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27/05/2017

Safranski e Rousseau: o episódio da moça sem o bico do seio


Namorei uma moça com um dos seios sem o bico. Comecei o namoro com dezessete anos, ela com treze, e isso durou uns cinco anos. Meia década de namoro e … nada de bico. Um dos seios era lindo. O outro, confesso, nem tanto. No conjunto, formavam um rosto peitoral caolho. Eu gostava. Aquilo não me trazia nenhum problema. Aliás, tanto é verdade que só vim saber que aquilo poderia ser um problema, bem mais tarde, quando li As confissões de Rousseau (o capítulo VII) e, então, tomei conhecimento de que o filósofo genebrino havia passado por uma experiência parecida, e reagiu mal.

Rousseau conta que brincava com a moça e no ápice dos afazeres sexuais, na hora do desfalecimento, viu o que o estava incomodando até então: notou que faltava um bico num dos seios. Parou e demonstrou certo impasse. Chorou. A moça tentou confortá-lo, mas quando percebeu do que se tratava, levantou e foi à janela. Ele foi também para a janela, para ficar ao seu lado e tentar arrumar a situação. Mas ela foi direta ao ponto com uma boa resposta: esqueça essa coisa de mulher e vá estudar matemática.

Parece um episódio banal esse. Hilário mas, enfim, banal. Todavia, para o historiador e filósofo alemão Rüdiger Safranski, essa experiência e bem significativa a respeito de Rousseau. Do modo que eu a vejo, ela também colabora no entendimento da modernidade, que compartilho com outro filósofo alemão, Peter Sloterdijk, e que por sinal também aborda Rousseau (em especial em livro que comentarei em outro texto, Streß und Freiheit).

Investigando seu eu, Rousseau, como Safranski mostra (capítulo nove de O mal e o drama da liberdade), nota a descontinuidade que, enfim, todos nós também podemos notar quando nos observamos. Somos múltiplos, desempenhamos vários papéis. Então, se é para encontrarmos alguma coisa confiável em nós, temos de procurar algo que esteja na paz, em uma certa tranquilidade originária. Safranski nota aqui a proximidade de Rousseau com a fórmula de Pascal: a desgraça do homem é não conseguir ficar em sua cadeira, sem nada fazer. Ele diz que Rousseau busca um certo retorno à quietude, e faz isso por três meios: a vivência expansiva, a vivência retrativa e a vivência do puro acontecer.

A primeira pode ser uma solidão na floresta de modo a uma igualação à natureza; a segunda é uma fuga para o interior, de modo a encontrar a natureza dentro de si; a terceira é o estado de quase irreconhecimento do eu – Safranski retoma aqui a experiência de Rousseau (relatada em Os devaneios do caminhante solitário) que, derrubado por um enorme cão, é acordado sangrando por transeuntes e, então, vive a experiência de nada sentir, de quase semi-reconhecimento, de saber-se ser o que pode narrar tudo aquilo mas, enfim, sem parecer estar ali como o herói do drama. Em todos esses casos, a ideia básica é a fuga dos papeis sociais, do eu que, enfim, é social. Nesse sentido, a comunicação mediada é condenada.  A comunicação pura, o amor, se dá antes que o eu deixe de ser apenas uma voz que relata. Caso o eu se estabeleça socialmente, então entre o eu e o tu acontece a comunicação não puramente espiritual e, desse modo, as divergências que inviabilizam o que teria de ser a comunicação. Por isso a comunicação em que há o corpo é insatisfatória. Ou ainda, ela impede o sonho que poderia se dar no gozo com o outro. O corpo nos tira do irreal em que teríamos de estar para o gozo. Ele é algo de monstruoso que, no episódio de enamoramento com a garota com o seio falhado se faz notar. Ou seja, a unidade com o outro, o perder-se no outro, foi evitado pelo corpo. O corpo é o intransponível. E o objetivo da felicidade seria a unidade, o ultrapassamento do limite. A luz do eu não poderia atravessar o outro sem refração e, então, essa refração mostra o limite que Rousseau quer transpor.

Por isso mesmo, quando Rousseau encontra a possibilidade de conseguir essa unidade, isso surge por meio do que tanto Safranski quanto Sloterdijk avaliam como uma solução perigosa: a “vontade geral”, como aparece no Contrato social. Trata-se da melhor maneira de se ter o estado-nação, para Rousseau.

A vontade geral não é a vontade de todos e não é uma instância superior, em estilo kantiano. A vontade geral é a vontade de cada um no que observa o bem comum. É o voto de cada um não no sentido de interesse ao que é exclusivamente particular ou de grupo, mas no sentido do que é o bem comum. É um voto que não depende do resultado para fazer o melhor, como seria a mão invisível do mercado smithiano, mas um voto que já no ponto de partida é o melhor voto, pois consciente e informado, e voltado para a aprovação do conteúdo do que é o bem comum. Desse modo, a vontade geral é uma forma de fusão dos eus no comum. É a garantia da prosperidade do sistema de uma comunidade que funciona em acordo com si mesma e com os indivíduos. É uma unidade entre indivíduo e nação. Mas é, também, o fim apriorístico das divergências. Assim, tanto para Safrankski quanto para Sloterdijk, aí está a base de unidades perigosas que de Robespierre aos nacionalismos belicosos à esquerda e à direita, no século XX, tornaram o mundo algo nada bom.

Quanto teria sido melhor se Rousseau não fosse aquele que pudesse se contrariar com o peito sem bico. Mas, se assim fosse, Rousseau não seria Rousseau.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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5 Responses “Safranski e Rousseau: o episódio da moça sem o bico do seio”

  1. Rafa
    20/01/2016 at 22:35

    Ghiradelli, infelizmente fazia tempo que não lia nada seu.

    É bem possível que não saiba, mas hoje em dia há uma maneira de encontrar a unidade: jogos eletrônicos, seja no modo online ou single player.

    • 20/01/2016 at 22:41

      Rafa, é claro que isso, para Rousseau, é máscara social e não unidade originária que ele procura. O texto tá meio rápido, por isso você não pegou a ideia. Mas é texto de blog. Logo faço algo mais amplo.

    • 20/01/2016 at 22:41

      Rafa, é claro que isso, para Rousseau, seria mais uma máscara social, mais um eu que se afastou do eu originário, e não unidade originária que ele procura. O texto tá meio rápido, por isso você não pegou a ideia. Mas é texto de blog. Logo faço algo mais amplo.

  2. Rousseau
    19/01/2016 at 19:03

    Bicho, você é completamente doente. No fundo você deve desconfiar disso.

    • 19/01/2016 at 19:54

      Sunda, o fato de você não entender a argumentação do Safranski não é culpa minha nem doença minha.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo