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22/09/2017

Safranski e Rousseau: o episódio da moça sem o bico do seio


Namorei uma moça com um dos seios sem o bico. Comecei o namoro com dezessete anos, ela com treze, e isso durou uns cinco anos. Meia década de namoro e … nada de bico. Um dos seios era lindo. O outro, confesso, nem tanto. No conjunto, formavam um rosto peitoral caolho. Eu gostava. Aquilo não me trazia nenhum problema. Aliás, tanto é verdade que só vim saber que aquilo poderia ser um problema bem mais tarde, quando li As confissões de Rousseau (o capítulo VII) e, então, tomei conhecimento de que o filósofo genebrino havia passado por uma experiência parecida, e reagiu mal.

Rousseau conta que brincava com a moça e no ápice dos afazeres sexuais, na hora do desfalecimento, viu o que o estava incomodando até então: notou que faltava um bico num dos seios. Parou e demonstrou certo impasse. Chorou. A moça tentou confortá-lo, mas quando percebeu do que se tratava, levantou e foi à janela. Ele foi também para a janela, para ficar ao seu lado e tentar arrumar a situação constrangedora que criou. Mas ela foi direta ao ponto com uma boa resposta: esqueça essa coisa de mulher e vá estudar matemática.

Parece um episódio banal esse. Hilário mas, enfim, banal. Todavia, para o historiador e filósofo alemão Rüdiger Safranski, essa experiência e bem significativa a respeito de Rousseau. Do modo que eu a vejo, ela também colabora no entendimento da modernidade, que compartilho com outro filósofo alemão, Peter Sloterdijk, e que por sinal também aborda Rousseau (em especial em livro que comentarei em outro texto, Streß und Freiheit) de um modo especial.

Investigando seu eu, Rousseau, como Safranski mostra (capítulo nove de O mal e o drama da liberdade), nota a descontinuidade que, enfim, todos nós também podemos notar quando nos observamos. Somos múltiplos, desempenhamos vários papéis. Então, se é para encontrarmos alguma coisa confiável em nós, temos de procurar algo que esteja na paz, em uma certa tranquilidade originária. Safranski nota aqui a proximidade de Rousseau com a fórmula de Pascal: a desgraça do homem é não conseguir ficar em sua cadeira, sem nada fazer. Ele diz que Rousseau busca um certo retorno à quietude, e faz isso por três meios: a vivência expansiva, a vivência retrativa e a vivência do puro acontecer.

A primeira pode ser uma solidão na floresta de modo a uma igualação à natureza; a segunda é uma fuga para o interior, de modo a encontrar a natureza dentro de si; a terceira é o estado de quase irreconhecimento do eu – Safranski retoma aqui a experiência de Rousseau (relatada em Os devaneios do caminhante solitário) que, derrubado por um enorme cão, é acordado sangrando por transeuntes e, então, vive a experiência de nada sentir, de quase semi-reconhecimento, de saber-se ser o que pode narrar tudo aquilo mas, enfim, sem parecer estar ali como o herói do drama. Em todos esses casos, a ideia básica é a fuga dos papeis sociais, do eu que, enfim, é social. Nesse sentido, a comunicação mediada é condenada.  A comunicação pura, o amor, se dá antes que o eu deixe de ser apenas uma voz que relata. Caso o eu se estabeleça socialmente, então entre o eu e o tu acontece a comunicação não puramente espiritual e, desse modo, as divergências que inviabilizam o que teria de ser a comunicação. Por isso a comunicação em que há o corpo é insatisfatória. Ou ainda, ela impede o sonho que poderia se dar no gozo com o outro. O corpo nos tira do irreal em que teríamos de estar para o gozo. Ele é algo de monstruoso que, no episódio de enamoramento com a garota com o seio falhado se faz notar. Ou seja, a unidade com o outro, o perder-se no outro, foi evitado pelo corpo. O corpo é o intransponível. E o objetivo da felicidade seria a unidade, o ultrapassamento do limite. A luz do eu não poderia atravessar o outro sem refração e, então, essa refração mostra o limite que Rousseau quer transpor.

Por isso mesmo, quando Rousseau encontra a possibilidade de conseguir essa unidade, isso surge por meio do que tanto Safranski quanto Sloterdijk avaliam como uma solução perigosa: a “vontade geral”, como aparece no Contrato social. Trata-se da melhor maneira de se ter o estado-nação, para Rousseau. Uma forma de pular a barreira do corpo e criar a fusão do querer.

A vontade geral não é a vontade de todos e não é uma instância superior, em estilo kantiano. A vontade geral é a vontade de cada um no que este observa o bem comum. É o voto de cada um não no sentido de interesse ao que é exclusivamente particular ou de grupo, mas no sentido do que é o bem comum. É um voto que não depende do resultado para fazer o melhor, como seria a mão invisível do mercado smithiano, mas um voto que já no ponto de partida é o melhor voto, pois consciente e informado, e voltado para a aprovação do conteúdo do que é o bem comum. Desse modo, a vontade geral é uma forma de fusão dos eus no comum. É a garantia da prosperidade do sistema de uma comunidade que funciona em acordo com si mesma e com os indivíduos. É uma unidade entre indivíduo e nação. Mas é, também, o fim apriorístico das divergências. Assim, tanto para Safrankski quanto para Sloterdijk, aí está a base de unidades perigosas que de Robespierre aos nacionalismos belicosos à esquerda e à direita, no século XX, tornaram o mundo algo nada bom.

Quanto teria sido melhor se Rousseau não fosse aquele que pudesse se contrariar com o peito sem bico. Mas, se assim fosse, Rousseau não seria Rousseau. Rousseau, no limite, era o matemático afeito a uniões abstratas, a fusões do que não tem corpo ou carne. Sabemos o quanto essas fusões, especialmente quando lembramos da ideia de Vontade Geral, nos foram caras e perigosas.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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5 Responses “Safranski e Rousseau: o episódio da moça sem o bico do seio”

  1. Rafa
    20/01/2016 at 22:35

    Ghiradelli, infelizmente fazia tempo que não lia nada seu.

    É bem possível que não saiba, mas hoje em dia há uma maneira de encontrar a unidade: jogos eletrônicos, seja no modo online ou single player.

    • 20/01/2016 at 22:41

      Rafa, é claro que isso, para Rousseau, é máscara social e não unidade originária que ele procura. O texto tá meio rápido, por isso você não pegou a ideia. Mas é texto de blog. Logo faço algo mais amplo.

    • 20/01/2016 at 22:41

      Rafa, é claro que isso, para Rousseau, seria mais uma máscara social, mais um eu que se afastou do eu originário, e não unidade originária que ele procura. O texto tá meio rápido, por isso você não pegou a ideia. Mas é texto de blog. Logo faço algo mais amplo.

  2. Rousseau
    19/01/2016 at 19:03

    Bicho, você é completamente doente. No fundo você deve desconfiar disso.

    • 19/01/2016 at 19:54

      Sunda, o fato de você não entender a argumentação do Safranski não é culpa minha nem doença minha.

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