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25/07/2017

O senso comum e a filosofia – uma breve distinção


“Como pode esse cachorro tão grande ser tão dócil” – foi assim que uma senhora se referiu ao Pitoko, meu filho peludo, quando ele se colocou à disposição de seus afagos e às provocações do Bacuri, seu pequeno e ranheta poodle.

Qual a noção de “dócil”? Um cão é dócil do mesmo modo que um humano é dócil. Essa é a noção da maioria, a do senso comum. Funciona assim: o cão que não rosna e não morde de imediato é o dócil, igual ao humano que não grita e não retruca de imediato. A diferença é que o cão não fica, na sua docilidade, escondendo uma intenção de ir fazendo o mal enquanto não rosna, e o humano sim.

Os humanos são dóceis se matam por meio de injeção letal ou descuido ou quando prejudicam alguém cruelmente, mas com polidez. Assim, um cão polido é dócil. Um cão espoleta é um cão mau.

É incrível que exista aí uma esquizofrenia na avaliação. Ao mesmo tempo em que nós, modernos ocidentais, julgamos tudo pela intenção, graças ao cristianismo e ao caminho da subjetivação seguida na modernidade, avaliamos tudo também por critérios visíveis, de observação comportamental superficial. Assim, o critério para avaliar o cão serve como critério para avaliar os humanos, mesmo que isso seja contrário à ideia, também aceita pela nossa legislação criminal, a respeito de se descobrir sempre a intenção.

Em filosofia dizemos que essas perspectivas são as de primeira e terceira pessoas. Juízos de primeira pessoa são os que fazemos sobre nós mesmos a partir de nós mesmos. Utilizamos aí a introspecção. Juízos de terceira pessoa são os que fazemos olhando alguém agindo sobre outro alguém ou conversando etc. Utilizamos aí a observação direta. Para a filosofia moderna o primeiro juízo é tido como o propriamente filosófico, em acordo com Descartes. O segundo juízo seria o da ciência, que sempre age de modo a observar e provocar a experimentação. No entanto, os filósofos aprenderam já há algum tempo que juízos de primeira pessoa devem ser combinados com juízos de terceira pessoa para produzirmos narrativas melhores.

Narrativas melhores são as narrativas que nos informam de maneira mais rica sobre o que queremos descrever e conhecer. Mais detalhes e mais possibilidades de significação é o que pedimos para as descrições e redescrições.

Mas o senso comum é o senso comum, e não a atividade filosófica, exatamente porque não pensa a partir desses critérios. Ele pensa de modo a conviver com o que faz com o cachorro como sendo o mesmo que faz com o homem, e ao mesmo tempo como não sendo. Essa maneira de agir o faz não poder descrever nem o cão e nem a si mesmo. O senso comum não é burro, ele é confuso. A filosofia não pode se confusa, mesmo se for complexa.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor entre outros de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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One Response “O senso comum e a filosofia – uma breve distinção”

  1. LUiz Antonio
    19/07/2014 at 16:25

    Excelente.

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