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28/06/2017

O órgão sexual sumiu, e não foi o gato que comeu! (*)


Uma pessoa nasce com uma orelha torta e quer mudar. Outra pessoa nasce com dentes tortos e põe aparelho. Há botas para corrigir pés tortos desde que o homem inventou o calçado.

Bem, mas então uma pessoa nasce com um pipi que não tem nada a ver com ela, mas não pode arrancar! Caso deseje isso, é anormal. Caso realize o feito, vira monstro. Por quê?

Muitas vezes essa opinião surge porque o crítico não conseguiu ainda olhar para si mesmo e perceber que sua identidade (que passa pela identidade sexual além de outras) é alguma coisa que ele como todos nós, construiu a partir de determinado momento (filogeneticamente e ontogeneticamente). Nossa identidade inclui nosso corpo, porque com ele vivemos e só com ele estamos nesse mundo e somos o que somos. Então, construímos nossa identidade também construindo e reconstruindo nosso corpo.

Se não me suporto com cabelos da cor natural (qual cor “natural”, a de hoje ou a de amanhã?) e os faço vermelhos ou azuis, estou definindo meu “visual” e minha identidade. Quero ser visto e quero me ver com tais cabelos. O cabelo ajuda no desenho que quero ter. E isso vale também para os dias que estou de chapéu.

Os genitais são assim, isto é, são como qualquer coisa que compõe nossa vida corporal e espiritual. Está escondido, mas eu o vejo. Eu sei dele. Eu quero ter relações sexuais e o meu sexo, o meu aparato genital não é o que espero dele. Não posso operar? Tenho de ser visto como um ser de Plutão? (Em Plutão são todos operados, por isso Plutão deixou de ser planeta!).

É o caso do Viagra. Por que uso? Espero do meu pau que ele suba e ele não sobe. Mas eu poderia também esperar que meu pau sumisse, e ele não some. O Viagra não me faz monstro, mas diminuir o pau me faz monstro? (Embora exista ainda hoje mulheres que acham que o Viagra é usado porque o marido não gosta mais delas!).

Quero ter outro sexo se o meu sexo é como ter uma verruga entre as sobrancelhas. O artificialismo com o qual eu monto minha identidade não é um artificialismo no sentido pejorativo da palavra, pois nenhum de nós é natural. Nem mais os animais são. Somos criações nossas. Há muito tempo somos assim, e a cada dia somos assim. Então, adequar o aparato genital à silhueta e à identidade que quero apresentar faz parte disso.

É claro que furar a orelha ou fazer uma tatuagem ou por uma bota ortopédica ou por silicones nos seios são mudanças corporais que parecem para nós não mudarem nossa identidade, e que tirar o pênis, por exemplo, é uma mudança de identidade. Todavia, não é bem assim. Tirar o pênis é apenas andar um grau a mais (ou a menos) qualquer outra mudança corporal. Em quaisquer dos casos estamos construindo nossa identidade de modo a criar um menor desconforto interior para nós mesmos. Enquanto houver aqueles que não podem entender isso, que irão encarar mudanças corporais com anomalias mentais, como abominações morais e como um comportamento “freak”, estaremos em uma sociedade que não conseguiu ver o que já fazemos há muito, desde sempre.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

(*) Preferi aqui não usar “transsexual” ou “transgênero”. Não é propriamente este o assunto, ou seja, o de entrar no campo dos que discutem assuntos específicos do tema. Explico. Transsexual é que troca de sexo, enquanto que o transgênero pode procurar viver como sendo do sexo oposto ao que nasceu, mas não deseja se submeter às cirurgias de troca de partes genitais.  Minha questão aqui é filosófica em sentido amplo, ou seja, o do naturalismo ou artificialismo com que se pode querer nominar as alterações corporais.

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