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25/03/2017

Crentes e descrentes religiosos não servem para (ler) a filosofia


Nota 1. O Oráculo de Delfos ficava em uma região vulcânica. A pitonisa respirava o ar contaminado por gases tóxicos que emanavam de fendas vulcânicas altamente tóxicas, atribuídas à cobra-dragão, Píton, que estaria ali enterrada após luta com Apolo. Graças a tais gases, a pitonisa tinha lá suas visões. Sócrates nunca seguiu outra coisa senão os dizeres sem significado algum de uma moça intoxicada. 

Nota 2. O próprio Sócrates nunca teve daimon nenhum. Ele ouvia vozes, muito provavelmente por alguma doença, algum tipo de ilusão auditiva, dessas que, hoje em dia, com remédios não muito caros curamos facilmente.

Nota 3. Também São Paulo nunca ouviu nenhuma voz ao cair do cavalo no deserto. Ele ficou cego por conta da queda e as vozes que ouviu – “por que me persegues?” – nada foram senão a zonzeira produzida pela situação de semi-consciência.

Nota 4. Jesus não fez Lázaro levantar de túmulo algum após a morte. O que ocorreu foi que, como sabemos hoje, há situações em que as pessoas são dadas como mortas mas, efetivamente não estão mortas, e acordam após uma situação de um coma ou algo parecido.

Essas quatro notas podem ser verdadeiras, mas tratá-las como verdadeiras ou falsas é simplesmente uma das maiores imbecilidades que alguém pode cometer.

Podemos destruir a história da filosofia grega e a história da filosofia e da religião cristãs. Ao menos era isso que pensavam alguns materialistas, ateus e positivistas do século XIX. Até hoje há quem queira ler a filosofia assim, não como narrativas cujo caráter literário é o que importa, mas como tratados que devem dizer a verdade segundo os critérios do saber médico ou coisa parecida atual. É normal que existam pessoas assim, principalmente a partir do século XVIII. Mas, hoje, esse tipo de gente não pode ser mais levada a sério como filósofo ou professor de filosofia.

Vivemos atualmente segundo um novo espírito, uma forma de abordar a filosofia que nos põe no caminho da sutileza, da inteligência aberta, das narrativas que precisam ser lidas como cartas literárias. Elas importam à medida que trazem fantasias que nos fazem pensar sobre o que não pensamos. O cume desse processo é, talvez, a maneira como Derrida lê filosofia: ele sabe que a cada dito há o que é mais importante, ou seja, o não dito. Os inúmeros não ditos abrem espaço para um novo tipo de relativismo.

Desse modo, a última coisa que um bom filósofo ou professor de filosofia faz hoje, é reduzir a filosofia de Sócrates ou de São Paulo a acontecimentos que podem perder sua graça em função de algumas bulas de remédios. Acreditar que Sócrates ou São Paulo ou Jesus eram homens tolos, que não sabiam o que estava ocorrendo com eles, é tão ridículo quanto achar que eles, sendo quem foram, não passaram de simplórios, como os que hoje em dia não acreditam que o homem foi à Lua ou coisa do tipo. Não eram.

Uma vez perguntado se acreditava nos mitos, Sócrates deu um resposta sutil e inteligente: não tenho muito tempo para pensar nisso, se sei dos mitos, pois ainda nem mesmo sei de mim. Também Paulo e Jesus deram respostas inteligentes para perguntas tolas, de pessoas que não conseguiam lidar com a sofisticação do que diziam. Um dos casos mais interessantes a respeito disso, ou seja, de como entender a pregação cristã, é o do rico que havia feito tudo para ganhar o reino dos Céus, que não mais pecava, e então foi desafiado por Jesus a entregar tudo que tinha aos pobres e vir segui-lo sem nada mais perguntar. Claro que o rico não veio seguir Jesus. Claro que Jesus sabia que ele não viria. E isso não pela falta de desprendimento, mas pela falta de compreensão literária. Jesus estava convidando todos para uma aventura literária, para um reino que ele mesmo dizia que não era “desse mundo”. O modo como o rico conversou com ele já o deixou ver que se tratava de um tipo de incapaz de ter gosto pela literatura e pela aventura. Não viria.

Homens que tiveram experiências filosóficas autênticas, e que tiveram também experiências místicas, não foram mais ou menos inteligentes que aqueles que tiveram experiências filosóficas do mesmo peso, sem ter qualquer experiência mística.

Só quando se é tolo não se entende a força das “provas” da existência de Deus feitas por Agostinho, Anselmo e Thomas de Aquino, e isso independente da validade delas ou não diante dos seus críticos. A filosofia há muito não mais é conversada e lida por aqueles que a querem tomar sem sutileza, sem tino para ler literatura, sem vocação para notar o quanto a realidade imita a ficção.

Quando vejo um professor de história ironizando a religião sei que ele é tão inculto quanto o pastor analfabeto que lê a Bíblia literalmente em igreja caça-níquel. A filosofia não é para crentes e descrentes.

Ler a filosofia respeitando os filósofos e suas aventuras é ler Sócrates como o interpretou Cioran (A tentação de existir) ou o Platão do Timeu como fez Derrida (Khora). Palestrante suave que é um pouco garoto de Stand Up, que é o que mais dá hoje em dia na mídia, fomentando a vida pseudo-intelectual, não sabe do que se trata isso. Quem segue essa gente, meno ainda. Aliás, essa gente sempre se diz realista.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Gravura: Conversão de Paulo

Ver também: Levando a sério a religião

PS: O melhor exemplo de como ler filosofia, em termos sucintos, é dado didaticamente pelo artigo de Rorty “Duas Utopias“.

Aqui vai um pouco do desserviço que se pode fazer à ciências humanas:

Agora um pouco de correção ao desserviço do professor de história acima:

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9 Responses “Crentes e descrentes religiosos não servem para (ler) a filosofia”

  1. Dejesus93
    01/02/2016 at 09:35

    Se puder disponibilize o link dos vídeos, não consigo acessar daqui e fiquei voando no assunto…

  2. tata
    01/02/2016 at 01:11

    Inveja….hummm

    • 01/02/2016 at 01:37

      NO BRASIL OS MEDÍOCRES agora inventaram a acusação de inveja para se protegerem. Vem um cara qualquer, faz uma palestra com um monte de erros crassos, aí recebe uma crítica e, então, diz que “é a inveja”. Ou seja, invejamos a burrice e os erros dele! Putz!

    • Otávio
      01/02/2016 at 15:43

      Pelo comentário da “Tata”, ela era uma das integrantes da “plateia das risadinhas” do Karnal. É o tipo de gente que se julga culta porque riu de uma ironia do cara, pra mostrar pros outros que “tá entendendo tudo, mas precisa manter os risos pra ser aceita pelo grupo”. Vejam o nível de quem participa das comédias stand up dele. Se alguém discordar do “historiador” incipiente em filosofia, é um tolo; se corrigi-lo, é invejoso. Já estava na hora de alguém dar um basta em comediantes da Unicamp.

    • 01/02/2016 at 16:55

      Otávio esse tipo de Pondé-Karnal acaba com o ensino brasileiro.

    • Otávio
      01/02/2016 at 23:02

      O Karnal tá seguindo os passos da Chauí, que começou na filosofia e terminou no stand up. O problema é que, no caso do Karnal, ele nem entrou na filosofia. Já foi direto pro stand up.

    • 02/02/2016 at 00:28

      Não dá para comparar, a Marilena tem uma produção invejável.

  3. Daniel
    31/01/2016 at 20:48

    Outro problema professor, é que alguns professores de filosofia e de outras áreas estão passando para nós que a ciência está se tornando outra religião e que ela acaba nos alienar. Penso que isso é outro erro. Porque a ciência se diz “realista”. Não dá para comparar um anjo, um salvador ou coisa que seja com um médico, psicólogo, historiador e etc. Pior do que rechaçar a religião é compará-la com a ciência né.

    • 31/01/2016 at 22:01

      Daniel o seu problema é que você não sabe o que é um anjo. Mas dá para você saber, se estudar. No meu livro Sócrates, pensador e educador, você pode aprender. OK?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo