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27/06/2017

Ser ou ter? Não! (A)parecer! (a partir de Calligaris)


A ideia do “ter” que substitui o “ser” tomou conta do senso comum. Talvez a psicanálise tenha lá sua responsabilidade nisso e, então, Contardo Calligaris seja aquele que deva sofrer, na Folha de S. Paulo, com esse tema imposto pelos leitores. Os leitores podem não saber de onde vem essa ideia, mas certamente ela adquiriu certo status intelectual por conta dos sixties, que desembocou em tantas coisas e, enfim, também em Erich Fromm, que em 1976 publicou um livro com o título Ter ou ser? Título infeliz, uma vez que joga para as pessoas preguiçosas – que não são poucas – a prática de sair falando sobre o que não leram, e com autoridade. Expressões assim fazem muitos apostarem que o autor está dizendo algo que elas também dizem, até antes que ele! Mas, se o título era para ajudar a vender, acertou.

Como é de costume, Calligaris se sai bem ao tratar de um tema. No artigo em questão (“Ter mais e ter menos”, Folha, 28/05/2015) ele lembra que a questão do “ter” é antes de tudo, também, uma questão do ostentar. Eu diria: antes aparecer que ser ou ter. Aí sim o assunto escapa do senso comum, ainda que já esteja na beira de voltar a ele. Pois também a expressão “sociedade do espetáculo”, que pode ser a base para analisarmos o “ostentar”, caminha pela mesma trilha da “ter ou ser”. O autor dessa expressão também a usou como título de livro, e hoje ela virou um jargão como o de Erich Fromm, e às vezes até aparecem juntas. Refiro-me a Guy Debord, com seu livro de onze anos antes, Sociedade do espetáculo de 1967.

Tenho evitado essa conversa de “ter ou ser” e, de certo modo, atém mesmo de “sociedade do espetáculo”, exatamente para não alimentar os jargões do senso comum. Todavia, hoje criei coragem e resolvi por algumas cartas na mesa, por dever de filósofo e, é claro, pela motivação do artigo de Calligaris. O que se pode realmente aproveitar dessa questão para a descrição de nossos tempos?

É o próprio Guy Debord quem diz que nossa sociedade foi do ser para o ter e deste para o aparecer.[1] A “sociedade do espetáculo”, para ele, é aquela que esbanja representações, substitui a vida vivida pelo tato pela vida vivida pelos olhos (que podem ter participação dos ouvidos, nada contra!).[2] “Considerado segundo os seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência”.[3] Com isso, Debord traça uma espécie de ontologia do contemporâneo e expõe o que seria a axiologia dessa época: “O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que ‘o que aparece é bom, o que é bom aparece’. E ele continua: “a atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência”.[4]

O que Debord chama de “sociedade do espetáculo” depende de sua compreensão da sociedade contemporânea a partir de uma determinada leitura de Marx, a que vê “a Terra como um mercado mundial”.[5] Assim, a mercadorização tornada universal é a responsável pela sociedade regida pelo que é “para ver”, ou melhor, para assistir, e, nesse sentido, o que é o “espetáculo”. Sendo assim, a “sociedade do espetáculo”, como Debord diz, é uma “sociedade espetaculista”[6]. Esse espectaculismo é a própria essência dessa sociedade, e realiza a produção e proliferação de imagens que consumimos, que nos dá de volta a vida para vermos, mas a reordenada segundo uma disposição que não é a nossa, não é a de ninguém em particular, mas é aquela imposta pelo modo como organizamos a produção atual. Ele diz:

“O espetáculo, compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. Ele não é um suplemento ao mundo real, a sua decoração readicionada. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação omnipresente da escolha já feita na produção, e o seu corolário o consumo”.[7]

Até aí estamos mais ou menos no fenomênico, na descrição do que pode ser a “sociedade do espetáculo”. Faz-se necessário, então, saber o que ocorre nessa sociedade que a torna boa de funcionamento. Afinal, espetáculo praticamente sempre existiu, o que nos mostra, no passado, a vigência de sociedade com espetáculo, mas a sociedade contemporânea é, nessa abordagem aqui, seguindo Debord, uma “sociedade do espetáculo”, o que é diferente. Trata-se de ver aqui como chegamos a uma sociedade em que as imagens, forjadas por conta da sociedade ser uma sociedade de mercado, se tornaram o elemento de mediação entre as pessoas. Trata-se entender por que se pode falar que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.[8]

Para Debord, a mercadorização gera um conjunto de imagens que impregnam a mídia (que, por sua vez, não é instrumento neutro, mas nasce nesse contexto e para essa função), conformando-nos em expectadores do reforço da separação que ocorre no mundo da produção capitalista. Eis a sua exposição:

A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que as apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o espetáculo está em toda a parte. (grifo meu)[9]

Caímos como que separados do que produzimos, isto é, somos “alienados” do que fazemos em nosso trabalho, nossa obra, e tal obra ou produto ou objeto reaparece para nós como que um milagre da autoprodução, que é propriamente essa feição que ganha ao se tornar propriamente mercadoria. Essa separação é o que outros teóricos e o próprio Marx apontaram como o que se liga ao “fetichismo da mercadoria”.[10] Por tal expressão o marxismo quis apontar para a capacidade da mercadoria de passar de elemento morto da relação sujeito-objeto para a condição de vivo, ou de se por como o vivo e nos fazer observar sua dança. Nessa situação, a mercadoria realiza sua então aquisição da posição de sujeito, nos transformando em objeto – e eis aí nossa “reificação” (o contraponto da fetichização). Produzimos sob o tação da separação, que nos tira da visão geral e nos devolve o que criamos parcialmente, mas então unificado em mercadoria, que nos incita não só ao consumo, mas que nos faz cair, pela imagem, aos pés do morto que se torna vivo. Eis o espetáculo. Somos presos pela imagem no sentido de admirar nossa criação – carro, casa, joias, brinquedos, pacote de férias, sexo fácil, capacidade de domínio etc. – e nos submetermos a ela como algo que é exterior, que sempre teve vida própria, que nunca foi nosso, e que nos torna humanos não pelo consumo, que nem sempre podemos realizar, mas pela maneira como as mostramos, pela forma como as tomamos como companhias, pela maneira que elas se mostram e alimentam o mundo das imagens. Nesse sentido, se nós somos objetos (pela reificação), então começamos a agir como os objetos agem (no fetichismo). Ou seja, queremos sair da condição de coisas mortas e passarmos a coisas vivas. Esquecemos que já somos os vivos e pegamos, para tal projeto de aquisição da vida, o caminho da mercadoria. Passamos a produzir imagens para ficarmos como protagonistas nessas imagens. Ou melhor, ficarmos como coadjuvantes (há prêmio de Oscar para o melhor coadjuvante, claro!). Não à toa, nos colocamos nos selfies, em geral, junto das mercadorias, mesmo que não as compremos. Aliás, mesmo que as compremos, o selfie indica que elas são os vivos e que, se estivermos com elas, sendo objetos iguais, pareceremos como vivos, como sujeitos – sujeitos coadjuvantes. Fazemos selfies e mais selfies ao lado do que, de alguma forma, é mercadoria (ou algo que representa uma, quando tiramos selfies com celebridades ou quando fazemos selfies só de nós mesmos, mas nos pondo à venda, ao consumo – as moças não são narcisistas!). Tornamo-nos produtores de imagens não como sujeitos, mas como objetos que se comportam como sujeitos, objetos fetichizados. Fazíamos isso com a TV, de forma coletiva, agora, pela nova mídia, pela Internet, cada um de nós individualmente faz sua TV. Estamos imersos no espetáculo, estamos em nossa realidade que, enfim, mostra o irreal – toma o próprio irreal como o nosso real. Estamos na “sociedade do espetáculo”. Aqui, vale o aparecer, ou melhor, o parecer aparecendo.

Debord faleceu em 1994, não viu a Internet e as redes sociais e os celulares de agora, em que produzimos as imagens de tudo que consumimos no ato do consumo, que pode ser simplesmente o consumo de outro, ou o potencial consumo ou o mesmo a companhia do que parecer ser o objeto de consumo. Nesse afã é que o ser não passa pelo ter, mas pelo aparecer, e de maneira agora instantânea. Produzir a imagem nesse esquema não nos tira da condição passiva. Apenas nos joga para o hiperativismo e o interacionismo falso, de modo a acharmos que agora somos mais partícipes da vida, já que produtores de imagem, e não só receptores.

Mais importante que que ter para então ser, é aparecer para então ser. Ou melhor, mais importante é aparecer, tão somente.

Paulo Ghiraldelli Jr. 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

[1] Debord, G. La société du spectacle. Paris: Les Éditions Gallimard, 1992, § 17.

[2] Idem, ibidem, § 18.

[3] Idem, ibidem, § 10.

[4] Idem, ibidem, § 12.

[5] Idem, ibidem, § 39.

[6] Idem, ibidem, § 14.

[7] Idem, ibidem, § 6.

[8] Idem, ibidem, § 4.

[9] Idem, ibidem, § 30.

[10] Ver: Marx, K. O fetichismo da mercadoria: seu segredo. In: O capital – crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Difel, 1982, pp. 79-93.

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6 Responses “Ser ou ter? Não! (A)parecer! (a partir de Calligaris)”

  1. Ivandro
    06/06/2015 at 15:05

    Professor que dizer que á mercadoria nós faz de mercadoria,
    no momento que queremos ser desejados? Que as selfies são uma escravização moderna, transformando assim o ser em
    um espetáculo ambulante.

    • ghiraldelli
      07/06/2015 at 07:41

      Não! Nós vendemos a força de trabalho como outra mercadoria qualquer. O consumo é outra coisa, nessa hora somos parte do espetáculo.

  2. Mario Luis
    30/05/2015 at 01:08

    Levanto a questão do em si da imagem como elemento alternativo à análise do texto.

  3. Mario Luis
    30/05/2015 at 00:25

    Proponho aqui uma discussão acerca do em si da imagem como elemento lacunar que subjaz à ausência de uma metafísica no pensar do homem moderno: O decair do pensar como preconceito à metafísica!

    • ghiraldelli
      30/05/2015 at 08:30

      Não gostou da tentativa da mãe fazer o selfie? Ou você invocou por conta de moralismo barato de imbecil?

    • ghiraldelli
      30/05/2015 at 08:31

      Mário, deixa de bobagem cara.

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