Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

25/03/2017

Sartre e a liberdade


A escola filosófica de Jean Paul Sartre (1905-1980), o existencialismo, foi algo tão amplo quanto o movimento intelectual da Escola de Frankfurt. Em determinado período do século XX, os mais diferentes e divergentes filósofos se diziam existencialistas.

A ideia básica do existencialismo de Sartre pode ser expressa pela frase “o homem está condenado à liberdade”. Nada poderíamos fazer, ao ter de tomar qualquer decisão, a não ser criarmos ou inventarmos a nossa própria saída para o possível impasse no qual estaríamos metidos, exercendo assim nossa liberdade e, enfim, nos responsabilizando pelas consequências de nosso ato. Ninguém poderia vir em nosso auxílio para nos eximir, depois, da responsabilidade da decisão que tomamos. Nada ofuscaria nossa liberdade, pois esta seria a única coisa efetivamente obrigatória em nossa vida. Todos os nossos atos – linguísticos ou não – seriam de nossa responsabilidade, e de mais ninguém.

Uma compreensão errada do existencialismo que, não raro, esteve presente na história da filosofia do século XX, foi a de evocar atenuantes de toda ordem para poder dizer que o homem não age livremente como Sartre dizia que ele age. Mas a liberdade a que o homem está condenado, na acepção sartriana, não poderia ser atenuada por nada, uma vez que ela nunca foi pensada a partir do enfrentamento de barreiras psicológicas, históricas, ideológicas e coisas do tipo. Todas essas barreiras não podem ser evocadas; e isso por uma razão simples: nenhum homem conseguiria não exercer algo que é da natureza da liberdade: a decisão. Um exemplo ajuda.

Pode-se tomar uma decisão X que é ruim ou boa, mas o que não se consegue fazer é não decidir (não decidir é, afinal, decidir não decidir – lembre-se). E uma vez optando, essa opção X carrega todo o mundo junto com seu autor, pois cria uma trilha, um rastro, um tipo de jurisprudência. Dali para frente, todo e qualquer homem pode fazer referência ao tipo de opção X tomada, e isso a fim de melhor ponderar a sua própria opção e para dizer assim: o ser humano toma tal caminho, pois eu sei quem tomou tal caminho.

Não haveria nenhum tipo de essência humana, segundo a qual um homem age de um modo ou de outro, ou mesmo não age – o que também é uma forma de ação. A única condição humana seria a de estar no mundo, de existir. A uma decisão X, então, se estabeleceria uma projeção daquele homem sobre o mundo. Sua existência seria projetada no mundo e daria uma via a mais para toda a humanidade caminhar – a via aberta pela decisão X. Todos os homens, então, teriam sido redefinidos. O senso comum não existencialista pode dizer: o homem é aquele que por natureza toma (entre outras) a decisão X. E o existencialista diz diferente: o homem é aquele que decide e, se um decidiu por X, mais um caminho (além de tantos outros) está aberto para o homem.

Mais um exemplo, para que fique claro. Você está em um ônibus e o ponto que gostaria de descer está próximo. Você vê, então, um malfeitor entrar no ônibus e percebe que o ambiente ali não vai ficar bom. Sua pressa para descer aumenta e, enfim, realmente você havia planejado descer no próximo ponto. Todavia, quando o ônibus se aproxima do ponto, você nota que lá fora há uma confusão entre policiais e ladrões e um grande tiroteio. Descer ali seria altamente perigoso. Ficar resultaria, certamente, em ser assaltado, pois tudo indica, pela sua experiência, que o malfeitor não está ali no ônibus à toa. Pois bem, como decidir? Ficar? Descer e correr? Descer e ir para a esquerda, onde parece que estar mais calmo? Ou descer e ir para a direita, onde apesar de estar mais atribulado, é o lado da polícia? Ou simplesmente não descer? Nesta hora, o que ocorre é que você vai decidir – ninguém vai decidir por você. Não são as circunstâncias que estão decidindo por você. Você não pode acusar as circunstâncias por serem elas as responsáveis por sua decisão, pois quando não haveria circunstâncias? Acusar as circunstâncias, tomadas genericamente como “as circunstâncias”, implicaria em imaginar um mundo sem circunstâncias – mas no mundo de quem existe, todo o tempo é preenchido por circunstâncias. É você que está assumindo a sua existência, que é a sua vida no interior de todas as circunstâncias de quem está no mundo, e que vai decidir, pois isto é estar no mundo.

Feita a escolha, sua vontade, sua tomada de posição se faz presente no mundo, é projetada no mundo e abre uma via pela qual o mundo passa a ter um acontecimento a mais. Para o mundo, um fato; para você, uma situação que lhe trará consequências. Para a humanidade, uma via a mais. Não importam mais quais são as consequências – você deverá arcar com elas. Você fez uma escolha e, fazendo a escolha, exerceu sua liberdade. Exerceu a liberdade como quem não tem outra saída senão optar e exercer a liberdade. Não há como culpar as circunstâncias e dizer “não escolhi, fiz o menos pior”. Pior ou melhor, a decisão foi sua. Não haveria sentido você imaginar poder decidir, sempre, sem as circunstâncias piores ou melhores. Pois se assim fosse, não haveria mundo, nem existência alguma. Se você pudesse optar e no ato de optar mudar as circunstâncias você não estaria optando e muito menos estaria em uma situação vital e natural, você estaria num mundo mágico. Se a cada opção você pudesse mudar as regras do jogo, ou seja, alterar o mundo de modo a dizer que, então, entre o bom e o ótimo você teria certeza que poderia optar, a vida não estaria ocorrendo. Se assim fosse, não valeria falar em liberdade ou em opção ou decisão – não estaria ocorrendo nada, não haveria o plano da existência.

A doutrina humanista que Sartre abraçou, portanto, era bastante diferente do Humanismo que acobertou os modernos. Para Descartes ou Rousseau o homem tinha, sim, uma essência. A razão lhe era inerente. Para Sartre, as determinações do homem não seriam dadas por nenhuma essência, nenhuma instância metafísica, mas somente pela existência. E a existência seria, enfim, viver e estar sob aquela condenação – a de ser livre.

Outra confusão que alguns fazem, ao começar a ler Sartre, é acreditar que ele, ao dizer que ao tomar uma decisão você carrega o mundo junto com você, está advogando algo parecido com um princípio do tipo kantiano. Um princípio assim seria aquele mais ou menos expresso nesta forma: eleger como lei universal aquilo que você toma como uma regra para a sua ação particular. Mas Sartre está longe desse universalismo kantiano. No pensamento sartriano, a ideia de que você leva toda a humanidade junto como você, na sua decisão, não tem referência a uma posição que tem o direito de se universalizar. O que ocorre quando você opta, para Sartre, é que um caminho seguido está dizendo a todos os homens: “vocês ainda não experimentaram este caminho? Não? Bom, eu experimentei, ele é um caminho possível”. E daí em diante, você abriu uma picada na floresta, uma senda no mundo das realizações dos homens. Uma opção com jurisprudência, com história, para outros. Ainda que nenhum homem venha a tomar uma decisão, em circunstâncias parecidas aquela que você tomou, a humanidade nunca mais poderá dizer que ela não tem aquela opção. Você, como membro da humanidade, deixou a história daquela opção gravada. O seu projeto ou, melhor dizendo, a sua projeção no mundo nunca mais poderá ser apagada. Nenhum grama vai nascer na trilha aberta por você, ainda que passe mil anos e que essa trilha não seja nunca mais percorrida. Você exerceu sua liberdade. Fez a liberdade valer. Fez a liberdade.

Sartre nunca pensou em uma noção de liberdade que não fosse exatamente esta: a liberdade só se faz presente no momento da decisão. Não há o “espírito da liberdade”. A liberdade é o ato de decidir, de negar uma possibilidade e afirmar outra. Este ato é o ato que consubstancia a liberdade; seja para qual lado a decisão possa pender, o ato que faz a própria liberdade ocorrer é o de decidir. Terminado o ato, a liberdade desaparece novamente, para ressurgir no ato seguinte de decisão.

 Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

Tags: , , ,

17 Responses “Sartre e a liberdade”

  1. ufsm
    29/09/2016 at 09:54

    Posso dizer que segundo Sartre: o homem é livre para fazer escolhas, mas deve arcar com suas consequências ?

    Ou ele não aborda a questão das consequencias?

    • 29/09/2016 at 12:16

      Aborda sim, mas não são elas que definem a liberdade, e sim a obrigação (!) de ter de escolher.

  2. Vanessa Lopes
    08/12/2015 at 12:13

    Como posso utilizar Sartre ao dirigir – me a um juiz de direito, da vara de execucoes penais, quando o sujeito que agiu contra a Lei, escolheu um caminho que resultou lhe em prisao. Mas suas acoes foram referentes a querer estar mais proximo do seu filho???

    • 08/12/2015 at 12:26

      Ele tomou sua decisão, usou de sua liberdade, e isso tem a ver com responsabilidades. Que as pague. Sartre é implacável como a própria liberdade é implacável. Hoje em dia, Sloterdijk chega a dizer que até nossas necessidades são, na verdade, não necessidades, mas necessidades postas por escolhas nossa, portanto, liberdade. Ele tem certa razão. Agora, se você quer atenuante para seu cliente, use outra coisa, não Sartre. Pois se você voltar Sartre para que u Juiz pense na liberdade dele, Juiz, ele vai se ofender.

  3. André Tiveron
    10/10/2014 at 13:41

    Sartre interpretou, com toda a isenção religiosa, aquele conceito indiano de “karma” e o cristão de “livre arbítrio”, transpondo-os para a vida cotidiana?

    Os dois conceitos (karma = responsabilidade pela consequência dos atos; livre arbítrio = liberdade de decisão) poderiam ser encarados como uma extrapolação mística do tipo de liberdade que Sartre enuncia?

    • 10/10/2014 at 17:46

      A liberdade de Sartre é esta aí que expliquei. Ocorre NA decisão.

  4. Wagner
    02/10/2014 at 19:41

    Monto um debate; um diálogo, uma peça teatral imaginária entre Sartre e Nietzsche e ponho-me prazerosamente a assisti-los. É fantástico o espetáculo que o pensamento pode nos proporcionar!

    • 02/10/2014 at 19:43

      Wagner, trata-se da “experiência como o pensamento”, de Nietzsche. A proposta experimental de Nietzsche.

  5. Ademar Braga
    02/10/2014 at 14:15

    Como Sartre toma o sujeito? como autêntico e verdadeiro? O homem existe? Ou é uma figura recente da cultura ocidental?

    • 02/10/2014 at 15:19

      Sartre é um dos últimos filósofos do sujeito nos moldes modernos.

  6. Fábio Brum
    02/10/2014 at 12:47

    Caro prof. Paulo, eu tenho uma dúvida sobre Sartre. Quando ele diz que não há essência humana antes da própria existência humana, e, em seguida, afirma que o homem está condenado a ser livre, este “homem” já não pressupõe um conceito universal de homem, no qual a simples constatação de que todo homem se encontra na mesma condição (a de ser obrigado a fazer escolhas) já envolve algo de “essencial”? Quero dizer, não haveria, necessariamente, ter de haver um logos, uma consciência, etc..que seria a essência do homem, e que explicaria por sua vez o motivo pelo qual todo e qualquer homem é condenado a ser livre?
    A minha dúvida surgiu ao contrapor o texto de Sartre “o existencialismo é um humanismo”, com a leitura de Camus, “O mito de Sísifo”. Camus afirma que ao tomarmos consciência de nossa finitude, ao nos depararmos com a realidade da morte, percebemos que não pode haver liberdade no sentido absoluto, a única liberdade que é possível ser pensada nesse sentido é a liberade de ação, e aqui ele parece se aproximar de Sartre com o conceito de engajamento. Mas Camus pondera que a consciência de nossa finitude revela o absurdo da vida, e nisso, ele me parece mais radical que Sartre, no sentido de que parece realmente descartar uma essência humana, ou ao menos parece tentar com mais força se livrar desse conceito e se debruçar sobre a existência humana, retirando do contato com o absurdo suas três consequências: a revolta, a liberdade e a paixão de viver. O que me questiono, e muito me interessa saber o que o sr. pensa a respeito, é até que ponto Sartre realmente consegue romper com o conceito de essência, pois me parece que até Camus não o faz de fato, embora, no meu entendimento, persiga com mais sucesso(?) tal empreitada, quando coloca em jogo a noção de absurdo. Enfim, talvez eu não tenha sido tão claro quanto gostaria, mas aguardo por suas observações. Grande abraço!

    • 02/10/2014 at 15:47

      Brum: a universalidade existencial, ou seja, estar no mundo (coisa de todos, eu e você), implica em ter de decidir tudo e, portanto, exercer a liberdade de dizer “vou por aqui” ou “não vou por ali” ou “não vou a lugar algum” ou “não vou decidir”.Como a liberdade em Sartre também não essencial, ela só vai ocorrer no momento da decisão, e feita a decisão, ela se encerra. Então, estar no mundo, funcionar na condição desse ser-aí, é ter de ficar fazendo a liberdade ocorrer, e ela ocorre a cada decisão. Cada decisão é única e, portanto, abre precedente ou faz “jurisprudência” e, assim, é um caminho aberto para todos os homens. Cada decisão arrasta todos os homens. Pois eles terão, entre tantas decisões possíveis, mais esta recém aberta. Isso que eu acabei de dizer não coloca Camus em contraposição a Sartre. É que seu entendimento de Sartre, no início do seu texto, está errado.

    • Fábio Brum
      02/10/2014 at 19:13

      Caro prof. Paulo, eu ainda fico na dúvida nesta questão da liberdade como algo essencial. Sartre afirma que “a própria angústia constitui a condição da ação”, no sentido de que a angústia, conforme o sr. explicou, é esta consciência de que minha decisão envolve sempre o outro, nunca é uma decisão subjetiva no sentido do “indivíduo que escolhe por si próprio”, mas sim que “escolhendo-se, escolhe todos os homens”. Até aí tudo bem. Mas como o sr. observa, a liberdade só surge no momento da decisão, e nunca antes. Logo, me parece, acompanhando seu raciocínio, seria mais correto afirmar que o homem está condenado a escolher, decidir; e não condenado a ser livre, sendo que a liberdade, assim como a essência, é posterior à existência. Minha dificuldade de entender essa posição de Sartre é justamente compreender o que seria o fundamento da escolha, da decisão, uma vez que não pode ser a liberdade, pois, se fosse, teria de ser anterior à decisão, e, nesse sentido, algo de essencial ao homem. Mas como Sartre recusa a tese da essência, isto não poderia ser sua intenção. O que o sr. pensa sobre isso? Grande abraço.

    • 02/10/2014 at 19:41

      Brum: a liberdade NÃO é algo essencial. É existencial. Ela ocorre na DECISÃO. No momento da decisão. Ela não existe fora da decisão que acontece aqui e agora. Quando ela ocorre, ela vira um caso que é uma jurisprudência, por isso ela carrega todos os homens. Ou seja, ela é um caminho que alguém já traçou, uma decisão já tomada, então, todos os homens também estão com ela em aberto. Você está criando chifre na cabeça de cavalo porque não consegue entender que a liberdade é a decisão, caso não fosse, ela teria de ser algo essencial, ou seja, algo posto fora da vida que ocorre. Deu agora?

    • Fábio Brum
      02/10/2014 at 19:56

      ok professor. obrigado pelos esclarecimentos, e pela paciência. grande abraço.

  7. Usp10
    02/10/2014 at 10:57

    Professor, você concorda com a ideia de que Sartre foi o filósofo mais famoso do século XX? Não que ele tenha sido o mais importante mas muito do que ocorreu na contracultura, dos anos 60 em diante, foi influenciado pelas suas ideias.

    • 02/10/2014 at 12:47

      Na filosofia continental Sartre ocupou um espaço grande sim. Ultrapassou os muros da filosofia por conta da militância e do estilo. Virou pop. Chegou a irritar Heidegger por isso, que o chamou de “jornalista”. Suas sucessivas recaídas no marxismo partidário o mancharam. Mas ele até hoje está no coração de muita gente. Podemos descobri-lo em Rorty ou Sloterdijk, sem que esses o tenham lido como discípulos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo