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20/11/2017

Saudades do futuro


O passado é sempre melhor. Essa frase não vale para todos, mas até mesmo os que viveram guerras, catástrofes ou longos períodos de pobreza ou opressão, possuem nostalgia de “tempos que não voltam mais”. É uma regra geral do Ocidente. Há sempre um passado de ouro que fomenta saudades.

É fácil cair nesse senso comum um tanto ingênuo. Mas o pensamento que o denuncia e que o adjetiva como uma tolice não age a partir senão de uma perspectiva também pouco crítica. A investigação filosófica e histórica desnuda tais enganos rapidamente. Não sentimos nenhuma nostalgia e muito menos saudades quanto ao que vivemos, mas quanto ao que imaginávamos que seria o futuro. Nós só temos nostalgia do futuro. Temos saudades do não vivido.

Quando consultamos a literatura ou quando temos condições de uma investigação aguda de nós mesmos, salta aos olhos o que ficou no fundo da Caixa de Pandora. É a esperança que temos, sentida a cada época, ou seja, nosso vislumbre de um futuro melhor, que marca uma era ou “um tempo”. Depois, quando vem a nostalgia dessa época, não estamos efetivamente nos referindo ao vivido no cotidiano, mas ao sentimento de alegria de quando fomos capazes de imaginar que o tempo vindouro iria nos premiar. É esse sentimento de final de sexta feira, essa tensão relativa à festa e à liberdade que podem ocorrer no sábado, que nos marcou. É isso que louvamos no passado, não propriamente o passado. Lembramo-nos de quando éramos jovens e, então, sonhávamos como jovens.

A nostalgia do futuro é o louvor ao passado que não se viveu na realidade, mas que esteve presente em determinado momento por meio do sonho. Quando uma mulher diz da parte boa do seu passado, raramente se lembra de seu marido, mas daquele que ela iria namorar, mas não namorou. Homens também têm esse tipo de pensamento. Ambos lembram como sonharam ter profissões que não vieram, e como era bom no tempo que ao sonhar, acreditavam que podiam. Uns pensaram que teriam aventuras que não ocorreram, mas porque um mundo de aventuras é para o cinema. Mas o tempo em que acreditavam ou tinham a esperança de tais aventuras, mesmo vivendo de modo horrível, é visto agora como um “tempo bom”. A nostalgia do que se esperava e não do efetivamente vivido é o centro ou o núcleo de qualquer lembrança boa do passado, mesmo quando se está falando de lembranças boas efetivamente vividas.

Esse é um sentimento tipicamente moderno, ou melhor, moderno no sentido de cristão, de não-antigo. Os gregos antigos não viam o tempo como linear e em ascensão para um fim determinado. Mas a religião judaico-cristã enfiou a teleologia na história, com a tal Terra Prometida, a vinda do Messias e alguma forma de Juízo Final. Platão até falou em julgamentos após a morte, diante de um tribunal, mas era algo não teleológico de um povo, mas alguma coisa individual e, de certo modo, completamente voltada para as questões de cultivo da alma diante do afã do grego de cuidado com o corpo. Diferentemente, nós modernos aprendemos a fixar pontos de chegada na história coletiva em articulação à história individual. Modificamos a noção de esperança, engravidando-a de história, e com isso alimentamos nosso dia-a-dia não com afazeres do dia-a-dia, mas com sonhos que só se tornam datados bem mais tarde. Ser moderno é saber sonhar acordado.

Quando o tempo passa, então, nossa memória é antes de tudo dos sonhos que tivemos, e não do que vivemos. Aliás, reconstruímos em nossa memória o que vivemos, deturpando tudo, e isso segundo os sonhos que fomos pondo na conta do viver, na medida em que eles se realizaram ou não. Mesmo para os que tiveram os sonhos realizados, sempre alguma coisa não vivida, só sonhada, ficou lá para trás, e isso comanda nossa nostalgia, não a verdadeira conquista ou benesse efetivamente alcançada.

Essa característica do homem moderno não é simples de se perceber. Há aqueles que de alguma maneira a percebem de modo meio que enviesado, sem grande clareza sobre o que fazer com seus sentimentos do passado, e, então, não podendo apagar a confusão mental que os atinge, acreditam poder tirar vantagem do que não sabem bem o que é. Estes são os que imaginam ser inteligentes por não ser como tantos outros, que possuem nostalgia disso. Surgem os não-nostálgicos. São os que teimam em se apresentar como arautos do não-sonho. São os detratores de toda e qualquer utopia.

Quanto a estes é fácil ver como caem no ridículo. Deixá-los escrever ou falar é a melhor coisa para se perceber que não são críticos ou inteligentes. Eles só sabem funcionar no conto do contraponto. Acham que negando o que outros fazem, eles são os sabichões, os doutos, os “analistas”. Cinco frases e logo se revelam como militantes políticos da causa da mais nojenta realpolitik. A inteligência não melhora em nada naqueles que querem se mostrar não-nostálgicos, ou que nem sabem direito o que é ter nostalgia do futuro. A inteligência não é uma faculdade que cresce por conta de um “realismo” que exige não sonhar no presente. A inteligência do ocidental está tão entranhada com a teleologia que o sonho do passado, pelo qual amamos o passado, e o sonho atual, pelo qual vivemos e temos esperança, é um tipo de alimento próprio que nos faz pensar melhor, ou simplesmente poder pensar.

Há uma associação entre inteligência e plano, há uma associação entre falsa inteligência e não saber estabelecer planos, com quimeras no meio ou não. Repare nisso.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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6 Responses “Saudades do futuro”

  1. Guilherme Gouvêa Picolo
    04/09/2015 at 14:37

    O futuro já não é o mesmo do passado.

  2. roberto quintas
    31/08/2015 at 13:40

    parece um dilema, professor: tendemos a dourar nosso passado [mítico] e da mesma forma tendemos a dourar nosso futuro [igualmente mitico]

  3. Leni Sena
    28/08/2015 at 20:53

    Taí um sentimento do qual não sai de mim, essa nostalgia as vezes se entristece por não transpor alguns sonhos para o plano real, normal. Mas o que mais pega mesmo é que dependendo do nível de animo em relação a realização ou não pode afetar a capacidade de produzir novos sonhos. Sabemos que por mais que os sonhos já sonhados não ganhem o mundo, eles sempre vão estar protegidos pelo manto da esperança no fundo da caixa de Pandora. No entanto a capacidade de dar asas a novos sonhos pode se esvair e o que fica é um bando de roda presa, que em vez de curtir e saborear a saudade ruminam contra os que não perderam tal capacidade.

  4. Bruno Zoca
    28/08/2015 at 13:21

    “Quando o tempo passa, então, nossa memória é antes de tudo dos sonhos que tivemos, e não do que vivemos.” Achei magnífica a frase, ela deixou o pensamento mais do que claro. Interessante como tem a ver suas explicações. Me lembrei agora de alguns momentos de quando criança – aqueles de dar frio na espinha, foram momentos em que eu estava vivendo uma ação mas sonhando lá na frente…

  5. Pedro de Faria
    28/08/2015 at 12:11

    Nossa, esse texto é tão curto mas com tanta coisa. Mas não é verdade, como creem alguns, que não haja nada no passado que nos permita sonhar com um futuro melhor. Este governo mesmo nos mostrou que com muita corrupção e mentira se consegue aprovar melhorias consideráveis para a população…

  6. Carlos Frederico Branco
    28/08/2015 at 09:12

    O tempo é uma ilusão?

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