Go to ...

on YouTubeRSS Feed

19/11/2017

Zizek não é um pensador, e Scruton? O que é pensar?


Zizek é chamado por Scruton de “o príncipe palhaço da revolução”. Li o artigo com esse nome, tanto a parte já publicada no Estadão (22/10/2016), traduzida, quanto a parte ainda não traduzida. Tudo que Scruton fala contra Zizek é verdade: esquerdismo meio doentio, argumentos velhos porém mal feitos, teoria lacaniana ininteligível e conceitos mal feitos. É isso. Sim, é isso. A cada ano, dois livros; mais e mais baboseira. Algo como um Safatle sem saias. Mas, cá entre nós, o livro de Scruton sobre a “a nova esquerda”, quando ele esquematiza autores de modo a torná-los uns bobos para um público meio ralé de direita, é alguma coisa até pior do que Zizek faz. Então, do que quero mesmo falar?

O que me salta aos olhos é o caso do próprio Scruton teimar na ideia de que temos que manter a divisão entre “intelectuais de esquerda” e “intelectuais de direita”. Não, não estou dizendo que Scruton está defasado porque a divisão esquerda-direita não é mais nítida. Isso é uma bobagem que já passou. A direita dizia isso, mas agora a direita resolveu se assumir. O que estou dizendo é que não precisamos, para todos os intelectuais, falar em esquerda e direita.

Sair dessa ideia de que filósofos são de esquerda ou direita é um dever. Ao menos para os melhores. Temos de levar a sério a pergunta de Hannah Arendt em seu fabuloso A vida do espírito, e também para o belíssimo ensaio de Sloterdijk, o Scheintod in Denken (no português de Portugal: Morte aparente no pensamento). Em ambos aparece a questão sobre “em que lugar estamos quando estamos pensando?” A resposta é mais ou menos óbvia: se estamos pensando como filósofos, como intelectuais, pensamos por conceitos e, portanto, no lugar nenhum. O universal não se determina de uma vez, mas se determina e se indetermina. O conceito se faz no movimento de abraçar o que precisa abraçar, e solta o que abraçou para pegar mais e também soltar. O conceito é um sobrevoar e um pousar (veja o artigo sobre conceitos). Esse é o trabalho do conceito, do pensamento. Essa noção de pensamento parece por si só tornar uma tal atividade deslocada da ideia de geografizá-la por meio do espaço-lugar chamado “direita” e “esquerda”.

Scruton repete então um erro que é o erro da esquerda. A esquerda se vê como esquerda, e força a direita a se ver como direita, e esta, agora, começou a se assumir (1) Mas “pensamento de esquerda” e “pensamento de direita” são quase que contradições em termos. Existe ideário de esquerda e ideário de direita, ou, na hora de acusação mútua, ideologias. Mas pensamento, ao menos para filósofos, é caracterizado por estar em todo lugar e, portanto, em lugar nenhum. De certo modo, o pensamento é tido na história da filosofia como que nos dando parentesco com o divino (somos um planeta ascético, diz Sloterdijk), e isso porque o pensamento é nossa chance de termos sim uma perspectiva, mas que é a Perspectiva do Olho de Deus. Não conseguimos tal coisa? Não temos mais a metafísica para procurar tal coisa? Deus e está morto e temos só narrativas nossas mesmas, humanas? Ora, isso não impede nos mantermos ainda achando que pensar é pensar a partir do Olho de Deus, pensar com conceitos. Não temos parado de agir assim, desde o platonismo, quando fizemos o que Rorty recriminou, ou seja, a invenção do conceito de conceito. Fabricar um conceito é tentar montar o olho que deve ser O olho de Deus. Trata-se do lugar nenhum. Nosso fracasso nisso não nos impede de ficar na ilusão contínua de que podemos conseguir.

É errado achar que se não conseguimos pular para o interior do Olho de Deus, então temos que nos fixar no particular geografizado. Não, nossa produção de conceitos é justamente nossa ideia de que vamos voltar mais uma vez a tentar ser deuses, e isso quantas vezes for necessário. Richard Rorty não admitia falar de conceitos. Mas isso por conta de que para ele a verdade era, como para o II Wittgenstein, dada pelo uso, de modo que toda a semântica se devia ao pragmatismo da nossa fala. Mas podemos ficar na ideia de uma verdade pelo uso, num conceito como algo desinflacionado de metafísica, como algo que se faz no particular singularizado para tentar algo de universal, e isso não é uma inutilidade. Isso é pensar. Heidegger se referiu a Sócrates uma vez só, lembrou Hannah Arendt, e para tocar numa metáfora do pensamento como ventania. O pensamento é ventania nesse sentido: leva tudo para longe, joga-se no espraiamento, escapa do lugar, vai para o Lugar Nenhum.

Poderíamos começar a cobrar dos filósofos que eles deixassem de lado esse auto-engano de acreditar que alguém, se pensa, pensa à esquerda ou à direita. O que se faz à direita ou `a esquerda é adoção de crenças, adoção de éticas, determinação de prescrições políticas, mas não pensar. Zizek de fato não pensa. Scruton pode acabar não pensando.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo.

(1) O comunismo é ainda, para muitos, um erro intelectual, não moral, um erro de estratégia, não um pecado de finalidade. Isso é diferente para a posição chamada de direita. O fascismo é antes um pecado moral que apenas um erro intelectual ou de estratégia. Claro que para quem viveu no Leste Europeu também o comunismo pode ser visto como um pecado de finalidade. Nos Estados Unidos a divisão se dá entre liberais e conservadores, de modo que ninguém comete pecados morais. Seria como uma divisão entre social democracia e direita liberal, no plano europeu. No Brasil tínhamos essas divisões, que no momento atual, enquanto escrevo, parece ter entrado em colapso por conta da proeminência da ignorância escolar de militantes.

Tags: , ,

9 Responses “Zizek não é um pensador, e Scruton? O que é pensar?”

  1. Diego
    22/08/2017 at 02:59

    Professor, hoje bolsonaro veio a minha cidade dar uma palestra. Soube que ia ter um protesto na porta do teatro e passei pra ver como estava. Chegando lá tinham pessoas com mensagens de oposição a ele, o chamando de fascista. Quando cheguei, a primeira vontade que me deu for dizer o mesmo. Encontrei um conhecido na rua que me disse com deboche: Não sei quem é pior esse pessoal de esquerda ou esse pessoal de direita.
    Eu entrei justamente nessa reflexão…
    Fascista é um conceito que se encaixa bem com o Bolsonaro (me corrija se estiver errado). A maneira que ele olha pro movimento separando somente como esquerda e direita é uma coisa que não me desce. Parece uma vontade de se enaltecer em cima de qualquer discurso com uma falsa ilusão de que esta pensando no lugar nenhum, mas parece que não esta pensando…
    Gostaria da sua opinião sobre, mesmo que eu tenha entendido tudo errado.

    • 22/08/2017 at 10:40

      Diego, ele é sim uma versão tupiniquim do neofacismo, um cara que tem parede foto do Médice!

  2. Fabiano
    09/11/2016 at 01:13

    Professor, na minha concepção o Scruton é o maior intelectual inglês da atualidade, conheci seu trabalho através do professor Ponde e valeu a pena!

    • 09/11/2016 at 01:55

      Fabiano! Meu Deus!
      SCRUTON escreveu sobre sexo, aí fizeram um resenha do livro dele com o título “Relatos de um homem solteiro”. É por isso que Pondé gosta de Scruton, não só por ele ser de direita, mas por escrever sem conhecer o assunto plenamente.

  3. obsuni
    29/10/2016 at 11:52

    Então existe uma instância da filosofia que é assim como a matemática, a física, as ciências exatas enfim. Se for isso, então é recente, porque a libertação das ciências exatas das nefastas influências da filosofia ocorreu no primeiro quarto do século passado, com, ora só, o positivismo lógico… que pode ser resumido numa só frase – conhecimento científico é aquele que pode ser posto a prova – enquanto não se encontrar evidência de falsidade, é válido. Essa espada de Dâmocles pende sobre a própria matemática, cuja consistência nunca foi provada, mas também não foi negada. Por esse motivo, o materialismo histórico não é científico, porque não admite ser provado. Nem mesmo a mais valia pode ser medida, um de seus conceitos básicos. A filosofia mater da esquerda – o materialismo dialético foi responsável pelo atraso científico da URSS em campos mais permeáveis a influências filosóficas – psicologia, genética, educação, sociologia, dentre outras. Safaram-se, em parte, as ciências exatas porque elas ajudavam a produzir armas, ainda o setor mais avançado na atual URSS. Outro campo bem sucedido é o da propaganda explícita ou subliminar. Hoje sabe-se da profunda infiltração do braço de Moscou nos movimentos pacifistas europeus à época da guerra do Vietnã. Os EUA ganhavam a guerra militar, o Vietcong, a despeito das últimas ofensivas, estava no chão, mas no Ocidentes jovens Ana Júlias se imolavam pela democracia comunista… Agora o estilo é outro, nega-se ser de esquerda, nega-se até que existam direita e esquerda. É uma versão transgênera da atividade política, você pode ser o que quiser de acordo com as conveniências. Para mim não cola. Sou heterosexual em gênero e em política.

  4. silvia
    23/10/2016 at 19:44

    Fugindo um pouco do assunto professor: em um de seus vídeos você disse que Gadamer é um exemplo de filósofo da hermenêutica, mas ele não foi assistente e aluno de Heidegger? A fenomenologia não o influenciou de certo modo?

  5. silvia
    23/10/2016 at 19:39

    O engraçado desses que dividem a filosofia em de “direita” e de “esquerda” esquecem que filósofos próximos tiveram opiniões políticas bem diversas: como Heidegger e Sartre tinham filosofias parecidas, assim como Nietzsche e Deleuze, apesar de não concordarem politicamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *