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18/11/2017

O sexo bem feito e o feminismo bem feito


Existe o sexo sem algum tipo de objetificação? Podemos ser completamente ternos no sexo? 

Quando olhamos para o legado da filosofia do século XIX, especialmente para Marx e Nietzsche, acreditamos que é impossível ao sexo não estar relacionado com mecanismos do dinheiro e do poder. Forças cósmicas e vontade de potência precisam canais para se expor. Forças de reificação-fetichismo vindas da sociedade de mercado precisam nos tornar coisas. Sendo o sexo o sexo humano, como não fazê-lo segundo o que fazemos nós, os humanos? Poderíamos ser plutonianos só na hora do sexo?

Peter Sloterdijk escreveu um catatau chamado Bolhas, volume I da “trilogia das esferas”, fazendo uma “arqueologia da intimidade”, onde não fala de sexo. Como? Como alguém pode falar de intimidade sem falar de sexo? Fazemos essa pergunta por que invertemos as ordens: achamos que sexo promove intimidade, quando historicamente é o inverso. Só temos sexo humano, que não é mera luta ou choque entre órgãos genitais, se antes de tudo forjamos durante milhões de anos a intimidade. O que Sloterdijk mostra é que não há chance de tirarmos os elementos culturais, ou seja, humanos, para, então, estudar o sexo na sua forma “pura”. Não há sexo na forma pura, “biológica”. A própria “biologia” já é um olhar social, conformado por uma antropologia.

Há alguns que dizem: “não não, vamos estudar a antropologia e o mundo da sociobiologia, e vamos aprender a ver o sexo sem a capa da superestrutura humana”. Estudamos mamíferos sociais, estudamos nossos parentes primatas. Mas logo percebemos que não existe o “elo perdido”. Então, voltamos para Sloterdijk e damos o braço a torcer: é melhor lermos sobre “antropotécnicas”, que é uma forma de ver o homem produzido pelo homem sem a divisão entre natureza e cultura. Não temos essa possibilidade de efetivamente separar isso. Fenômenos como os da prostituição e de mecanismos de poder estão presentes em macacos, e mesmo que não estivessem, ainda assim, não teríamos como achar o homem antes dele ser homem. Pressupor o homem antes do homem para falar do homem é o erro cometido por Heidegger, na denúncia de Sloterdijk. O que podemos fazer é brincar de falar disso. Podemos fantasiar. “Antropotécnicas” são técnicas de produção do homem sem a pressuposição do homem e sem o “elo perdido” em algum ponto da evolução, e tal coisa é posta numa narrativa que forma uma onto-antropologia fantástica, fantasiosa.

Em outras palavras, nosso sexo parece ser o nosso sexo, desde sempre. Ele não está acoplado à reificação, ele é a reificação. Ele é a objetificação. Sem transformar o parceiro sexual, em algum nível, em alguma coisa que manipulo para o meu prazer e para o meu prazer de dar prazer – e essa segunda parte é o que nunca foi entendida por Kant – não tenho nenhum sexo humano. Talvez nenhum ato sexual de mamíferos.

Isso tudo aí é o que distingue uma feminista que goza de uma feminista que não goza. A feminista que não goza é como Kant, ela acha que a reificação no sexo, o exercício de, em um dado momento, obter prazer do outro, é uma via de mão única. A feminista que goza sabe que há um prazer imenso não em gozar, mas em fazer o outro gozar para, então, gozar. O prazer do sexo tem esse caráter de confusão de genitais e da produção de um delta de energias. Um delta de energias como o delta do rio. Não se trata de um embate de genitálias, mas um curioso balé em que a energia do outro precisa se despertada para que o salto de ambos se verifique.

Não há como explicar isso para quem não goza. E vem daí todo o embate entre posturas feministas e pessoas que, não compreendendo isso, se tornam anti-feministas e começam a destilar na imprensa mais ingenuidades (conservadoras) que as dessas feministas anorgásmicas. As feministas que não gozam são como crianças. Podemos às vezes perder a paciência com elas, mas não podemos jogar fora as reivindicações do feminismo por conta dessas crianças.

Graduar a reificação é o correto. Dizemos: de um tanto para lá da curva, trata-se de violência, não mais sexo. Mas não há como dizer que há sexo sem alguma objetificação, para não dizer violência. É nessa limite do bom senso que deixamos a filosofia para, com ela, tentar um ajuste com a legislação.

Paulo Ghiraldelli Jr, 58, filósofo.

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4 Responses “O sexo bem feito e o feminismo bem feito”

  1. 28/12/2015 at 11:59

    explendido, professor. taí algo que custa ser debatido entre intelectuais de esquerda e feministas. parece um que de ranço puritano, o mesmo tipo de moralismo judaico-cristão querer separar sexo de dinheiro, como se sexo não fosse um serviço, uma mercadoria. o que me faz lembrar algumas perguntas feitas por algum frustradinho recalcado reacionário – afinal, se o corpo é da mulher, então ela deveria poder decidir como usá-lo [industria do cinema, da televisão, da propaganda e também da pornografia]. afinal, se é tudo uma questão de linguagem, de redefinição [reificação?], de novos discursos, de empoderamento, então é perfeitamente cabivel defender o profissional do sexo com a mesma enfase e paixão que se defende o transgênero.

  2. wellington
    24/12/2015 at 22:15

    Vamos gozar.

  3. Alexandre
    24/12/2015 at 20:14

    Feliz Natal.

  4. Osmar G Pereira
    23/12/2015 at 23:56

    Um texto prenhe de gozos!

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