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23/04/2017

A mudança sexual ainda é revolucionária


Para o meu amigo, falecido recentemente, Vitor Ângelo, escritor do Blogay.

Os antigos se sentiam livres à medida que podiam seguir a autoridade do seu ethos. Os modernos se sentem livres se podem exercer sua vontade subjetiva. A liberdade antiga era, portanto, uma liberdade de sociedades guerreiras: ampliar a liberdade ou protege-la dependia de estar em constante jogo de forças guerreiras com civilizações vizinhas. A sociedade moderna, por mais que tenha guerras, as considera não o estrutural, mas o conjuntural. A sociedade moderna busca a paz. A expansão ou a proteção da liberdade, sendo esta um bem individual e subjetivo, remete a atos de obediência ou rebeldia de pessoas, não de nações.

Nossa sociedade moderna ocidental vê a luta por liberdade como uma luta por diversidade em todos os sentidos. Como nossa sociedade ocidental tem o sexo, por conta de Agostinho, ligado ao pecado, é a opção sexual e amorosa o núcleo das lutas por diversidade como lutas por libertação. Há uma força de bastardia no ar. Ser diferente é, não raro, poder ser um indivíduo diferente, e nada mais diferente, para nós, que nosso projeto amoroso. É nesse sentido que mais que a opção política, a orientação sexual passou a contar como elemento fundamental da diversidade e, portanto, da liberdade. Ser moderno é poder escolher por amor e escolher o amor, e conseguir apontar de que forma quer o amor. No roteiro disso, todo um conjunto de outras escolhas – da comida ao vestuário passando pela opção profissional – se destaca como também o que conta na busca de diversidade e, portanto, de liberdade.

Nos anos cinquenta nos Estados Unidos essa percepção ficou clara. No tempo do marcartismo se prendeu muito mais gays do que comunista. E até hoje, mesmo sem a existência do comunismo, os mais reacionários ainda ligam a atividade e o comportamento sexual liberal a algum sentido do marxismo ou do comunismo. As cabeças mais reacionárias identificam no marxismo a doutrina de mudanças que ouviram falar e, então, logo temem a mudança que mais os horroriza, que é a alteração comportamental a respeito de amor e sexo. Tudo vai bem para os conservadores se o comportamento sexual é posto numa gaiola de ferro. O que mais os conservadores gostavam de ouvir, e que ao mesmo tempo os deixava atarantados, eram notícias da URSS mostrando que lá havia conservadorismo moral. Hoje, livres da URSS, esses conservadores podem voltar a fazer ligações, às vezes esdrúxulas, entre comportamento sexual diversificado e posição política à esquerda.

Mas, a verdade é que ser gay, transsexual, bissexual, polisexual, transgênero, cross-dressing, travesti, lésbica ou seja lá o que for que gere nova identidade, ainda é ser revolucionário. Não à toa é nesse setor que mais há gente martirizada, violentada, perseguida e assassinada por pessoas e grupos que temem o diferente. Inclusive, temem forças internas que os estejam chamando de covardes, por eles mesmos não poderem ser diferentes, como no fundo desejariam.

Passado tantos anos após a Revolução Sexual dos anos 60, vivemos hoje uma época, no mundo todo, em que as novas identidades a respeito de sexo e amor ainda são a ponta de lança da liberdade moderna, o campo de atuação da continuidade da revolução moderna incompleta. Quem diria, não?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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5 Responses “A mudança sexual ainda é revolucionária”

  1. Rodrigo
    23/02/2016 at 21:22

    Paulo, o que vem a ser o status quaestionis?

    Abraço.

    • 24/02/2016 at 12:09

      Rodrigo, as enciclopédias boas da net estão cheias de definições disso.

  2. Maximiliano Paim
    22/02/2016 at 06:37

    Professor, meus sentimentos. Que lástima.

    • 22/02/2016 at 09:33

      Já faz um tempo, Paim

    • Maximiliano Paim
      22/02/2016 at 10:43

      Pois é. Eu sei. Mas não me lembro de ter transmitido a ti os meus sentimentos.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo