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22/09/2017

“Vai ter shortinho sim!”


VOCÊ SABIA que as moças nos anos cinquenta enrolavam as saias da escola na cintura, para mostrar os joelhos? Você sabia que nos anos setenta o estado de São Paulo passou a permitir a saia escolar “dois dedos acima do joelho”? Você tomou conhecimento do fato de que na década de setenta as meninas puderam pela primeira vez usar como uniforme a calça comprida? Você não consegue, agora, entender que as meninas querem ir de shortinho na escola, e que isso pode ser um uniforme elegante e respeitoso ao local?

As meninas já usam shortinho. Há mulheres maduras de shortinho, inclusive como roupa noturna. E este uso, na escola, pode se regrado. Pode ter medidas e não ser cafona, nem ser algo que indique vulgaridade ou faça da escola palco de TV de show da Anita. Não é possível um uniforme de escola em que o shortinho seja uma variável? Quebra o ritual escolar? Será? Mas a calça comprida, a saia curta, a blusa que ganhou um decote maior – tudo isso não veio a ser parte de algum uniforme em alguma época, no Brasil?

Quer conhecer um pouco de história?

Você sabia que até usar a esferográfica, e não a caneta tinteiro na escola, chegou a ser proibido? Eu peguei essa fase, nos anos sessenta na escola. Não chegou até você essa notícia?

E sobre a história-em-quadrinhos? Ninguém lhe contou que ler “gibi” chegou a ser um pecado, que todos os educadores diziam que isso deixaria as gerações futuras analfabetas? Foi nos anos trinta isso! Meus professores dos anos sessenta haviam lido “gibi”, e eles não eram nada analfabetos.

Você não tomou pé sobre o que a Martha Suplicy disse na TV, no “Roda Viva”, contra a Xuxa, nos anos oitenta? Ela disse que a Xuxa estava “sexualizando precocemente” as crianças brasileiras. Iríamos em trinta anos ter uma geração sexualmente maluca. Ela pediu que as escolas tomassem providências contra a Xuxa! A geração que temos hoje assumindo o controle da sociedade, toda ela, viu Xuxa, e ficaram todos aí sexualizados precocemente? Que sorte que a escola não levou a Martha a sério, né?

Atualmente há gente dizendo que as crianças que não escrevem com letra cursiva, à mão, só usam o computador, estão ficando menos inteligentes. Ora, não passa pela cabeça desses especialistas que estão dizendo isso que nosso conceito de inteligência é histórico, e que já mudou várias vezes nos últimos cem anos? Entramos no século XX falando de inteligência como a arte de saber e guardar dados, depois a inteligência passou a ser a arte de resolver problemas e, agora, é a arte de propor problemas e hipóteses e saber redescrever. Há quem diga que essa noção já vai mudar, que a arte de resolver rapidamente situações inusitadas deve integrar o conceito de inteligência.

Você sabia que toda a minha geração jamais pensou em ver uma xoxota depilada? Que a depilação completa da xoxota, era algo impensável, sabia? Não era de bom gosto em lugar algum!

Você não sabe que tudo que nos parece natural é ou pode ser histórico? Não pode avaliar como mudar? Tem medo de mudanças sem ao menos refletir sobre elas? Você é assim?

Não pode permitir que a mulher árabe ande de véu, mas sabe muito bem que o véu religioso, para tomar a hóstia na Igreja Católica, era usado e ainda é usado, não? Não pode ser algo a ser preservado e, ao mesmo tempo, tornado livre para quem quer usar? Esteticamente, a mulher de meia idade tomando a hóstia, com o véu, não é algo fantástico? Mas sem o véu, tomando a hóstia, com cabelos soltos, capaz de deixar o padre jovem hétero sem qualquer ligação com Cristo, também não é uma cena linda?

“Vai ter shortinho sim”, dizem as meninas do Rio Grande do Sul. Elas podem dizer isso. Mas se disserem que o “não” é por “machismo”, estarão só parcialmente certas. E quem disser que o shortinho não sexualiza, estará errado. Shortinho torna a garota mais sensual, mas a calça comprida, quando apareceu, também. A menina acima de 14 anos quer ficar mais sensual e não só para o coleguinha, mas também para o professor. É normal isso numa sociedade saudável, pois a adolescência é a adolescência, não é a infância. Quando um adulto hoje diz “mas no meu tempo …”, em geral ele está mentindo. Na pré-adolescência e na adolescência queremos provocar. E isso é bom. Deve ocorrer. Foi tentando regrar essa provocação que se colocou o voto aos 16 anos. Muita gente que acha que uma menina não pode usar shortinho na escola, quer que o menino de 16 anos – que nunca é o filho dele -vá para a cadeia do mesmo modo que o adulto, e não para uma casa de correção, por conta de um delito. Ora, precisamos admitir que a adolescência, em nossa sociedade, existe. Que merece um tratamento especial. Insisto: que não se deseje em nossa sociedade tornar adolescentes só os universitários, pois é isso que está tornando tal grupo, já adulto, infantilóide e ridículo. Pré-adolescentes são pré-adolescentes, adolescentes são adolescentes. E se notarmos tais grupos na sociedade ocidental, vamos ver o quanto o thymos os pega, o órgão da ira e do orgulho, o órgão da identidade. Ora, mas deixamos o thymos com a alma grega antiga, nós não o temos na nossa psicologia, talvez por isso não saibamos lidar com o pré-adolescente e com o adolescente. O grego antigo sabia.

Só uma sociedade pouco sábia deseja tornar a mulher alguma coisa que ela, mulher, não quer: forçá-la tirar a burca quando ela quer usar a burca ou querer proibir o shortinho quando ela mostra que não há nada de ruim em usá-lo, inclusive na escola, às vezes soa coisa de quem não tem o que fazer. Talvez seja mesmo. Talvez seja coisa de gente estúpida que não tem o que fazer!

Uma sociedade saudável deve entender que não há estupradores em cada esquina querendo sexo com meninas de shortinho. Pois estupradores não querem sexo, querem apenas poder, e podem achar que submeter mulheres de burca seja algo que lhes dá mais poder. Submeter a mulher por meio da afronta sexual, que é o que o estuprador quer, é algo que independe de estar sem roupa ou com roupa. O estuprador acha o sexo da mulher sob a armadura, e ele não quer realmente a xoxota da mulher, ele quer submete-la, ele não está excitado com a mulher de pouca roupa. Um pouco excitados com a mulher de pouca roupa ficamos nós, os não-estupradores, os que se tratam por “normais”. E todos nós aprendemos a nos comportar com esse dado social. (Não entro num festa noturna fazendo como José Serra! Não quero levar vinho na cara!). Não me lembro dos estupros terem aumentado quando as meninas da escola puseram calças compridas colantes ao corpo. Nenhuma estatística mostra isso.

Uma sociedade que só pensa a mulher quando pensa estupro e vice-versa, não é uma boa sociedade. É uma sociedade burra, com falta de geografia e história, além de falta de shortinho, nas escolas.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

VÍDEO SOBRE O SHORTINHO

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9 Responses ““Vai ter shortinho sim!””

  1. LMC
    29/02/2016 at 11:08

    Kátia Abreu jogar vinho na cara no
    Serra,não dá,né?Ela é o Ronaldo
    Caiado de saias.Só os jornalistas
    vendidos como Nassif acharam
    graça nisso.kkkkkk

  2. jokas
    28/02/2016 at 10:41

    Viva o shortinho! Eu quando fazia o ensino médio ia de short para escola pq fazia muito calor. Não havia problemas. Tem escolas que são muito normativas, algumas até autoritárias. Agora já há escolas que obrigam alunos a vestirem farda de soldados. Acho isso uma aberração.

  3. Orquideia
    28/02/2016 at 05:41

    Prof.Ghi, o preconceito contra a leitura dos gibis ainda existia nos anos setenta.[minha época de garota]
    Mas eu os tinha “às pencas” em casa. [haha!…]

  4. Pr. Bosco
    27/02/2016 at 21:40

    Elas não precisam se preocupar em apressar sua prostituição na escola: na faculdade vão poder ir até mostrando o rabo que não vai dar em nada. As universidades são o sonho de consumo dessa geração pervertida por novelinhas globais e pseudofilósofos de facebook, como esse Paulo Ghiraldelli. Há lixo por toda parte.

    • 28/02/2016 at 15:06

      Padre? Você é padre e se preocupa em vir me ofender? Estranho comportamento de um padre.

    • Maximiliano Paim
      28/02/2016 at 16:12

      Atualizado o senhor, pastor. Parece que tem autoridade no assunto juventude, mesmo pra quem nasceu de onze meses.

    • Fábio Fleck
      29/02/2016 at 14:41

      Mentir que é padre na internet é pecado. HAHAHA

  5. Jordan Bruno
    27/02/2016 at 20:57

    “Talvez seja coisa de quem não tem o que fazer ou não saiba”

    é bem por aí mesmo professor … engraçado que ontem no canal FX tava passando o filme Donnie Darko (de 2001, e que se passa em 1988). Uma professora revoltada na reunião de pais e mestres (o PTA deles…) por causa de um livro do Grahan Greene que os alunos estão lendo … a professora de ingles pergunta pra ela se ela ao menos sabe quem é o autor – ela responde: “claro que eu sei! eu assisto Bonanza!” … ela acha que greene é um ator …

    também fico puto pelo fato de que são os adultos querendo regular a vida desses jovens … dei uma olhada nos comentários da reportagem no G1, cada coisa que os adultos dizem … o mais comum é “os meninos vão ficar excitados!” … hauhuahua … ora, estes adultos já estão excitados …

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