Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

26/09/2017

Será que sou original na minha crítica?


Há pessoas que nunca conseguem criticar. Há pessoas que aprendem a criticar de um modo, digamos, escolar, quase doutrinário. Esse segundo caso é o pior, principalmente se a pessoa não percebe que sua crítica é uma forma de não-pensar. 

Um exemplo talvez deixe claro. Em um hangout do Centro de Estudos em Filosofia Americana, disse que nós no Brasil tínhamos uma vida relativamente leve, que não tínhamos a experiência da Guerra, no sentido que Buenos Aires teve, de realmente ter de ficar no escuro, em treinamento – uma cidade inteira que poderia a qualquer momento ser bombardeada pelos britânicos. Apagam-se todas as luzes, todas mesmo. Silêncio absoluto. Todos às pressas para os abrigos, com crianças, cães etc. Então, só os corações batendo, esperando os fogos de artifício que irão imitar as bombas. Depois, alguns dias depois, talvez a experiência com a bomba real. Será que ela vem? Será que o som que escuto já é dos aviões da Rainha? Já imaginaram a população de São Paulo passando por isso? Quando disse isso, um amigo no hangout foi tocado pelo espírito crítico e argumentou: “mas há a experiência de guerra no Brasil, porque as favelas …” Pronto! Sacou?

Isso vindo do objetor é a crítica não-crítica, ou seja, a crítica ensinada, domesticada, não própria. Uma tal coisa parece ser uma visão tirada da própria cabeça, mas é visível que não é, que é uma perspectiva ensinada, que no máximo de sofisticação, veio da seguinte maneira tática: quando alguém lhe propor uma visão geral, critique usando uma visão setorial classista. No caso: fale a partir dos pobres.

Claro que a experiência de guerra não existe nem no centro nem na periferia em São Paulo. Nenhuma favela está em guerra. A violência da favela é uma coisa, guerra é outra. A violência da favela lhe é inerente, nunca ninguém conheceu outra coisa que não aquela vida; a experiência de ser bombardeado pelo Império Britânico, à noite, com sirenes e com abrigos anti-aéreos, é completamente outra. Mas não é esse o ponto para o qual quero chamar a atenção, e sim para a forma pela qual a crítica domesticada, não criativa, aparece e pode enganar aquele que a adota, fazendo-o crer que ele pensa pela própria cabeça.

A crítica do crítico original é aquela que surge da seguinte pergunta pessoal, para si mesmo: como pensar o impensado? Por qual entrada eu posso caminhar de maneira a apresentar hipóteses que não são mais hipóteses, mas formas de infiltração no paradigma já posto de um modo que talvez eu imploda os meus próprios quadros? De que maneira eu devo falar que possa realmente não desestabilizar quem argumentou, mas desestabilizar a mim mesmo? Devo assumir minhas crenças e, então, pensar em maneiras de derrubá-las não como crenças, mas os “frames” que a protegem. Esse exercício exige um duro esforço. Não acontece por mágica, porque quando pensamos, voltamos aos nossos frames e imperceptivelmente, tornamos a crer neles com fé inquestionável, operando com eles como se fossem naturais. Não temos coragem e criatividade suficientes para gerar outros frames que nos tire o chão.

Como podemos nos educar para a atividade que visa nos tirar o chão? Há um caminho: a leitura abraçada, sincera e disponível dos clássicos. Ler um clássico para adotá-lo contra o que pensamos. Foi isso que Nietzsche fez: o paradigma do homem é sempre moral, pois o homem sempre valora, ha! vou pensar num paradigma que esteja “para além de bem e mal”, ou seja, vou tentar não ser homem e, se não der, então fico no estágio, ao menos, do penúltimo dos homens, o que é um decadente de tanto valorar, e depois salto para aquele que anuncia o Além-do-Homem, ou seja, o bicho que deverá não valorar. Não saio da condição do homem, mas fico na beira do precipício como o anunciador do Além-do-Homem.

Nietzsche é só um exemplo, claro. Os grandes pensadores são originais na medida em que, como ele, puderam e podem destruir seus próprios frames, senão objetivamente, ao menos para si mesmos. É como que ficar louco sem ser louco. Cometer a loucura de puxar o tapete dos próprios pés, mesmo sendo difícil e mesmo sabendo que o tombo realmente machucará. Talvez se faça uma ferida incurável.

Essa atividade é que faz com que um estudante possa ser um doutor, ter uma tese original. Essa atividade é que, se implementada em um assunto novo, pode produzir o crítico autêntico e até mesmo o gênio. Essa atividade, por incrível que pareça, também é aprendida na escola, ainda que não seja comum, uma vez que ela depende de gente disposta para tal e não militantes.

Pensar contra si mesmo não é para qualquer um. Não estou falando em ser advogado do Diabo, estou falando em realmente pensar contra si mesmo. Derrotar-se.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Tags: , , , , ,

9 Responses “Será que sou original na minha crítica?”

  1. Robson de Moura
    19/04/2016 at 12:39

    Paulo, mais uma de inúmeras vezes, muito muito obrigado! Devemos-lhe muito.

  2. Wayrone
    19/04/2016 at 11:54

    Bacana! Bom, a pouco tempo que leio sobre filosofia. Sobre a crítica “quase doutrinária ou domesticada”, é o que mais tem na internet, numa multidão de comentários, encontra-se pouquíssimas pessoas que rompem com paradigma dominante e desenvolvem uma narrativa mais original (e disciplinada teoricamente) para fugir das hipóteses mais óbvias. Antes da internet, não pensei que o problema do brasileiro era tão gritante. No caminho em busca da autonomia intelectual, é preciso ter ousadia e criatividade, são muitos os riscos. Na universidade, observo gente que assumi uma perspectiva crítica para estudo de um objeto a ser analisado por ser sentir confortável, sem antes se questionar qual é a perspectiva mais adequada (ou original) no estudo do objeto-alvo, o que gera visões fragmentadas, desgastantes e pouco interessantes. Observo também amigos, de diferentes áreas das ciências humanas e sociais, que compreendem a realidade/objeto primeiro pelo viés prático, se debruçam em viagens, estatísticas oficiais e coleta de dados, ou ao contrário disso, pelo uso da teoria dissociado do empírico, leem livros e livros. No final da pesquisa, a depender dos prazos, ambos acabam apresentando o trabalho com erros comuns, pois quando o enfoque é extremamente empírico, sem referências de peso clássico ou relevância na fundamentação teórica, gerando uma confusão de contextualização teórica ou uma dificuldade de encontrar a contribuição teórica para o tipo de ciência que se faz parte; de outro lado, quando o trabalho tem maior enfoque teórico, há pesquisas que parecem mais como um cocha de retalhos ou um livro de ficção pela linguagem rebuscada, narrativa utópica e distante da realidade. Entre meus amigos professores, tenho aqueles que não possuem preocupação em estimular a criatividade na produção dos seus alunos, por disciplinados de uma maneira muito formalizada, pragmática e que tem pouca relação com o artístico, matando qualquer resquício de personalidade/criatividade na narrativa científica. Como dito, o exercício de pensar o impensável é algo que exige um duro esforço, e parte dessa destruição de frames psíquicos como algo natural para quem busca a autonomia intelectual, exigem uma boa dose de disciplina e orientação para não cair em armadilhas, o que muita gente não tem.

    • 19/04/2016 at 11:57

      A pesquisa em filosofia guarda, sempre, um parentesco com a utopia, e o empírico da filosofia são textos, livros. Nesse sentido, criar e entrar nos textos de modo diferente.

  3. VALMI PESSANHA PACHECO
    19/04/2016 at 09:48

    Prof. PAULO
    Lamentavelmente muitos ainda confundem crítica com censura. E isso foi muito reforçado nos últimos anos nas universidades, nos sindicatos e no assembleísmo reinante dos partidos políticos de esquerda, onde a predominância, e porque não dizer a hegemonia da visão marxista da História, produziu um patrulhamento que tolhia e impediu a verdadeira análise do contraditório, o exercício do pensar e assim, evitar o uso destemperado e inconsequente de sofismas, falácias e dissonâncias cognitivas fundamentadas em metáforas e metonímias ilusórias. A simples citação do “Assim falou Zaratustra” provocava, nas reuniões das quais participei, inflamados e belicosos repúdios e decisões do chamado “centralismo democrático” (veja que contradição) que me expulsaram do recinto.
    Agora, a arrogância, o descomedimento, a soberbia vieram buscar satisfações a essa forma de política partidária (politics) que sempre cegou os companheiros quanto à verdadeira Política (Policy).
    Abraços e admiração.
    Valmi Pessanha

  4. Orquideia
    18/04/2016 at 23:23

    Hã…
    essa prática que o sr.descreveu é boa,mas desequilibrante.
    O aspirante precisa ter estrutura. [rs…

    • 19/04/2016 at 06:18

      Sim, por isso mestrado e doutorado são considerados etapas de formação. O problema é que, nessa formação, às vezes sai uma formatação.

  5. 18/04/2016 at 23:16

    Gostei!

  6. Ismael
    18/04/2016 at 18:01

    Professor Paulo, obrigado por essas dicas maravilhosas. Sou universitário, e espero poder produzir algo assim, com esse meio de pensar… Obrigado novamente.
    Ps. Acompanhando.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *