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21/08/2017

Qual o sentido da vida?


Minha caixa do Facebook se abre e lá aparece um rapaz (nunca uma moça, nesse caso): “qual o sentido da vida?”, ele pergunta. É claro que no primeiro impulso todo filósofo gostaria de dizer: “nenhum”. Filósofo que é filósofo não perde a chance de constranger um jovem. Todavia, às vezes tento contar até vinte, de modo a poder dar uma resposta antes de professor que de filósofo. No Brasil de hoje, talvez alguns precisem mais de professores que de filósofos.

O sentido da vida, para nós, filósofos contemporâneos, não é diferente do sentido da vida vislumbrado por todos os intelectuais que abandonaram Platão e Hegel. A vida não está presa ao sentido do cosmos ou do mundo. A região das Ideias ou das Formas, que põe o mundo acima de nós, ou o Espírito, que produz o mundo junto conosco, esses dois tipos de realismo criados por Platão e Hegel (sim, há toda uma bibliografia de língua francesa e alemã que os trata como idealistas, eu sei – isso não muda nada), não têm muitos adeptos entre nós. Preferimos dizer que o mundo não tem qualquer sentido inerente e que, portanto, a vida deve ser interpretada como a nossa vida individual, e a esta temos que dar, nós mesmos, um sentido. Que cada um de nós levante de manhã e se comporte como o animal prenhe de semântica que, enfim, é o que somos.

Muitas pessoas pensam que fazem isso, mas apenas escamoteiam o platonismo e/ou o hegelianismo que nelas está embutido, mas sem qualquer filosofia e, sim, como mero senso comum, talvez o pior de todo o senso comum já visto. Ou seja, boa parte de nós quer encontrar em um algum ponto o Real, e então moldar sua vida segundo tal Realidade. Deus, cidade, nação, pátria, partido, clã, time de futebol, vingança, “biologia”, mulher pelada, nosso “eu” etc. – há dezenas de elementos que imaginamos que não foram criados por nós e que podemos acreditar que são o Real. Ora, se são o Real, e então detém os valores que exigimos que sejam perenes. Acreditando nisso, podemos denomina-los de “verdadeiros” e, com tal axiologia pronta nas mãos, fundamos uma ética e uma moral. Ótimo! Acreditamo-nos como humanos dignos  do mundo.

A proposta da filosofia contemporânea, que eu endosso, é um pouco mais ousada. O mundo não tem sentido, e cada um de nós põe o sentido que quer nele. Mas, para falarmos aí em querer, temos de admitir algo um tanto simples: que o nosso querer é delineado a partir de uma geografia e uma história, e o máximo que podemos fazer quanto a isso, em sentido de ganhar liberdade, é reconhecer tal coisa ao notarmos de modo inteligente outras geografias e outras histórias. Ou atravessamos nosso tempo e lugar para então voltar a ele, ou teremos pouco a acrescentar no “sentido da vida” que pomos para nós além do que aquele que outros já puseram para nós.

Na linguagem de Sloterdijk: temos de construir novamente e sempre mais uma vez nossa esfera, exibir nossos dotes de “designer de interiores”, repor as promessas de nossas mães de que “tudo vai ficar bem”, que assumimos como nossas mesmas como autopromessa, e então ir adiante. Na linguagem de Rorty: temos de ser etnocêntricos críticos, ou seja, criar valores sabendo que os nossos valores dados pela nossa geografia e nossa história contém muita coisa que não conseguiremos abrir mão. Na minha linguagem: temos de atravessar a soleira da casa de nossos pais, colocar uma perna para fora levando nosso cérebro para longe, mas voltando sempre, e isso temos que fazer na oração. Ter a capacidade de dar sentido a vida é exatamente esse esforço, concomitante ao esforço de saber rezar.  A oração (1) nada é senão a volta para a casa, em pensamento, onde nossos antepassados se manifestam como deuses. Quando na oração falamos “pai”, não raro estamos chamando nosso pai terrestre ou parente equivalente, pedindo a ele que nos reponha os valores de casa, que nos dê algo familiar no mundo estranho, e que com isso possamos colocar algum vetor nosso nesse mundo.

Quem não sabe rezar dificilmente consegue colocar um sentido para a vida. Mas quem sabe rezar porque aprendeu nas igrejas, nunca terá sentido algum posto por si mesmo, só um sentido parcial, que se faz total, o sentido do dinheiro. Mas o dinheiro, sabemos bem, é mais um dos elementos que não têm sentido, é coisa de pastor.

(1) Sobre a oração, ver: Ghiraldelli, P. Filosofia, amores e companhia. São Paulo-Barueri: Manole, 2010.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Gravura:

Vincent van Gogh, 1883, Homem Rezando

Vincent van Gogh, 1883, Homem Rezando

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4 Responses “Qual o sentido da vida?”

  1. Cleusa
    05/04/2016 at 12:08

    Para mim é .
    Ser um SER em essência ,consciência para ter percepção de nunca ficar longe de si mesmo em evolução e questionamentos por verdades para viver a vida compartilhando e ajudando na educação de outros com o sentido que dá para sua própria vida ,na evolução de si e do universo .

  2. 13/03/2016 at 12:11

    Excelente texto, no entanto a resposta é muito simples…

    “Qual o sentido da vida?”
    Resposta: O pensamento.

    Nós somos de certa forma, projetados para pensar, tudo que foi criado pelo homem teve sua origem em um pensamento…
    Sem pensar, não teriamos questionamentos,respostas,divergencias ou até mesmo vontade de desistir de tudo e dar um ponto final em nossa existencia.

    Então, sem a capacidade de pensar, não teriamos sentido de viver,quiça existir como especie…

  3. Guilherme Gouvêa Picolo
    21/05/2015 at 09:58

    Muito bom o texto. Recomendo sobre o tema o filme “Un cuento chino” com o seu sósia Ricardo Darin. Não oferece nenhuma resposta sobre o ponto de vista filosófico, mas ventila bem as perguntas.

    O trailer está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=K5lTnxBl-OE

    • ghiraldelli
      21/05/2015 at 10:13

      Sim, é um dos melhores, mas dizer de um filme argentino que ele é bom virou um truísmo.

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