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28/04/2017

Santa endemoniada classe média


O jovem professor da USP Pablo Ortelado escreveu em seu facebook: “O duplo padrão da classe média – que se indigna com o ‘mensalão’ petista e é absolutamente indiferente à roubalheira tucana no metrô – nada mais é que preconceito de classe contra essa gente pobre, feia e ignorante que usurpou das elites o governo do país.”

Não creio que o Pablo seja petista, e entendo sua fala no que julgo essencial, o problema maior dele nesse escrito é mais com a classe média que com qualquer questão partidária. Todavia, por isso mesmo, escolhi essa sua fala, pois ela soma (ou não?) com outra, a da professora Marilena Chauí, aposentada da USP. Também ela amaldiçoou a classe média, em especial a paulistana, em um discurso aplaudido freneticamente por meninas do PT e também por Lula e Dilma. Não faltaram críticas a ela, até de candidato à presidência. Surgiram protetores da tal classe média em todo canto! Até Aécio fez seu ghost writer trabalhar a mais!

No entanto, recentemente em entrevista ao Jornal Nacional da Rede Globo, a presidente da República Dilma Rousseff, petista, disse em alto e bom som “queremos um país de classe média”. Bem, então ela está dizendo o que? Ela quer um país povoado pelos amaldiçoados da Marilena e os preconceituosos do Pablo?

Pablo, Marilena e Dilma estão sabendo do que falam quando usam a expressão “classe média”? E o colunista da Folha Pondé, arauto da direita, que na rede Bandeirantes quis ridicularizar Marilena Chauí por ela ter atacado a classe média, ele sabe o que diz? Afinal, essas figuras todas aí, acham que estão conversando ou falando algo possível de ser entendido? Ou estão falando qualquer coisa, deixando tudo muito dúbio, como convém ao discurso político, sempre ideológico e então propositalmente nada claro?

Pressionada, Marilena Chauí fez um vídeo explicando a noção de classe média que usou. Isso me satisfez em parte. Seguindo o marxismo, ele tirou da noção de classe média todos aqueles que, em geral, estão na classe média por meio da sociologia própria do IBGE e organismos similares. Derivando seu esquema daquele originário das lutas de classes na Europa, especialmente no tempo de Marx, ela pensa a classe média como sendo a burguesia, em oposição à aristocracia e ao proletariado, ou seja, como os detentores dos meios de produção. Desse modo, se não é renda e sim propriedade ou não propriedade dos meios de produção que importam, pode-se até concordar com ela que parte de nossa burguesia pensa como ela diz que pensa, ou seja, muito mais à direita que à esquerda.

Mas, assim mesmo, surge aí a dúvida sobre a que ela estava pensando quando falou classe média: se ela estava se referindo à burguesia (os donos dos meios de produção), é difícil dizer que esse pessoal tem apego doutrinário nitidamente à direita. É mais fácil encontrar essa mentalidade de direita em profissionais bem sucedidos, ou executivos bem sucedidos, especialmente aqueles que já vieram de lares dominados pela riqueza e pelo conservadorismo, que nos grandes empresários. Estes tendem a ser mais pragmáticos, e sabem muito bem que o aquecimento da economia que o governo do PT proporcionou, é o que os faz manter suas empresas funcionando e as suas mulheres falando mal do PT, muito preocupadas com a corrupção. Então, a clareza de Marilena Chauí reentra pela janela e novamente acaba sendo empurrada através da porta.

Mas e Dilma e Pablo, estariam falando do que?

Dilma quer um país de classe média, ou seja, a classe média medida pelo IBGE – só poder ser. Pois ela não usaria o critério marxista. Ela não poderia estar falando de donos dos meios de produção, por razões óbvias. Então, se ela está pensando no modelo de renda para definir classe média, ela está dizendo o que? Quero crer, que se ela deseja que o Brasil tenha sua maioria da população na classe média, ela queira que essa classe média seja aquele grupo que viva de um modo razoável, mas sem a “mentalidade de classe média”, que um pouco segundo Marilena, e decisivamente segundo Pablo, possuem um comportamento conservador, talvez hipócrita. É isso? Tudo indica que sim.

A pergunta que fica é essa: é possível aumentarmos a classe média no Brasil, transformando-a em maioria numérica, sem que seu conservadorismo se espraie por toda a sociedade? Os Estados Unidos fizeram isso, há uma vida razoável dos americanos em termos da possibilidade de se conseguir bens de consumo, e ao mesmo tempo só metade do país opta por candidatos mais conservadores. Vamos conseguir isso no Brasil? É isso que Dilma quer?

Vejam a quantidade de inferências soltas que tenho de fazer para escrever sobre esse tema! Isso porque Pablo, Dilma, Pondé e Marilena não aprimoraram o que querem dizer sobre a que se referem quando falam em classe média. E a exemplo desses quatro, muita gente anda conversando a respeito do Brasil segundo esse padrão de dubiedade, talvez proposital. Parece que o que se deseja, mesmo, é sempre ter uma carta na manga para, uma vez questionado, dizer “ah, não foi isso que eu disse!”. Se assim ocorre, estão todos conseguindo mais que cartas, mas coelhos e cartolas. E muita ideologia.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo

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6 Responses “Santa endemoniada classe média”

  1. eduardo
    21/08/2014 at 08:12

    Chamem como quiser, o base é que existem dois “grupos” ou seja lá o que for no Brasil: os playboys e os favelados. O RAP frequentemente fala isso. O que o pessoal chama de “classe média” ou é playboy com falsa modéstia, ou é favelado que quer ser playboy, como se o nome magicamente os fizesse ser aceito entre eles.

    • 21/08/2014 at 10:39

      Eduardo! Bem, não é disso que falo. Acho que você passou longe.

    • LMC
      21/08/2014 at 12:09

      Eduardo,como você saiu
      do hospício e não voltou,
      saiba que várias pessoas
      de classe média foram
      presas pela polícia
      durante os protestos
      contra a Copa no Brasil.
      Bom,a turma do PCC
      adora o rap,também.

  2. Douglas Benício
    20/08/2014 at 21:55

    As vezes custo a pensar que seria possivel sim aumentar o número de pessoas na classe média sem que haja o tal do conservadorismo.

    No entanto, saimos de uma redemocratização e da época da Casa Grande e Senzala muito recentemente.

    De 2002 pra cá a vida do brasileiro melhorou muito (em termos de IBGE), mas, o mesmo que consegue comprar um carro 1.0 com isenção de IPI dada pelo governo, já acha que isso foi devido a seu merito. Pior ainda são os professores e alunos universitários que negligenciam a expansão de bolsas da CAPES ou do CNPq a uma atitude governamental, pois acham que, se são bolsistas, são graças ao Santo Mérito.

    Se conseguiram uma mobilidade social graças à bolsas, concessões ou qualquer tipo de intervenção populista, foi o Mérito.

    A vigência do pensamento da colõnia continua forte no Brasil, e não vamos pra frente enquanto isso não mudar.

  3. Cesar Marques - RJ
    20/08/2014 at 10:55

    “é possível aumentarmos a classe média no Brasil, transformando-a em maioria numérica, sem que seu conservadorismo se espraie por toda a sociedade? Os Estados Unidos fizeram isso, há uma vida razoável dos americanos em termos da possibilidade de se conseguir bens de consumo, e ao mesmo tempo só metade do país opta por candidatos mais conservadores.”

    Tenho um exemplo melhor que os EUA: O Canadá. Esse é um país de maioria numérica de classe média, cuja população é bem mais progressista que a dos EUA, inclusive, do ponto de vista moral (no Canadá o Casamento Homoafetivo já foi instituído em sua plenitude, enquanto nos EUA, não há data para tal instituto ser implementado). E isso, dentro do Liberalismo.

    • 20/08/2014 at 11:08

      Cesar os índices de violência no Canadá, contra a mulher e outros elementos desse tipo desmentem a coisa.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo