis aí uma série de expressões que testemunham a vida no escuro de Eros.

Nessa linha da negritude erótica, também Marx, mesmo para falar de situações de mudança e de luz, preferiu uma metáfora atinente ao escuro. Chamou a Revolução de “velha toupeira”. Ela estaria cavando por debaixo da terra, movendo situações não perceptíveis, para repentinamente romper e vir à superfície, criando então os fenômenos de fogos da convulsão social a partir da preparação no escuro. Poucas décadas depois, Nietzsche mostrou que Zaratustra, que viria anunciar o “Além do Homem”, não adquiriu sabedoria fora da caverna, mas no seu interior, e só então saiu dela e desceu a montanha. Mas chegou cedo demais! Zaratustra deveria ter ficado mais tempo no escuro, em sua caverna. Nietzsche se precipitou em abrir os olhos.

Outros filósofos flertaram como o escuro! Contemporaneamente é Peter Sloterdijk aquele que aceita o desafio de se desviar das metáforas visuais e, na mesma linha, adotar um bem-querer em relação ao escuro. Em um excurso de Sphären I, Sloterdijk invoca o escuro por meio do mito de nascimento de um mestre, Lao Tse.

A estrutura do mito é relativamente semelhante a dos ocidentais. Se o mito de Narciso parece ser uma ingênua história para revelar porque a flor Narciso nasce na beira dos rios e tem o nome que tem, o mito de nascimento Lao Tsé parece apenas contar porque este mestre do Tao (literalmente: caminho) se chama Lao Tsé, ou seja, a “criança anciã”. Todavia, por entre os elos não racionais e exclusivamente mágicos e cosmogônicos a lenda dá uma trama e um curso que dizem bem mais que isso. É o que segue.

Havia uma mulher que pertencia ao clã das Puras. O Sr. Ancião não tinha um nome. Poder-se-ia dizer que era uma encarnação. Pois ele vem do útero de uma mulher casta. Sem qualquer marido, a mulher ficou grávida por conta de uma gota de Kanlu, o “orvalho doce” (equivalente ao que é a nossa “ambrosia”, no mito grego). Assim a barriga da mulher foi crescendo, mas ela permanecia grávida só durante o dia, uma vez que à noite o Sr. Ancião deixava corpo da mãe para ir estudar o Tao. Esse Sr. Ancião não era alguém! Tendo tomado a forma de um embrião na barriga de sua mãe, desejou retardar seu nascimento até o dia em que não houvesse nascimento ou morte no mundo. Assim, ele esperou por oitenta anos, para então aparecer. Ora, o Deus das Profundezas e o Deus do Céu tiveram uma conversa um com o outro. Disseram que o que estava ali no útero era a Constelação do Destino, e que não poderiam não deixá-la nascer. Escolheram o dia em que já não mais seria permitido nascimento ou morte. Nesse dia, nasceu o Sr. Ancião, saindo da axila de sua mãe. Tinha já os cabelos e barbas brancas. Como sabia andar, partiu imediatamente. Sua mãe o chamou, gritando, ei “Criança Anciã”, “você nem me deixou ver seu rosto, de modo que mais tarde, se encontra-lo, não o reconhecerei”. Virou-se então para a mãe, com cabelos e barbas esvoaçantes. Vendo-o ela desmaiou de susto e morreu ali mesmo. Ele continuou andando em linha reta sem parar até que chegou a um pomar de ameixas. Inclinou-se então em uma ameixeira e disse para si mesmo: “não sei nem meu nome e nem o nome da minha família. Estou encostado na ameixeira (Li), por que então não colocar Li como nome da minha família? E minha mãe me chamou de Criança Anciã! Assim, o meu nome será Lao Tsé. Senhor Ancião é um título de respeito. Assim, de fato, o nome dele é A ‘Criança Anciã’”

Leio tal mito da seguinte maneira. Diferente de ocidentais importantes, que são profetizados e, portanto, já possuem lugar e nome antes de nascer, e também diferente do homem moderno (e liberal) que também já é alguém – o indivíduo – na barriga da mãe, Lao Tsé nada é e só se torna alguém por conta de sua própria nomeação. Nomeação que fala em tempo e lugar, ou seja, coisas do mundo. O fato de ter ficado muito tempo no útero não poderia causar espanto. Na China há lugares em que à idade é acrescentado sempre o período de gestação. E ter vindo de uma concepção que é dada pelo “orvalho doce”, ou seja, por algo que é relativamente noturno, o caracteriza bem como quem se movimenta com esmero no escuro. Sai para aprender não como quem sai da caverna para a Luz, mas como quem sai do escuro para escuro, à noite, para pegar o caminho, a harmonia, o Tao do mundo. O Tao é uma doutrina exclusivamente prática, que efetivamente implica em deixar que o mundo seja o mundo. Eis aí uma situação harmônica. Sendo a Constelação do Destino, o herói é realmente o desenho da posição das coisas no seu acabamento – como o desenho de uma constelação. Nesta, sabemos, há uma espontânea harmonia, o seu Tao, que demonstra o caminho, o seu modo de ser como que arranja cada estrela em seu lugar sem causar contrariedade no cosmos. Trata-se de um acabamento. Por isso, as carências não fazem sentido, valeriam somente para quem não soubesse viver, para os que não tivessem “pegado o caminho” e chegado ao destino. Não à toa as lutas associadas ao Tao não são lutas de confronto energético (como o boxe, por exemplo), mas de uso da energia e da força do oponente contra ele mesmo, deixando que os fluxos sigam curso, sem criar barreiras.

Por sua vez, Sloterdijk enfatiza a saída noturna de Lao Tsé da barriga da mãe, e sua correspondente volta. Caso a mãe fosse outro corpo, ele sairia e não poderia voltar, ou seja, teria efetivamente abortado ou nascido. Mas sua capacidade de ir e vir mostra que ele era a sua própria mãe, como que delineando o campo que é interno e externo ao mesmo tempo, o espaço que, numa respingar surrealista, faz duas coisas poderem ocupar o mesmo lugar. É o caso da esfera placentária, que abarca do bebê e ao mesmo tempo é ligada ao cordão umbilical à placenta que, em certo sentido, é o próprio bebê. A ida do interior para o fora e a volta para dentro dão, sempre no ambiente escuro, uma narrativa dupla, a de fora e de dentro concomitantemente. Trata-se exatamente o que Sloterdijk procura para, na sua análise da esfera íntima, no caso do útero, entender como que se é necessário ter tanto uma narrativa da porta da vulva quanto de seu interior. Narrativas das mitologias, religião, antropologia, ciência etc., são externas, e são feitas em conjunto com as narrativas da “ginecologia negativa”, com a qual Sloterdijk adentra filosoficamente a vulva, aportando no ambiente de suspenção dos não-objetos (os elementos do útero que se fossem objetos seriam no máximo sombras de objetos, segundo Thomas Macho).

Esse ambiente de escuridão, líquido, é profundamente sinestésico e sonoro. Envolve. Revolve. Lao Tsé nunca sai efetivamente do útero. Imagine Lao Tsé no útero de uma mãe em coma, sendo mantida viva por aparelhos sutis. Imagine então um marciano, mais ou menos parecido conosco (com a diferença de que em Marte as crianças nasceriam de grandes estufas produzidas por elas mesmas) chegando à Terra e vendo aquela cena. Ele diria: isto é uma unidade, e o que rege tal unidade é o embrião. Não se estaria aí nem um pouco preocupado com a grande amontoado de carne em volta do bebê, com aquela aparência externa de mulher terráquea. Tal carne seria descartada após o nascimento, ainda que, durante todo o tempo da gestação, fosse a companhia ampliadora do bebê. O mundo sonoro do embrião seria o mundo sonoro após o nascimento, caso o nascimento fosse noturno.

Sloterdijk entende que esse mundo sonoro e escuro é a chave para o que é nossa subjetividade. É um mundo que se estabelece por relações entre não-objetos em suspenção, e por isso nascemos com o “instinto de relação”, para usar a expressão que Martin Buber usou para falar da capacidade da criança e, enfim, nossa. Não teríamos o “instinto de relação” se tivéssemos vindo do escuro para o claro sem a experiência vibrátil, de ressonância, do escuro sonoro e sinestésico. Nossa subjetividade seria uma tomadora de distância desde o início. Seríamos sempre visuais, segundo ontogênese e filogênese. Já de início não conheceríamos outra relação senão a de sermos iluministas-positivista por natureza. Não teríamos como conceber outra maneira de ser. Nossa maior conquista seria o de nos transformarmos em animal de rebanho, como Nietzsche disse que éramos, ou animais intersubjetivos potencialmente capazes de comunicação com pouco ruído, como Habermas nos descreveu.

Mas não somos isso. Somos aqueles duplos, somos no mínimo, sempre, o “dois em um”. Não aprendemos a nos relacionar, pois desde sempre estamos em relacionamento. E nosso relacionamento não é aquele entre duas substâncias ou indivíduos, mas o de elementos moles em uma sopa suculenta, vibrátil, sonora e aconchegada na escuridão. Notando isso, todo o entendimento de nossas práticas deve mudar. Nossas raízes em cavernas nos faz eternamente um povo dotado das virtudes da escuridão.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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One Response “Peter Sloterdijk e a filosofia da boa caverna”

  1. Alexandre
    09/03/2015 at 22:12

    Que tema interessante!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo