Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

30/05/2017

Criança adora sexo!


Conversando um pouco mais sobre a teoria do mata-borrão e superações dela no campo da teoria das comunicações. A discussão sobre o gesto.

Conversar sobre sexo e envolver o tema da criança nisso é algo bom. Sexo e criança são peças da mesma engrenagem. Afinal de contas, “fazer sexo” é uma das maneiras de se produzir criança, e criança é um animal sexualizado desde o útero.

Sexo sem crianças é bom também. Há muita gente que só faz sexo assim, se não produzir criança. Mas há quem diga que sexo sem criança é triste, que um dia a criança deve vir. E se vier, é mais sexo em casa. Pois criança, eu volto a dizer, é sexualizada desde o útero.

Nascemos pelo sexo, somos sexualizados porque a energia libidinal ou coisa parecida nos move e, ao mesmo tempo, nosso comportamento sexual é parte importante de nossa moral. A filosofia trata dos três campos, ainda que modernamente o primeiro seja popularmente deixado para médicos e políticos, o segundo para psicólogos e médicos e, enfim, só o terceiro ainda fique nas mãos de filósofos – quase, pois no campo da moral entram também padres, psicanalistas, diretos de cinema, jornalistas e romancistas e donas de casa com muitos filhos e no entanto virgens, devotas de algum Padre Fábio da vida, ou simplesmente vítimas de um pastor caça-níquel.

Como filósofo, uma das minhas preocupações quando falamos de “sexo e criança”, é relativo ao moralismo barato produzido pelo entendimento de setores com baixa escolaridade ou com escolaridade ruim, a respeito do que chamei em outro texto de vilania da imagem. Essa vilania da imagem em geral se associa a uma concepção de infância pré-século XVIII, e forma então o que denominei de “teoria do mata borrão”. Em suma funciona assim: a tinta vem e encosta no mata-borrão, que a absorve quase toda e forma então uma nódoa. A criança seria a capa do mata-borrão, a tinta seria a imagem vinda da TV, Internet, revistas etc. Tudo se passa como se a criança fosse dotada de um olho que não estivesse nem um pouco associado à linguagem, e esta não fosse desenvolvida segundo parâmetros históricos e espaciais. A criança não teria filtro semântico nenhum. Tudo entenderia e ao mesmo tempo entenderia em forma de horror, ou seja, a imagem já montada pela compreensão linguística do adulto. Essa teoria do mata-borrão é, sem dúvida, falsa. Era falsa e sempre foi. Agora se tornou uma estupidez. A quantidade de gente que aposta nela não é pequena. Isso mostra o quanto há de gente estúpida lidando com criança.

Quando Elvis Presley começou a cantar e dançar, as pessoas o apelidaram de “Pélvis”. Ele encantou a América e o mundo. Mas havia aqueles que desconfiavam de seus quadris, que achavam aquilo obsceno, e que torciam o nariz quando as meninas da casa começavam a gritar em desespero ao vê-lo movimentar o corpo de um modo nada convencional para o americano médio da época. O movimento dos quadris que faz alusão ao sexo, do funk atual, nada é senão o desdobramento de uma sensualização (às vezes nada sensual) que veio do motorista de caminhão americano para o campo da cultura negra pós-moderna. Trata-se de uma cultura underground, mas devemos lembrar que James Dean e o “mundo Elvis” também eram underground. Mostrar o corpo não tem um significado único. Gestos não possuem um semântica única. Jesus se apresenta com o dorso nu na cruz e, sabemos bem, o êxtase religioso se cruza com o êxtase libidinal em várias freiras que se recolhem para “casar com Jesus” ou “casar com a Igreja”. Gesto é algo que só ganha função para além da fisiológica, dentro de um horizonte de sentido. A cultura dá esse horizonte, ou vários. A linguagem o materializa. Um dorso nu pode significar Jesus sofrendo, pode significar Jesus como homem acolhendo a moça no peito dele, Jesus sincero como quem diz “estou de peito aberto” etc. É preciso que a linguagem esteja presente para que o corpo, o gesto, se manifestem. Na frente de Jesus, portanto, está o homem, a mulher, a criança, o cachorro etc., e nenhum irá ver o mesmo Jesus ainda que todos possam saber que ali há algo, um … um cara na cruz.

Entender o gesto é entender a imagem, entender a imagem é entender o gesto. O gesto não diz nada. Ele não é uma ação com finalidade. O gesto de pegar, o gesto que pode parecer a alguém como o ato de pegar, não é o gesto de pegar. Gesto é gesto, é o que torna visível um meio como tal. Assim ele aparece na dança, onde os gestos, se tivessem finalidade, se fossem gestos já com uma única semântica, não seria dança, seria um fazer, um trabalho qualquer, uma ação inteligível. Mas a dança não é inteligível. É nesse sentido que o gesto faz a imagem e a imagem faz o gesto. O gesto é “comunicação de uma comunicabilidade” (1). A imagem quando está no campo da apreensão do puro gesto é algo assim, sem finalidade.

As imagens precisam de assento para se tornarem imagens disso ou daquilo. O assento é o que quebra a pura imagem e o puro gesto, é a linguagem. O assento acaba funcionando como filtro. Assim, a dança “na boquinha da garrafa” era o suprassumo da obscenidade para uns, e para outros era o que se fazia na festa de Natal, após a reza e a distribuição de presentes. Tanto é que Carla Perez foi boneca da Estrela, antes de se desesperar e cair nas garras dos evangélicos amantes do dinheiro. Imagens que uns inserem em um horizonte semântico que convida o deus Eros, outros inserem em um horizonte semântico que convida outros deuses. A criança é um filtro linguístico em evolução. Esse filtro pode estragar caso o que passe por ele arrebente suas bordas, mas esse filtro não é tão fraco assim, ele tem uma artimanha. Às vezes ele se antecipa à imagem, por que ele preserva a característica do gesto, e quando ela surge, ela já é bem outra coisa do que qualquer adulto na sala pensa que poderia ser. O gesto solto e a imagem soltas só a criança vê.

A criança adora as danças que imitam atos sexuais (para nós) porque os movimentos são espalhafatosos, não corriqueiros, e isso lhe dá a oportunidade para criar. Por isso criança adora também o teatro de mímica e tudo que é relativo ao movimento. É o gesto se apresentando e lhe dando a oportunidade de lhe empurrar para mil e umas criações. É como descobrir formas conhecidas nas nuvens. É como criar formas desconhecidas com as nuvens.

Não disse com isso que a dança da Carla Perez era uma boa dança. Uma dança tão marcada, que faz o gesto não ser um gesto, mas aparecer como uma tarefa, um trabalho, uma ação com um único sentido, nunca é uma boa dança, uma dança qualificada com dança de forma culta. Pois a arte é para a imaginação voar, se ela não faz isso, é tida como arte menor. Descer até “a boquinha da garrafa” remete demais ao sexo, para nós adultos, e por isso não faz a imaginação voar, faz a imaginação morrer ao fornecer de imediato uma prisão para os olhos e para o pensamento. Mas a criança tem o prazer de poder ver o gesto, o puro gesto, e ela pode então colocar tal gesto a serviço de sua imaginação. E a última coisa  que ela vai imaginar com o gesto, nessa hora, é o sexo. A criança é sexualizada, mas ela não pensa em sexo.

Essa é uma experiência que podemos nos lembrar dela, se pensarmos seriamente na nossa infância. E é uma experiência que vivenciamos junto das crianças, agora como adultos. No entanto, quando eu a ponho num texto para, junto, dizer que o mundo não pode fazer mais mal a criança do que já fez desde sempre, as pessoas se revoltam. Os mais maldosos usam disso para falar que o filósofo aqui quer desguarnecer os adultos, quer destruir a moral, quer deixar as crianças à mercê do mal. Tenho de aguentar esse tipo de “crítica”. Afinal, desde que o mundo é mundo existe aquele que é o… bem, é o ignorante.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

1. Agamben, G. Notas sobre o gesto. In: Meios sem fim. Belo Horizonte e São Paulo: Autêntica, 2015, p. 60.

Tags: , , , , , , , ,

12 Responses “Criança adora sexo!”

  1. Thiago Dantas Fajardo
    15/04/2015 at 14:44

    A relação não se da de forma direta para com os objetos concretos ou abstratos, mas por meio de um labirinto linguístico e por isto a comunicação é complexa. Gosto de seus textos, tem uma boa reflexão crítica.

  2. Damca
    12/04/2015 at 22:18

    Seu pedófilo de terceira categoria. Seu texto é nojento como você é.

    • 13/04/2015 at 01:38

      Nossa Damca, você é bem inteligente. Você me surpreendeu.

  3. Pablo
    12/04/2015 at 19:17

    Nâo entendo a raiva do ser adulto contra homem ou mulher que sentem atração fisica e afetiva por crianças, na minha opinao o relacionamento carnal e afetivo entre crianças e adultos deveria ser liberado desde que a criança queira e não seja estupro, vamos abandonar a hipocrisia e adotar a realidade. Qual é o pai que não sente tesão pelas filhas quando as vê de calcinha, biquini, short ou enrolada na toalha apos o banho, todos os pais se masturbam diariamente desejando as filhas na cama, quem contradiz o que escrevi aqui não passa de um mentiroso.

    • 13/04/2015 at 01:40

      Pablo o problema não é sentir tesão ou não, isso é uma outra questão. Meu texto NÃO é sobre pedofilia. Meu texto é sobre meios de comunicação, gesto, subjetividade. É gozado essa fixação de vocês com o que NÃO escrevo. Putz!

  4. Henrique
    12/04/2015 at 00:08

    Entendi o que você quis dizer com o texto, mas seu texto… Complicado de ler. Me enoja.

  5. Clóvis
    11/04/2015 at 13:56

    Li outros textos seus sobre a sexualização infantil. Neste a ideia parece-me mais clara. O fato é que, realmente, criança é sexualizada desde pequena, e quem vê maldade nisso é o adulto – não os adultos sadios. O que não significa que seja normal incentivar a sexualização precoce, mas deixar que ela siga seu ritmo pessoal. O incentivo exagerado, a meu ver, é problemático e advém de mentes doentias. A negação da sexualidade para a criança também advém de mentes doentias. É preciso deixar que a criança cresça a partir de seu próprio processo pessoal. Bem, mas isso é justamente o que você escreveu.

    • 11/04/2015 at 14:21

      Clóvis, não é o que escrevi. Eu NÃO fiz pedagogia. Não estou dando conselhos. É isso que as pessoas não entendem mesmo. Sou um filósofo que atuou muito no campo da educação, mas que faz tempo que colocou esse campo, de modo restrito, no plano secundário, exatamente porque não aguentava mais essa coisa de pedagogo ou do senso comum de querer tudo moralizar didaticamente. O senso comum quer a novela seja censurada para poder “educar”. Eu não. Nesse texto que você leu, e que não entendeu, deixo claro que estou entendendo “o gesto”, a comunicação, etc. Mas a preocupação de doutrina e ensinamento do senso comum pega as pessoas. Eu canso.

    • Matheus Kortz
      16/04/2015 at 08:55

      Digamos que nunca deu (muito) certo pegar as reflexões de um filósofo e fazer uma cartilha doutrinária.

    • 16/04/2015 at 12:13

      Kortz credo, cartilha é ruim quando vem de Deus, imagine de filósofo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo