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23/11/2017

Sete a um!


Vencer ou vencer. Estamos nisso. Mas nem sempre estivemos. Nossa sociedade ocidental, nos tempos em que foi uma sociedade de guerreiros, nas eras antiga e medieval, foi uma sociedade da honra, não do vencer. Paradoxalmente, a sociedade moderna, ou seja, a sociedade de mercado, que introduziu a vida na paz, instaurou ao mesmo tempo o culto do vencer.

Tudo se passou como se a sociedade moderna, incapaz de criar por si só um conjunto claro de virtudes e vícios, tenha copiado de uma paródia da sociedade antiga e medieval ideais capazes de dar alguma motivação para a vida, transformando o obtido em pastiche. Sem virtudes e vícios autênticos, próprios, o pastiche nos deu o cultivo do vencer na paz. Ora, como vencer na paz? Simples: que se adote o que se está pedindo, que a trama social se apresente como o pastiche requisitado. Vamos vencer mesmo não estando em nenhuma guerra e sem estarmos em qualquer competição efetiva e, enfim, sem mesmo estar em algum lugar. Então, vencer o quê? Vencer a quem? “Vencer na vida”? Mas o que é isso?

Seria trágico e também cômico dizer para o negro pobre e de cabeça de minhoca, o brasileiro par excellence  que é o fruto da situação de desescolarização geral, que vencer é “vencer na vida”. Seria declará-lo eternamente um perdedor. Mas, ao mesmo tempo, a guilhotina não sai do pescoço: tem de vencer. Quando os tolos não sabem o que fazer individualmente eles acreditam que se agrupando em um bando possam ao menos ter força, ainda que continuem não sabendo o que fazer. A Copa no Brasil foi esse momento.

O brasileiro na Copa foi destituído da sua cidadania que, aliás, já é pouca, e transformado pelos órgãos oficiais em “torcedor”. Só então ele conseguiu vislumbrar o vencer. Torcedor ou perde ou ganha, dependendo do resultado do seu time. Desse modo, o ideal do vencer deixou de lado seu caráter fantasmagórico, de falsa abstração, e se transformou em alvo inteligível para o brasileiro. Vencer é ver o time do Brasil vencer um jogo. Pronto!

O rico dos estádios, a maioria dos torcedores oficiais, até poderia entrar nessa, dado que sua cabeça, hoje em dia, já não difere tanto da do pobre em termos culturais. Mas ele se desespera menos, afinal, ele sabe que não é brasileiro. Sobra mesmo é para o pobre a tarefa de cumprir o ideal de vencer, segundo os padrões oficializados pelo Brasil, e de acordo com o entretenimento padronizado do orweliano órgão chamado FIFA.  Vencer. “Vamos vencer”.

Esse brasileiro que é então rebatizado como “o torcedor” precisa vencer. Mas ele depende de algumas coisas para vencer: jogadores bem pagos, Felipão bem pago, Neymar e Galvão Bueno em campo e, enfim, Dilma com um cheque. Ele vai vencer?

Jogadores bem pagos pouco adiantam num país onde só eles são bem pagos. Felipão não adianta nem mesmo bem pago – e põe bem pago nisso! Neymar e Galvão Bueno juntos só adiantam para uma comédia de camelos. Dilma tem o cheque, então “por que não pagou os alemães?” – pergunta o torcedor desesperado. Ora, mas pagar com cheque do Delúbio? Valério está na cadeia e até hoje não recebeu!

Quando o jogo da Alemanha acabou, os alemães vieram pedir desculpas pela goleada. Sério! Sim, eles sentiram pena. Piedade para quem? De quem? De nós. Não pelo futebol, mas pela mentira que vivemos mais do que eles. A mentira de que iríamos ganhar alguma coisa com o “vencer” imposto e falseado da sociedade moderna. Mais do que ninguém, os povos europeus, hoje, sabem que no horizonte há o nada, sabem que vivemos o niilismo que Nietzsche anunciou exatamente para agora. Então, eles vieram passar a mão na nossa cabeça, depois do jogo, como que dizendo: “meu Deus, os pobres e pretos do mundo que ainda são crianças, infantis, são os brasileiros, para eles o vencer realmente tem de acontecer e o vencer é o vencer em um jogo de futebol, que coitados!”.

A piedade alemã revelou para eles próprios o que já sabiam de si mesmos: tiveram de se tornar cínicos. Mas nós estamos aquém de sermos cínicos, trágicos ou ironistas. Nenhuma dessas três filosofias pode ser endossada por nós. Somos os pretos pobres que de tão pobres ficaram mais pretos. Para nós, resta o desespero. Um desespero infantil.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

Adendo: vídeo da torcedora surtada.

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35 Responses “Sete a um!”

  1. MARCELO
    12/07/2014 at 10:37

    Desculpem por ter chamado o
    Rambo de comuna.Ele é um
    filho da puta e imbecil,mesmo.

  2. Paulo Roberto
    11/07/2014 at 01:31

    Acredito que a fixação em “vencer” reflete o esvaziamento profundo do ser; mas ser o quê? Vencer implica combater, mas combate-se com o quê? Ou com quem? Consigo mesmo? Talvez precisamos estar criando moinhos de vento, como Dom Quixote, para fazermos valer algum sentido de ser neste mundo insano. Paulo, como sempre, seu texto é gratificante!

  3. Caçapava
    10/07/2014 at 18:43

    Acho que você quis dizer ali em “Os ricos sabem que não são brasileiros “, na verdade “Acho que nessas horas de derrota, os ricos não se consideram brasileiros”, não seria isso, Paulo?
    Também não entendo tanta babação de ovo em cima dos jogadores pela imprensa televisiva., é fora do normal.

    Você tbm não explanou nada sobre a volta da guerra na Palestina!

    • 10/07/2014 at 19:43

      Caçapava! Não, os ricos não são brasileiros. Nunca foram. Comece lá pela na colonização, na história ensinada pelo Ensino Médio, e saberá que o que digo é simples. O que tem a ver a guerra da Palestina? Algum dia eles pararam, desde muito antes de Cristo? Ninguém mais considera isso um conflito.

  4. Alexandre
    10/07/2014 at 08:23

    Meu deus!!! Vendo esse video da torcedora se espermeando, vemos o quao patetico somos. Nao da pena, so deu um no no estomago. Se fosse uma crianca, ate que seria razoavel e ate compreensivel. Parei no meio do video. Triste.

  5. Wagner
    10/07/2014 at 02:42

    Enquanto isso o sonar da Nau neopentecostal indica aos pescadores a localização dos cardumes.

  6. Luana
    09/07/2014 at 22:43

    Caramba é ri com a mulher no vídeo, que histeria hehehe
    Hoje eu tive uma aula sobre o texto “Indústria Cultural” de Adorno, bem legal! E o evento da FIFA é um bom exemplo disso.Eu não tinha pescado a ideia do ‘vencer’, é bem isso mesmo, explica o desespero de alguns brasileiros.
    Ah eu vi uma imagem que me chocou, alguns brasileiros queimando a bandeira nacional, após esse jogo. =/

    • 09/07/2014 at 23:37

      Luana, parece mas não é. A indústria cultural pode ser base para se pensar o evneto Fifa. Mas se ler meus outros textos virá que se trata de outra coisa, ainda não teorizada.

  7. Mario Luis
    09/07/2014 at 22:41

    Para mim também rolou o ocaso dos Deuses. A ruptura da ação do herói que de forma precoce isolou-se de um mundo conhecido num território multidimensional. A essa falha, não houve um redentor que sublimasse, na cadência do drible, a dor da vicissitude de um porvir que enxerga sim o nada, o nada no horizonte de um povo que vive um niilismo sim, o “nada de vontade”, que é a mais pura omissão em relação a sua própria realidade.

  8. Mariana
    09/07/2014 at 21:48

    Professor, não entendi esse final onde o sr. diz: ” Somos os pretos pobres que de tão pobres ficaram mais pretos.”

    • 09/07/2014 at 23:38

      Quanto mais pobres, em vários sentidos, mais pretos ficamos, em todos os sentidos. Como na música sobre o “Haiti e aqui”, do Caetano, lembra?

  9. RAMBO
    09/07/2014 at 20:40

    Ainda está pra nascer um crítico da nossa imprensa. Que não se cala ou tem medo, que não tem rabo preso!
    Imprensa de m*****!!!!
    Só um inocente não enxerga que essa máquina, controlada por 6 famílias( que democracia é essa? ), que faz lavagem cerebral em massa diuturnamente nos cérebros de minhoca tupiniquim. Já chega bando de manipuladores!!! Chega de esconder a sujeira do país!!! De tratar o povo como gado!!!

    • 09/07/2014 at 21:05

      As coisas não são simples assim, e as tais famílias mandam mais que o Estado, controlado pelo governo do PT, acorda.

    • Cesar Marques - RJ
      09/07/2014 at 21:10

      “e as tais famílias mandam mais que o Estado, controlado pelo governo do PT” – Não entendi, mas não foi justamente isso, que o Rambo alegou? Que as tais 6 famílias, não estão com poderes demais na área comunicacional de massas, que é concessão pública?

    • 09/07/2014 at 21:16

      Esqueci a interrogação, as seis família não mandam mais que o estado. No Brasil a mídia é inteiramente controlada pelo poder econômico do estado.

    • MARCELO
      10/07/2014 at 10:54

      Rambo,você é americano,mas
      depois dessa,faça o favor:VÁ
      PRA CORÉIA DO NORTE E
      SEJA FELIZ,SEU COMUNA!!!!

    • RAMBO
      10/07/2014 at 13:57

      Pedir por mais pluralismo(leia-se democracia) dos meios midiáticos, enfraquecer esse oligopólio é ser comuna??? Tá ‘serto’, sr. Marinho!!!

    • RAMBO
      10/07/2014 at 14:48

      …E digo mais. Por ser concessão pública, por Lei, elas são obrigadas a transmitir uma proporção da sua programação diária em programas de cunho educacional/cultural. Qual delas cumpre, em que horário?????? A Argentina, Inglaterra entre outros países, fizeram a regulação da mídia e aqui, onde mais se vê essa necessidade, nada.

    • 10/07/2014 at 18:01

      Regulação de mídia não resolve nada e é censura, pois tudo que se precisa já existe em lei e não é cumprida POR ESTE GOVERNO QUE ESTÁ AÍ e pelos anteriores. O governo sustenta financeiramente todas as tais grandes famílias que dominam a mídia. Tem gente que ainda acha que nesse meio há lugar para mocinhos. Não há.

    • 10/07/2014 at 18:02

      Ninguém é “comuna”, só uma besta acha que há comunistas por aí. Agora, querer fazer mais leis para não serem cumpridas e esquecer das leis que já existem é realmente de se pensar a razão.

    • MARCELO
      11/07/2014 at 11:01

      Rambo,deu pra ver que
      você é colonizado com
      esse nome,né?É igual
      Tomás Turbando ou
      Paula Tejando.Tudo
      que vem de fora é bom
      pra você.Na Argentina,
      o governo de lá
      fez a mesma coisa
      que o Figueiredo fez
      aqui no Brasil,dando
      TVs pros amiguinhos
      do poder como o
      Sílvio Santos,por
      exemplo,fora ser um
      governo demagogo
      e populista.
      Na Inglaterra,tem
      reality show na TV
      e tablóides
      sensacionalistas
      que são puro anti-
      jornalismo.Isso
      é exemplo pra
      você,puxa-saco do
      Nassif?

      *Não existem
      comunistas mesmo,
      mas gente QUE
      PENSA como eles.
      É apenas uma
      pura sinedoque,
      claro.

    • RAMBO
      12/07/2014 at 14:54

      Tá, então quero pedir desculpas se te magoei. Você parece uma criança, velho. Não dê xilique, reveja seu comportamento pq argumento que é bom nada… tomou as dores e só trouxe ad hominem. Demostrou que nem do personagem Rambo conhece, falando coisa que não sabe. Te dou uma dica, assista o filme ou leia sobre o personagem.

    • 12/07/2014 at 19:48

      Rambo ponha seu nome verdadeiro aí. Essa mania de fake é falta de personalidade.

  10. juniN
    09/07/2014 at 15:14

    Se esse texto não é racista eu não sei mais o que é preconceito.

    • 09/07/2014 at 15:26

      HA HA HA, CONCLUSÃO: VOCÊ NÃO SABE O QUE É PRECONCEITO. Aliás, pelos seus comentários, você não sabe muita coisa. Chame a música do Caetano sobre “o Haiti é aqui” de preconceituosa cara! Acho que você está precisando de um transplante urgente. Transplante de cérebro. Ah não não. Não há no momento estoque de cérebro de minhoca.

  11. Delúbio Soares
    09/07/2014 at 15:06

    Rapaz, o que eu tenho a ver com isso??? NADA!

    • 09/07/2014 at 15:28

      Procure o Valério!

    • Delúbio Soares
      09/07/2014 at 16:21

      Não sabes nada do “mensalão”. Mas é só mais um daqueles que acha que sabe! …Tá perdoado.

    • 09/07/2014 at 21:05

      Sim, você é o cara que sabe, agora, o que se esconde sob seu nome é o que sabe tudo. Sabe tanto que se esconde da vergonha de se um sabichão.

  12. Guilherme Gouvêa
    09/07/2014 at 14:02

    Você se superou neste texto! Gostei principalmente do trecho: “Ora, como vencer na paz? Simples: que se adote o que se está pedindo, que a trama social se apresente como o pastiche requisitado. Vamos vencer mesmo não estando em nenhuma guerra e sem estarmos em qualquer competição efetiva e, enfim, sem mesmo estar em algum lugar. ”
    *
    A parte mais humilhante da derrota, realmente não foi a desclassificação, nem o jogo, nem ao menos o resultado em si. Foi o cair súbito das máscaras, o descortinar do véu apenas para revelar o vazio e a miséria em todos os sentidos, que no fim persistem; a sensação do viciado em ópio ao despertar em amargo retorno à vida cotidiana.
    *
    Aos alemães, observadores por excelência, a excitação da vitória visivelmente turvou-se com a percepção da realidade, e a turma de Klose e companhia desempenhou o único papel para eles aceitável naquele momento: a de pais consoladores na presença de impúberes vulneráveis, sobre os quais o senso de moral kantiano impediria qualquer tentativa de tripudiar.

  13. 09/07/2014 at 13:24

    “Ativistas apostam em maior adesão a protestos” “Após derrota na Copa, Dilma teme prejuízo na economia e na eleição” “Sindicatos retomam campanhas salariais e prometem greves”. Nós estávamos vendo nossa liberdade sendo suprimida, nossa constituição sendo desrespeitada sem ver novos grandes protestos, parecíamos estar amortecidos. Pode acontecer como quando os nazistas bombardeavam a imprensa com notícias das grandes derrotas da Alemanha para reavivar por alguns segundos os alemães, pode o “gigante acordar” por mais alguns segundos depois desta derrota?

  14. Franklin Mariano
    09/07/2014 at 11:51

    Paulo,estes é um dos motivos de eu vir aqui ler este blog quase toda semana.Que belo texto !!

    Paulo, voçê matou a charada.Os alemães,todos muitos educados, cultos.Já cheguei a ouvi um britânico dizer que os jogadores alemães falam inglês melhor do que os ingleses.

    E,sim, eles sentem piedade.Quantas vezes não vemos os alemães dançando com os baianos fora do treino,e aqueles rostos alemães não escondem o cinismo e o trágico que eles conhecem.Mas lá está o brasileiro provando ser alegre,mui alegre.Tão feliz pra vencer a copa !

    E daí levamos de sete! Sentimos que nossa honra foi ferida.O alemães faziam gols e saiam caminhando serenamente pelo campo.Um aperto de mão no colega ou um sorriso ou outro.Nós achamos que eles são frios,mas ,voçê,Paulo, disse tudo : eles são educados o bastante pra entenderem o que essa vitória significa.

    O que eles farão depois disso aqui? eles entendem a sua condição moderna,niilista,mas chegarão em casa e cuidarão de alfabetizar os imigrantes.Vida que segue.

    E nós ? Bem,nós …

  15. manoel lucas
    09/07/2014 at 11:35

    No horizonte não há nada. É assim que deveriam ser as primeiras aulas de filosofia, sociologia, história, geografia, até de literatura, artes…De preferência já no Ensino Médio. Caso o termo horizonte seja complexo demais, deveríamos adotar, pedagógicamente: lá na frente não tem nada.

    • 09/07/2014 at 11:39

      Manoel sabe das coisas. Sim, seria isso mesmo. É preciso aprender a ter esperanças sem que elas sejam postas oficialmente.

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