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28/04/2017

Síndrome de carrossel – isso é doença?


Existe uma brincadeira que crianças e cachorros, inclusive juntos, adoram. Chama-se Siga o Chefe. É uma brincadeira que implica em seguir e, no entanto, não é monótona e nem imbecilizante. O chefe precisa estar sempre mudando e se arriscando, para que seus seguidores possam manter a curiosidade na aventura e na ampliação de desafios diferentes. Um chefe que traça o mesmo itinerário não agrada e, no dia seguinte, é destituído. Isso acontece entre crianças, entre cães e entre crianças e cães juntos.

Existe outra brincadeira que é o carrossel. Nesse caso todos são chefes. Basta estar na frente, e se é chefe. Não há novidade, curiosidade ou desafio. Os cavalinhos estão na sequência circular da mesmice. O raio do círculo é fixo, os altos e baixos são fixos, a música e sempre a mesma e embora seja tudo muito colorido no parque, o carrossel iluminado sempre pisca igual. É o mundo do movimento que não se movimenta. Não é propriamente uma brincadeira, é uma doença. A doença que Adorno chamou de “apatia burguesa”.

O primeiro entretenimento mostra exatamente um comportamento cognitivo de mamíferos ou de aves que denotam inteligência. Busca tornar o praticante cada vez mais sagaz. O segundo parece ser um entretenimento, mas é treinamento – no pior sentido dessa palavra. Busca entorpecer o praticante que, afinal, nada pratica.

No antigo carrossel havia várias velocidades e os altos e baixos visavam dar um frio napateta barriga das raparigas mais jovens, virgens, que com seus vestidos imitando a futura normalista que iriam ser um dia, exibiam aquele ar gracioso que se dizia que havia em toda mulher não penetrada.  Mas as mulheres deixaram de fazer esse papel de eternas pré-adolescentes cheias de risinhos. O carrossel então passou a servir a criancinhas bem pequenas, aquelas cujos pais são tão babacas que não as deixam entre os cachorros.

Então, o carrossel passou a se metáfora. E síndrome. Como eu o utilizo, ele é nome para o comportamento do militante de direita e, infelizmente, até para o da esquerda. Afinal, até a esquerda que sempre prometeu ser criativa, não cumpriu essa promessa – como ficou claro no século XX. A síndrome do carrossel é uma desgraça. Por quê?

Simples resposta: quando vemos alguém no carrossel, o que temos diante de nós já não écarrossel-e1329300375970 um sintoma, mas uma condição natural irremediável. Já ocorreu o estrago cerebral. Trata-se ali de uma pessoa que, por vários fatores na infância, ficou deficiente cognitivamente. Ela quer seguir o chefe, mas basta que o chefe seja o próprio carrossel, uma máquina poderosa sem rosto que faz com que ela imagine que o verdadeiro líder é o ânus do cavalinho da frente – ela acha que existe um líder. Não existe. Só existe a máquina. A máquina, ou seja, a engrenagem tosca do carrossel põe o deficiente cognitivo para girar na mesma velocidade, e todo dia é a mesma coisa. O frequentador dos cavalinhos tem sempre as mesmas imagens e pensa tudo igual sempre. Está entorpecido, mas às vezes o carrossel por até girar mais depressa, e então ele acredita que seu líder, o ânus do  cavalinho da frente, está pronto para a “tomada do poder”. Ele acha que haverá uma “intervenção militar anal”, digamos assim.

Vá às redes sociais da internet e veja como que há pessoas que, independentemente do que ocorre, sempre fornecem as mesmas respostas, a mesma proteção de determinadas posições, a mesma idolatria pelos mesmos ânus – e nunca por qualquer coisa que tenhas expressões que não seja o de abrir e fechar. Aliás, é estranha essa idolatria pelo ânus, ou seja, pelo não-rosto.

Um fascista-líder pode ser mudado, pois sua máscara pode ser posta em outro ou na própria máquina. A sociedade administrada moderna proporcionou isso. Ela mantém as coisas a despeito dos indivíduos. Cogitou-se de usar sósias de Hitler como de fato se usou de Bin Laden e Sadam Hussein. Líderes soviéticos desapareciam, já estavam mortos, e no entanto de vez em quando vinha lá das catacumbas uma ordem deles. Mas do lado democrático também se pensou o mesmo. Vários presidentes americanos foram apenas rostos trocáveis. Se o rosto de alguém já é máscara, tanto faz então que se coloque mais uma máscara por cima. Pois o fascista seguidor não vai notar nada, ele já se acostumou ao rosto sem expressão, padrão, que é o ânus do cavalinho da frente. Tudo que ele precisava para ser assim fazer ele ganhou na mais tenra idade, irreversivelmente.

A síndrome de carrossel está articulada a uma rosticidade especial. Falarei disso em outra ocasião.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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3 Responses “Síndrome de carrossel – isso é doença?”

  1. 14/12/2014 at 21:44

    Gostei muito do seu artigo. SET POINT!!!!!!

  2. Henrique
    14/12/2014 at 16:27

    Essas pessoas que aparecem em vídeos as vezes desesperadas pedindo um golpe miitar elas estariam naquilo que Freud chamava de fase anal?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo