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15/12/2018

Seis filósofos brasileiros para serem lidos


Traçado breve de seis filósofos paulistas cuja leitura se tornou obrigatória entre nós, mas que em geral acabam sendo negligenciados pelos estudantes mais jovens.

Scarlet Marton é filósofa e professora da USP. Trata-se de uma scholar nietzschiana de mão cheia. Todavia, mais que isso, Scarlet é uma filósofa leitora de filósofo; sua interpretação de Nietzsche é bastante original, colocando-o antes com um cosmólogo (no estilo dos pré-socráticos) que como metafísico ou simplesmente como uma crítico da metafísica. Sua tese de doutorado de título Nietzsche, das forças cósmicas aos valores humanos diz muito do percurso que ela escolheu. O texto foi publicado em livro originalmente pela Editora Brasiliense, tornando-se leitura obrigatória para quem quer conhecer Nietzsche. Aposentada da sala de aula, atualmente a filósofa gasta seu tempo em pesquisas, alimentado seus grupos de estudos no Brasil e na Europa. A escrita de Scarlet honra a escrita de Nietzsche, pois ela é dona de um estilo próprio, preocupada com a fluência do texto e até mesmo com a cadência, caso se queira ler em voz alta. Está na ativa, publicando vários trabalhos interessantíssimos, que haviam sido projetados e adiados por conta do trabalho em sala de aula.

Olgária Matos é filósofa e professora da USP e, uma vez aposentada, tornou-se docente da UNIFESP. Especializou-se em Escola de Frankfurt, com destaque para Walter Benjamin. Sua tese de livre-docência foi publicada em livro originalmente pela Brasiliense, com o título O iluminismo visionário. Neste e outros livros a filósofa expõe não só uma visão original de Benjamin, mas, mais que isso, e talvez de modo único, alerta para uma compreensão especial a respeito da modernidade. Descartes é tomado então como um pensador barroco, na linha de sugestões benjaminianas.  Proprietária de uma cultura humanística invejável, Olgária Matos é pensadora de assuntos variados e nos anos oitenta e noventa teve presença na mídia impressa escrevendo sobre mulher, política, vida urbana, Escola de Frankfurt, corpo etc. Ainda presente nas salas de aula, Olgária Matos representa a fina flor da geração uspiana formada nos anos sessenta e, portanto, extremamente politizada. Ao mesmo tempo, é entusiasta da universidade antes como templo de cultivo do saber que como curso superior profissionalizante.

Marilena Chauí é filósofa e professora da USP. Foi secretária da cultura da cidade de São Paulo (gestão de Luiza Erundina, na época filiada ao PT) e mantém uma militância de esquerda bastante ativa. Essa sua postura nem sempre a ajuda nos escritos filosóficos de abordagem do cotidiano. Todavia, isso não a atrapalha quando trata de assuntos filosóficos mais técnicos, especialmente a sua visão de Marx, embasada por uma imensa cultura filosófica. Para além de ser uma scholar espinoziana, Marilena Chauí esteve durante décadas na imprensa escrita, defendendo pontos de vista interessante sobre mulheres, política, Partido dos Trabalhadores, a Universidade brasileira, cultura etc. A filosofia brasileira deve a ela o pioneirismo quanto à ideia de que o filósofo deve ultrapassar os muros da academia. Ela fez isso em vários sentidos, inclusive com preocupação de formação de jovens, para os quais produziu manuais temáticos e históricos. Seu livro publicado pela Cia das Letras, A nervura do real, sobre Spinoza, sistematiza seus estudos filosóficos de mais de três décadas e é leitura obrigatória para qualquer um que queira abordar assuntos sobre tal filósofo.

Rubens Rodrigues Torres Filho é professor aposentado da USP. Além de filósofo é um poeta original e arrepiante. Sua cultura imensa se expressa não raro em uma sutilíssima ironia e um humor só para abençoados. Foi sem dúvida um pioneiro e mestre maior da chamada “leitura estruturalista” em história da filosofia, exibida em livros e sala de aula com inigualável brilhantismo. Continua sendo a referência principal entre nós, brasileiros, a respeito de um filósofo muito citado e pouco estudado, Fichte. Além disso, Rubens Rodrigues Torres Filho é daqueles tradutores do alemão que todo outro tradutor tem de consultar. Um de seus livros se tornou um clássico da produção nacional em filosofia: publicado originalmente pela Brasiliense, Ensaios de filosofia ilustrada contém um dos mais significativos comentários a respeito do célebre ensaio de Kant “Resposta à pergunta ‘O que é o Iluminismo?’”.

Maria Lúcia Cacciola é professora aposentada da USP. Especialista em Schopenhauer, essa filósofa publicou pela Edusp o livro Schopenhauer e a questão do dogmatismo, que é, sem dúvida, um marco nos estudos sobre o filósofo alemão no Brasil. Cacciola não é de escrever muito e restringiu seu trabalho à academia, especialmente na formação de gerações de pesquisadores. Sua visão da história da filosofia e sua compreensão geral da importância da Schopenhauer no panorama da filosofia moderna, em especial quanto ao quesito “saber do corpo”, que esse filósofo introduz, faz de Cacciola uma daquelas mestras que é necessário conhecer.

Bentro Prado Jr. foi professor emérito da USP e faleceu como professor da UFSCar. Foi um filósofo que não escreveu muito, mas deixou ensaios com ideias originais na leitura de Rousseau, Hume, Bergson, Deleuze, Freud etc. Bento Prado cultivou uma prática que tem desaparecido ultimamente, que é o diálogo filosófico entre pares. Não só vinha nas aulas de colegas como fazia questão de publicar resenhas críticas sobre seus livros. Uma das principais ideias de Bento Prado, nem sempre consideradas nos textos dedicados a ele, é a respeito da noção bergsoniana de “familiaridade”, com a qual tenta solucionar problemas colocados por Wittgenstein contra a “linguagem privada”. Bento Prado destacou-se por praticar entre nós, com bom humor e amizade, o trânsito entre filosofia continental e filosofia analítica, que em geral é algo desconhecido dos mais jovens, formados hoje em dia em cânones de especialismos que nunca se superam. Há uma coletânea de artigos seus recentemente publicada: Erro, Ilusão, Loucura”, da Editora 34.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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124 Responses “Seis filósofos brasileiros para serem lidos”

  1. 21/05/2018 at 16:31

    Olavo e karnal não são filosofos.

  2. Elias
    09/05/2018 at 08:39

    Olavo de Carvalho, tem muito mais filosofo do que esses ai!!!
    Obrigado!!

    • 09/05/2018 at 08:41

      Ha ha ha ha é o Olavo realmente vai ficar tentando passar no terceiro ano primário, no qual levou pau por ser débil mental

  3. Vitor de Lima
    24/04/2018 at 23:22

    Olá Prof. Paulo. Muito boa sua lista. Mas Álvaro Vieira Pinto e Paulo Freire não entram nela também?

    • 25/04/2018 at 13:03

      Lista de 6, pode aumentar. Eu tenho livro sobre o Paulo Freire, conhece?

  4. Pulga
    19/03/2018 at 10:42

    o que acha dos filosofos Leandro Karnal, Mario sergio cortella e Clóvis de Barros Filho

    • 19/03/2018 at 10:47

      Cara pulga. Mário Sérgio Cortella é meu amigo. É um cara honesto, que usa do que aprendeu como professor para o trabalho de motivação em empresas. Karnal não é filósofo, é um palestrante. O outro eu acho que também não é filósofo, acho que é um advogado, certo?

  5. Vitor
    10/03/2018 at 02:23

    Todos eles são bons filósofos, mas IMO nenhum supera o maior filósofo brasileiro vivo: Newton da Costa

    • 10/03/2018 at 08:31

      Vitor, filósofo não é cavalo de corrida, que ganha taça no final. Há especificidades.

  6. Domício Júnior
    16/01/2018 at 01:32

    Faltou o Mario Ferreira dos Santos, disparado o melhor filósofo que o Brasil já teve. Como podes esquecer dele?

    • 16/01/2018 at 02:17

      Qual a teoria dele? Tem alguma? Duvido que saiba o que falou. Ninguém sabe. É um monte de escrito sem sentido algum. Acorda cara. Filósofo que não passou pela escola de filosofia e fica escrevendo feito maluco atrai maluco.

  7. Gabriel
    14/12/2017 at 21:20

    Oswaldo Giacóia deve ser lembrado. É um pensador importantíssimo aqui no Brasil.

  8. Reginaldo
    22/08/2017 at 11:47

    Olavo de Carvalho não tem diploma de filósofo e coloca os 6 no bolso.. como explicar isso?

    • 22/08/2017 at 12:16

      Reginaldo, só de você dizer isso, já deveria ficar envergonhado, mas é como o Olavo, não tem noção do que é saber algo e, por isso, não tem vergonha. Mas os outros riem de você, e do Olavo.

  9. Samuel
    12/07/2017 at 22:32

    Olá! Prof° Paulo, muito obrigado pela lista!
    Estou lendo os trabalhos que estão sendo feitos sobre a Escola de Kyoto na Unicamp: o professor Antônio Florentino Neto está fazendo um belo trabalho com traduções e organização de ensaios.
    Bom, eu sou da Letras, mas meu projeto de mestrado me levou para os filósofos japoneses que dialogaram muito com alemães e americanos.
    Gosto muito de acompanhar teu site. Parabéns.
    Abraços.

    • 12/07/2017 at 22:45

      Obrigado Samuel, meu site é para um público bem seleto.

  10. luis fernando impallari
    20/04/2017 at 11:43

    Interessante a relação, vejo que todos tem muita relação com filósofos ocidentais, por que existe tanta distancia dos filósofos árabes – que tanto contribuíram para a difusão do conhecimento grego no mundo europeu – ou os filósofos chineses, indianos, orientais de uma forma geral. Quem já ouviu falar de filosofia africana? Quantos filósofos russos são lidos e estudados? a Filosofia disseminada nos círculos acadêmicos tem mais a forma de um corpo teórico conveniente ?

    • 21/04/2017 at 11:27

      A filosofia é grega. O resto é pensamento ou religião. Chamamos o resto de filosofia, mas por imputação. Claro que no curso universitário de filosofia, em menor escala, se estuda outros pensamentos que não o ocidental. Há cadeiras específicas para isso.

  11. Bruno Farias
    17/04/2017 at 09:52

    Obrigado! Agora já sei o que precisa para ser considerado filósofo no país…kkk

    • 17/04/2017 at 11:09

      Bruno, não sabe. E talvez nunca venha a saber. Quando vejo alguém escrever o que escreveu, saco logo que não vai conseguir ser alguém. Dificilmente erro nisso.

  12. Samuel
    07/04/2017 at 23:42

    Olá! Paulo! Que lista generosa, muito obrigado! Realmente alguns passam desapercebidos mesmo.
    Estou aqui absorto com Benedito Nunes, nosso grande filósofo que deixa saudades.
    Acabei o mestrado em Letras recentemente e em minhas pesquisas, percebo o quanto a poesia pode ser filosófica e o quanto a filosofia pode ser poética.
    Neste sentido, a Marjorie Perloff, grande crítica americana, tem batido na tecla de que precisamos de mais filosofia, pois vivemos em um mundo quase sem filosofia.
    Que nossos filósofos brilhem para serem faróis neste momento tão difícil que nosso país está passando.

    Abraços.

    Samuel

    • 08/04/2017 at 09:06

      Samuel, claro que há mais na academia, mas esses aí são os escolhidos por mim. Gostaria de poder escrever mais. Falta de tempo.

  13. August Miller
    01/12/2016 at 11:26

    O problema é que seu texto é um dos primeiros links quando se pesquisa “melhores filósofos brasileiros”. Embora o título não seja esse, as pessoas acabam lendo como se fosse exatamente o que pesquisaram. De forma óbvia, tal erro não remete ao senhor. É somente mais um fruto da sociedade líquida em meio à superficialidade de pensamento, advinda do mundo virtual. Não concordo com sua lista; por ser, porém, algo pessoal, é que se invalida seu julgamento.

    • 01/12/2016 at 14:20

      Miller você não quer deixar eu ter minha lista. Só isso. É puro autoritarismo. Não quer deixar eu eleger bons filósofos os que conheço, quer que eu eleja como bons os que não conheço. Parabéns.

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