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11/12/2018

Sem o coelho, Karl Marx foi na onda da Escola Sem Partido


MAIS detalhes filosóficos sobre o Escola Sem Partido.

Você pode dizer a sentença (A) “2 + 2 = 4” como um enunciado verdadeiro imutável e dizer que a sentença (B) “a escravidão é um crime” como um enunciado verdadeiro mutável. Poder, você pode. Mas quando for tentar mostrar que esses enunciados são de ordens diferentes e, então, por isso o primeiro é absoluto e o segundo relativo, sua argumentação irá se ampliando, ampliando, ampliando e então perceberá que, talvez, isso não seja tão fácil. Talvez até mesmo impossível!

Todavia, essa dificuldade não é testada pelo senso comum. Esse dificuldade é testada pela filosofia. As pessoas sem formação e treinamento filosófico, as do senso comum, ainda que escolarizadas em nível médio, tenderão a dizer que a sentença (A) é de natureza diferente da sentença (B). E que isso é mostrável segundo o fato  de que a primeira “sempre é assim”, nada pode desmenti-la, enquanto que a segunda “é verdadeira dependendo da geografia e do espaço”, ou seja, “culturalmente relativa”. Assim, quando enunciamos (B) podemos agregar a ela um juízo de valor, achar boa ou não, enquanto que quando enunciamos (A) não cabe agregar nenhum juízo de valor, não cabe achar que se trata de um bom enunciado ou um mal enunciado. Esse senso comum, então, diz que se a escola ensinar enunciados do tipo (A) ela poderá transmitir conhecimentos objetivos e neutros, e que enunciados do tipo (B), pela sua relatividade cultural e política, podem ter lá sua objetividade, mas não neutralidade. Karl Marx acreditou nessa fórmula do senso comum e assim requisitou que fosse (veja aqui).

Mas não só Karl Marx acreditou nisso. Muita gente boa, depois dele, também. O positivismo do século de Marx enganchou em outros projetos positivistas do século XX. No caso do chamado positivismo lógico, o que se advogou é que talvez quase todo enunciado pudesse ser reduzido a enunciados lógicos que seriam isomorfos ao que é o mundo, desse modo uma determinada linguagem lógica espelharia muito bem o mundo. Alguns disseram, então, que se tal linguagem lógica não pudesse absorver enunciados do tipo de (B), estes ficariam no campo “interpretativo” ou “poético” ou “motivacional” ou, enfim, no campo ético. Mas isso não influenciaria em nada a conclusão da existência de saberes, vindos em enunciados, capazes de espelharem o mundo e, então, nessa função, terem o caráter de coisa absoluta, eterna, como o 2 + 2 = 4.

Essa festa, ou seja, essa crença de Marx, própria do século XIX e dos positivistas lógicos do século XX, acabou por meio de um tiro só. A chamada experiência do coelho de Quine. Foi esse o tiro. Depois daí, abriu-se a porteira para bandoleiros de todo tipo, que fizeram a farra atirando para todo lado: o “segundo” Wittgenstein, Dewey, Davidson, Rorty, Derrida, Foucault … Foi uma revolução. Uns chamaram isso de filosofia contemporânea segundo seu grupo mais forte, outros simplesmente resolveram chamar filósofos desse tipo como sendo “relativistas” e “pós-modernos”. Mas, enfim, o que foi a conclusão da experiência do coelho de Quine?

Quine disse que o segredo da redução de uma linguagem a outra era o de fazer uma tradução. Uma linguagem é possível de substituir outra se é a tradução correta de outra. Logo em seguida mostrou que não chegaríamos a uma única tradução, mas, no mínimo a três, e daí para frente não saberíamos mais qual seria a correta. As três, no limite, sempre serviriam. Assim, toda e qualquer linguagem que fosse reduzida a uma linguagem lógica capaz de espelhar o mundo, ou parte dele, nunca produziria uma tradução correta, mas três, no mínimo. Em maiores detalhes, mas ainda assim num campo didático, mostrei a experiência no livro A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014). Para o que quero aqui, isso já basta. Ou seja, posso lembrar que a partir de Quine, a tradução fiel nunca mais conseguiu ser pensada, que tudo passou a ser algo interpretativo. Assim, mesmo com enunciados do tipo “2 + 2= 4” o correto seria não falar em caráter absoluto e deixar o caráter relativo para o enunciado “A escravidão é um crime”. Deveríamos, sim, dizer o seguinte: o enunciado (A) nos dá menos trabalho de sustentação e manutenção do que o enunciado (B). Os enunciados ganhariam graus de sustentabilidade, e deixariam de diferir de natureza. Foi assim que a objetividade e a neutralidade do conhecimento ganhou, ao menos filosoficamente e, portanto, como informação para os homens de ciência, uma completa reconceituação. Nunca mais saímos da era Quine, ao menos até agora.

Todavia, o senso comum não mudou. Muitos ficaram junto de Karl Marx, lá no século XIX (ou com os positivistas lógicos do século XX), acreditando que, no limite, até seria melhor tirar das escola disciplinas (ou conteúdos, tanto  faz) interpretativas, dado que elas poderiam ser ensinadas de modo pouco interessante para os jovens, caso seus professores tivessem alguma intenção doutrinária. Ou seja, o senso comum ficou com a ideia de que a aspiração da “escola sem partido”, um dia solicitada por Marx, tivesse alguma razão de ser. Mas, segundo Quine, não tem (politicamente Quine não era de esquerda, muito pelo contrário!).

A direita e a esquerda que discutem o projeto de lei “Escola sem Partido”, no Brasil de hoje, não conseguem argumentar, e isso por que estão aquém dessa conversa epistemológica que expus. Ficam nas mãos de professores que nada sabem disso. Tentam argumentar e falam coisas facilmente derrubáveis de ambos os lados, e não ampliam de modo culto o debate.

A direita quer fazer a liberdade entrar na sala de aula por meio de alguma polícia, que vai proibir professores de dizerem certas coisas, como se isso fosse possível e ao mesmo tempo necessário. A esquerda diz, em troca, que a direita não pode livrar a escola da política porque “tudo é ideológico” e “tudo é político”. Ora, ela não sabe da conclusão de Quine, que diz que tudo é interpretativo, mas que dizer isso não equivale a dizer que tudo é ideológico e que “tudo é político”. Juízos estéticos e morais não são juízos intelectuais. Ninguém vai achar que “a flor rosa cheira bem” é um enunciado que tem a ver com a política! Desse modo, sem saber o que fazer diante do positivismo razoável do senso comum, e de Marx, a esquerda fica por aí procurando gurus midiáticos para lhes dar um recado sobre “o que fazer”. E os tais gurus dão palavras de ordem. E meu Deus! como a esquerda gosta de palavras de ordem de seus gurus e chefetes! Gosta de tal maneira que até parece a direita.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 21/07/2016

Mais artigo com vídeo: A escola não pode ser neutra? Como não?

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9 Responses “Sem o coelho, Karl Marx foi na onda da Escola Sem Partido”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    22/07/2016 at 13:57

    Prof Paulo
    Com todo o respeito, no tempo de Marx as variáveis Capital X Trabalho na produção das “coisas”foram simplificadas para enfatizar a importância do esforço humano e assim valorar a “mais valia” (a exploração do homem pelo homem e a reificação). Na complexidade dos meios de produção atuais, outros fatores, além do capital e do próprio esforço de trabalho, influenciam, decisivamente, no custo e valor dos bens produzidos, tais como insumos, energia, depreciação dos equipamentos, salários e encargos sociais, tributação e EBTIDA, participação nos lucros e marketing, apenas para citar algumas dificuldades que hoje o genial pensador teria, mesmo que ainda fosse sustentado por Engels.

    • 22/07/2016 at 14:56

      Valmi não entendi o que quer com isso. Não escrevi sobre isso. E veio um cara com uma questão sobre mais valia, eu vi, e eu lhe disse que o exemplo de Marx não era aplicável, e não é mesmo. O conceito de mais valia não é matematizável de forma operacional.

  2. Franco
    21/07/2016 at 12:26

    “Ninguém vai achar que “a flor rosa cheira bem” é um enunciado que tem a ver com a política!”

    Se, segundo Quine, “tudo é interpretativo” a frase acima poderia ser interpretada como a contrasenha de algum cripto-social-democrata.

    • 21/07/2016 at 12:40

      Franco o texto é simples e eu achava que dava para entender. Mas vejo que há coisas que realmente, mesmo num nível simples, atrapalham. Tudo é interpretativo não significa a comunicação não é possível e muito menos significa que a estética pode ser reduzida à ètica ou vice versa. Justamente o contrário. O que Quine mostrou é que a redução das linguagens a uma única linguagem é impossível, sobra sempre no mínimo três situações de não redução. Vá ao livrinho indicado no texto.

    • Franco
      21/07/2016 at 14:39

      Professor de matemática: “Como vimos na aula anterior, 2+2=4. Por exemplo: se um operário recebe $2 pelo trabalho no começo da jornada e a mercadoria produzida é vendida a $4, qual é a mais-valia auferida pelo dono da fábrica? Bem, temos 2+x=4, mas x=2 é a única solução pois 2+2=4. Logo a mais-valia é igual a $2.”

      Mesmo ensinando matemática, isso seria possível em uma Escola-sem-Partido? Porque?

    • 21/07/2016 at 19:17

      Há dois problemas Franco: não existe cálculo de mais valia, é um conceito não operável em termos financeiros e, no caso seu aí, o conceito está errado. Em segundo lugar, no final da sentença o “Porque?” está errado.

    • Franco
      21/07/2016 at 21:46

      É só um exemplo simples, no mesmo espírito que esse:

      Se 10 quilos de algodão absorvem 6 horas de trabalho e se transformam em 10 quilos de fio, 20 quilos de algodão absorverão 12 horas de trabalho e se converterão em 20 quilos de fio. Examinemos o produto do processo de trabalho prolongado. Nos 20 quilos de fio estão materializados agora 5 dias de trabalho, dos quais 4 no algodão e na porção consumida do fuso, e 1 absorvido pelo algodão durante a fiação. A expressão em ouro de 5 dias de trabalho é 30 xelins. Este é o preço de 20 quilos de fio. 1 quilo de fio custa agora, como dantes, 1 xelim e 6 pence. Mas a soma dos valores das mercadorias lançadas no processo importa em 27 xelins. O valor do fio é de 30 xelins. O valor do produto ultrapassa de 1/9 o valor antecipado para sua produção. Desse modo, 27 xelins se transformaram em 30 xelins. Criou-se uma mais valia de 3 xelins.

      reproduzido daqui:

      https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/vol1cap07.htm

      No segundo caso, certamente errei, embora grammatica falsa non vitiat instrumentum.

    • 21/07/2016 at 22:46

      O exemplo de Marx não é operacionalizável, é hipotético, o conceito de Mais Valia só se verifica no âmbito global da mais valia. Acho que você não está entendendo o que está lendo. Agora, se você acha que por conta da palavra “mais valia” há aí alguma doutrinação em matemática, você será motivo de riso, tanto quanto um professor que vier a dar esse exemplo. Ainda mais atualmente, no momento que os alunos mais inteligentes, mesmo no ensino médio, riem de professores de gostam desse tipo de doutrinação burra. Agora, se o projeto de Lei for implantado, como ele é burro, ele atrairá o aluno burro para colocar o professor em saia justa. Resumindo: escola é lugar dos clássicos, mas os clássicos precisam ser dados por professores bem formados que não façam algo burro. Para tal, é preciso liberdade em sala de aula e salário bom no bolso do professor.

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