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22/09/2017

Sem ministério da Cultura não existe ministério da Agricultura


Nossa sociedade é a do filisteu da cultura. Ele não gosta da arte em si, ele tenta gostar da arte por alguma razão utilitária, de subir na carreira, aparecer, etc. Mas, ainda assim, esse indivíduo típico de nossos dias, dá algum valor para a arte que vale a pena considerar legítimo.

Embora todos nós queiramos ter um emprego e um trabalho, nossa sociedade moderna atual não é mais a “sociedade do trabalho”, descrita pelos clássicos da sociologia, especialmente Marx, Durkheim e Weber. Nossa sociedade é a da “sociedade do consumo” e da “sociedade do entretenimento”. O entretenimento fornece o conteúdo de nosso estilo de vida e o consumo nos dá os valores pelos quais nos movemos. O próprio trabalho se submete inteiramente ao consumo e ao entretenimento. Este, então, ultrapassa o trabalho como elemento central, porque todos nós nos realizamos no entretenimento e não no trabalho, a ponto do próprio trabalho ter de se fazer nos moldes do entretenimento, do lúdico etc. Além disso, o trabalho depende do consumo em todos os sentidos, inclusive para existir. Se os produtos não vierem com a tal “obsolescência programada”, eis que o nosso capitalismo (ou seja lá que nome queiramos dar ao que rege nosso modernidade atual) deixa rapidamente de funcionar. Peter Sloterdijk diz que consumir virou uma virtude patriótica em nossos tempos.

Quando temos ciência disso, ganhamos nova compreensão a respeito do que chamamos de cultura. Nos anos oitenta o professor Alfredo Bosi elaborou o conceito de cultura a partir de quatro divisões, a cultura erudita, a cultura acadêmica, a popular e a de massas (esse artigo está na biblioteca deste blog). Na época, imputou à esta última a responsabilidade de ligação com a questão do consumo e do que é comercial no campo cultural. Hoje em dia, teríamos de reler esse escrito  de Bosi reconsiderando tal restrição. O vínculo com a cultura de massas é, claro, o que mais diretamente se faz com o consumo, o comércio e o entretenimento – eixos atuais de nossa sociedade -, mas não podemos, por tal constatação, vir a acreditar que ele é o que há de mais importante no âmbito da direção da vida social em seu aspecto econômico. Todos os países ditos desenvolvidos criaram instâncias governamentais voltadas para a política de cultura, pois descobriram logo que todas as outras políticas se fazem a partir dessa política, e não o inverso.

Em suma: não há ministério da Agricultura se não há ministério da Cultura (ou qualquer outra instância, que pode ou não ser estatal, capaz de criar uma política cultural).

Não se planta soja para consumo interno e externo sem aceitação da soja, e se é assim, a cultura, toda ela, e não apenas a cultura de massas, tem de coadunar, em algum nível, com o empreendimento do consumo desejável. É a música sofisticada (cultura erudita), são as teses da academia (cultura acadêmica), são os afazeres do povo (cultura popular) e, enfim, é a TV e o rádio (cultura de massas) que precisam andar juntos com a soja, de modo que ela seja um alimento nacional aceitável e até amado para que exista a soja como algo que, uma vez plantado, possa ser colhido. A política de plantio e venda da soja tem mercado não por decisões do mercado em termos restritos, mas por decisões de quanto o mercado cultural, em sentido amplo, é capaz de fazer de nós um povo consumidor de soja. O mercado depende do mercado! Isso quer dizer: o mercado do produto material depende do mercado do produto espiritual. É a identidade nacional gerada pelas quatro formas de cultura (na ótica de Bosi), então gerenciadas por uma política cultural, que determina se a política de agricultura vai adiante com a soja ou não. Cana-de-açúcar, então, heim? também é um exemplo bom. E tantos outros! Ninguém decide por um empreendimento se não houver um sopro cultural, ainda que só em germe, favorável.

Todo mundo em São Paulo viu isso quando a vida imobiliária e de bens não duráveis da cidade sentiu o impacto causado pela mudança cultural vinda da Parada Gay e todo o movimento pós-luta-contra-homofobia. Como isso foi decisivo para certa parte comercial da cidade!

Imagine como a nossa vida cultural pode mudar para valer à medida que assumirmos como nosso dever o combate à crueldade para com os animais. Então, por razões de combate à crueldade, deixaremos de comer carne. Nascerá um Brasil que terá como identidade o apreço pelos animais e, com isso, será difícil sustentarmos uma pecuária significativa. Ou seja, olhando para isso (e vendo as estatísticas a respeito dessa alteração que está ocorrendo a passos largos) pode-se entender agora como que a cultura e a política da cultura é um elemento chave num mundo como o nosso? Dá para entender que controlar políticas culturais faz parte da missão capitalista de ampliar e dirigir a ampliação de mercados? Não?!

Quando um país que não tem nenhuma instância válida de abrangência para a direção e criação de políticas culturais e então, sem pensar, abre mão do ministério da Cultura, ele está simplesmente deixando sem cabeça o ministério da Agricultura – e todos os outros. O ministério da Cultura, nesse sentido, é muito mais poderoso que o ministério da Educação (pouco importa aqui, para o meu argumento, que o que se entende por “ministério” seja estatal ou não).

Quando as frentes anti-intelectualistas comemoram um fechamento de um ministério como o Minc, no Brasil, por exemplo, o que fazem não coaduna com capitalismo atual, ao contrário, vão contra o capitalismo atual. Elas estão boicotando o capitalismo. Estão abrindo mão do entendimento do que é algo chamado identidade nacional e a sua relação com a sociedade de consumo. Não conseguem entender como que a nossa cultura, em menos de trinta anos, por exemplo, tornou-se ecológica, e como isso mudou nossa indústria, os financiamentos bancários e tudo o mais, e de que maneira isso realimentou a cultura e a educação. A vida capitalista não permite a existência do capitalista isolado, como é a imagem que alguns da esquerda fazem de um “capitão de indústria” (para usar uma expressão que tem a idade da mentalidade de nossa esquerda). Um capitalista sabe para onde anda a cultura de seu país, ou se simplesmente não sabe, está com os dias contados como capitalista. A direita extremada, que não entende nada de capitalismo, é que não sabe disso, nem sabe como age um capitalista atual. Nisso, segue muitas vezes a esquerda, para quem os ricos são problema, não solução. Aliás, nossa esquerda é incapaz de pensar as coisas que não seja por meio de sociologia antiga, centrada no trabalho, na ideia do mundo como miserável, na vida como ainda sendo a vida do trabalho e no homem com alguém que pode viver economicamente sem viver culturalmente.

Ter de explicar isso me faz mal. Sinto-me falando obviedades que não deveriam terem de ser ditas a essa altura do campeonato, nessa situação atual do capitalismo. Mas, como notei que alguns (que até se parecem humanos) ainda acham que o financiamento de uma música é o que faz o hospital não ter um leito, me vi na obrigação de explicar o óbvio. Claro, claro, sei que um simpatizante do Trump  não pode entender isso nem com tal explicação bem didática. Mas, cá entre nós, meu texto não é para essa gente.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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11 Responses “Sem ministério da Cultura não existe ministério da Agricultura”

  1. John
    02/06/2016 at 04:47

    Não entendi o texto ou vc viajou na maionese bonito. Fico com a segunda opção.

  2. André
    01/06/2016 at 14:11

    Eu nao entendi o que a Sara Carbonero, esposa do goleiro Casillas, tem a ver com o texto.

    • 01/06/2016 at 15:48

      André você tem que tentar, continuar tentando.

  3. Matheus
    23/05/2016 at 15:54

    Incrível texto paulo. Tô no meio do trabalho não consegui ler tudo adequadamente, mas preciso de antemão já deixar algo aqui. Dois pontos.
    1: sobre a cultura do mercado que alimenta outro mercado: me lembrou de um entrevista da Lilia Schwarcz sobre a “invenção” do açúcar, porque o sabor doce até a era das grandes navegações era absolutamente desconhecido do povo e por isso desenvolveram uma série de pratos (inclusive o chocolate) para tornar cacau e açucar palatáveis, “produzindo” cultura (nas palavras dela). E posições ideológicas à parte, é bem verdade. O mercado sempre gera uma cultura que o retroalimente. A máxima é do Steve Jobs: “se ninguém precisa de um produto apple, vou fazer as pessoas sentirem necessidade de terem um”. E aí está, quem não quer ter um iPhone, até os marxistas mais quadrados têm um…

    2: Sobre a frase de Peter S. ” consumir virou uma ação patriótica”. Nossa na hora me lembrei de um dos melhores animes que já fizeram, chama-se Ergo Proxy (de 2006), que retrata um mundo futurístico, uma das primeiras cenas, uma frase que fica evidente é “prezado cidadão, cumpra seu papel e consuma”. Achei aquela frase explícita demais, como poderíamos viver num lugar onde sabemos que a única forma de manter um “estado” ou nação é através apenas do confuso. Não sei de quando é a frase do Peter, será que os autores leram a obra dele? Fiquei com uma pulga atrás da orelha, só sei que o anime é cheio de referências filosóficas, e quis deixar aqui o registro pro caso de se alguém estar à procura de um bom entretenimento cultural… Aliás japoneses quando resolvem se debruçar sobre a cultura ocidental, deitam e rolam, dão um tapa na cara do ocidente que se perdeu em espetáculos de pirotecnia (apesar que japoneses também se renderam a essa forma de cultura…)

  4. Robson Cruz
    23/05/2016 at 12:15

    Marx colocou esta questão na roda (muito embora os próprios marxistas tendam a esquecer), quando aparentemente quebrou o binarismo dialético inserindo o conceito de valor de uso na aritmética da mercadoria. Um conceito não quantificável, mas manipulável a partir dos diferenciais ideológicos de uma sociedade. Os regimes marxistas-leninistas, stalinistas e maoístas não se deram conta disso, e foram para o espaço. Não perceberam que não poderiam eliminar o conceito de mercadoria sem eliminar o afeto, o desejo e o gozo em cada um. Pior. Paradoxalmente, o comunista boêmio, largadão, ascético também é um nicho potencial de mercado. A flower power contracultural conduziu involuntariamente a explosão do consumo em massa de vestuário através da universalização das camisetas de malha e do blue-jeans, salvando o capitalismo da crise entre o final da década de 1960 e começo da de 1970. Mas discordo um pouco do você, Ghiraldelli, no que concerne pelo menos à arte: sim, o cenário predominante é filistino e de culto à celebridade (este outro objeto de consumo de massa), mas a jogada proposta pelos dadaístas e pela pop art (com Marcel Duchamp como eixo intermediário) entabularam uma relação jocosa com este próprio cenário, inspirados ou não na crítica de Benjamin e Adorno. A consequência foi o desmontamento do próprio conceito de arte por alguns grupos, substituído pelo de arte-conceito, ou seja, o objeto a ser trabalhado é o próprio lugar social da arte, independente dos suportes. O Brasil teve, nesta onda, um destaque através sobretudo de Lygia Clark e Hélio Oiticica (muito embora, o que os seus respectivos herdeiros tem feito com as obras de ambos para ganhar dinheiro deve estar fazendo com que deem cambalhotas triplas nas suas tumbas).

    Agora, no que concerne a Ministério da Cultura, percebo que ele tende a existir em países onde o poder do mercado é ou débil ou relativamente reprimido, o que acredito corroborar sua reflexão pois, em casos como os EUA e o Reino Unido, o mercado aparentemente já traz embutido sua potência cultural. Produzindo autonomamente ícones para a matéria dos sonhos e desejos do consumidor.

    • 23/05/2016 at 14:14

      Robson você não pode discordar de mim, não tratei desses assuntos aí, não nesse texto. Meus textos outros falam desse assunto. Sobre o mercado no final do seu texto, não, não e´verdade. A cultura nos Estados Unidos não é estatal (no Reino Unido há ministério), mas ela NÃO É deixada ao sabor de mercado nunca.

  5. Denise Oliveira
    23/05/2016 at 06:14

    Adorei o texto. Obrigada.

    Identifiquei alguns erros de digitação que relaciono abaixo pra ajudar na correção:

    1° §, linha 2 – “esse indivíduo típicos” : “esse indivíduo típico”.

    3° §, linha 3 – vírgula entre “a cultura acadêmica, a popular”

    3° §, linha 4 – “dirigiu imputou”, acrescentar uma conexão (e?). Mesma linha: sem crase na conjução prep + pron: “a esta”.

    5° §, linha 11: hífen em “cana-de-açúcar”

    7° §, linha 1: “quando ao combate”, “quanTo ao combate”, ou, “quando Do combate” (?)

    9° §; linhas 2 e 3: concordância: “não é ir junto, mas irem contra”. “não é ir junto, mas ir contra”, ou “não é irem junto, mas irem contra”.

    9°§, linha 13: acento: “idéia”.

    10° §, linha 1: concordância locução verbal: “não deveriam precisarem de ser ditas” : “não deveriam precisar ser ditas”, ou simplificar, “não precisariam ser ditas”.

    10°, linhas 4 e 5: concordâncias: “um simpatizante do Trump não podem entende” : “um simpatizante de Trump não pode entender”.

    • 23/05/2016 at 14:16

      Obrigado pelas correções. Esse foi de fato na madrugada, na correria.

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