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25/05/2019

Sade penetrando você: o coito anal e a trindade.


Sade, perichoresis e subversão na fundação do mundo moderno

Até mesmo professores de filosofia sofrem diante de filosofias de trança-pés. Elas são sutis por serem grosseiras. Ficam na feira gritando e, então, atingem o que desejam pegando os ouvidos dos incultos e tapeando o ouvido dos pretensamente cultos. Sade foi dono de uma filosofia assim.

Sade fez tanto pela Revolução Francesa quanto Napoleão. E no mesmo sentido: abriu o mundo para os tempos modernos com o ímpeto de se tornar príncipe dos vulgares, ainda que seu pensamento não fosse nada vulgar. Napoleão foi para Hegel o Espírito a cavalo. Queimando cartórios eliminava títulos de nobreza e implantava na Europa uma nova ordem, esta que mais ou menos conhecemos hoje: a era burguesa, a era da etiqueta copiada, do realismo burguês, da perda do gosto e, enfim, da condescendência (meio liberal, meio socialdemocrata) para com “os de baixo”, mesmo que se tenha de mata-los se eles participam de alguma “Comuna de Paris” por aí. Anos antes, Sade queimou a boa literatura em favor da literatura pornográfica, nem sempre bem escrita, e com uma forte agulha anticlerical. Nessa sua obra a pornografia foi usada para atrair os menos cultos, tornar a vida popular mais alegre e peçonhenta e, assim, falar o que se tinha de falar de modo a ser condenado apenas pelo crime visto, não pela monstruosidade não vista.

A monstruosidade não vista ou, talvez, vista só pelos olhos dos mais cultos que os cultos – alguns filósofos e certamente o alto-clero – estava em sua capacidade de afrontar noções sofisticadas de uma das mais poderosas concepções de mundo e de uma das mais perfeitas filosofias: a concepção de mundo judaico-cristã e a filosofia da Igreja Católica. Sade foi o libertino que realmente atingiu o coração do seu próprio mundo, o mundo da nobreza. Não bateu no velho mundo por atingir a nobreza, tão escandalizada com ele quanto a burguesia, mas por subverter de maneira grosseira, e por isso sutil, as noções da teologia católica.

Por exemplo, com apenas um conto, na época com um conteúdo inédito, ele esfaqueou por trás (!) a noção de perichoresis. Trata-se de uma das mais sofisticadas noções filosóficas. Ela foi cuidadosamente elaborada nos estudos das escrituras desenvolvidos pelos intelectuais da Igreja, e diz respeito à interpenetração surreal das figuras da Santíssima Trindade. Essa noção é central na trilogia das esferas do filósofo alemão contemporâneo, Peter Sloterdijk. A noção de esfera é em parte uma tentativa de falar de um campo imanente e no qual se pode encontrar luz no deslocamento de elementos internos, o deslocamento chamado ekstase, um termo de Heidegger, e que é um deslocamento estranho uma vez que os elementos internos contêm e são contidos, estão em ressonância e simbiose, em vibração e interpenetração. Podemos pensar o útero como uma esfera na qual ganhamos uma “experiência” de perichoresis. Ora, o que Sade fez foi destruir a santidade dessa noção perante o populacho e, então, torna-la ridícula para o mundo que viria, o mundo de um grosseirão como Newton. Para isso, Sade escreveu apenas um conto: “o professor filósofo”.

O conto “O professor filósofo” fazia rir e fazia corar as normalistas. Até pouco tempo escandalizava. Hoje talvez não escandalize ninguém, ainda que possa causar ódio em milhares de tolos carolas e desescolarizados que a internet incorporou, especialmente no Brasil. Trata-se de uma história em que tudo termina com o abade penetrando seu pupilo enquanto este penetra uma garota, e eis que ele diz para o garoto, que pergunta o que está aprendendo naquele momento: meu filho, você está aprendendo o que é a Trindade. O “três em um” da sofisticada e metafísica noção da teologia passa para o mundo de Newton onde “cada corpo ocupa seu espaço e dois corpos não ocupam o mesmo espaço” segundo a fórmula grosseira do coito a serviço do humor e da pornografia. A perichoresis é atingida em cheio. Não é atingida como noção teológica, mas na versão popular do que poderia ser imaginado como “três em um” pela mentalidade moderna (o “Mistério da Trindade”, dito na missa católica), e isso é o que basta. Se a religião é atingida, a teologia logo o será. Os intelectuais não vivem sem povo. Os bispos não podiam viver sem os padres e fieis.

Assim, os burgueses mais tarde, vitorianos, não engoliram Sade. Passaram a convencer também os operários a somente trabalhar; deviam “não pensar em bobagem” e “não rir”. Ora, os padres que logo se recuperaram dos baques sofridos com a Revolução, já estavam então vendo os burgueses com bons olhos, e também voltaram suas baterias contra Sade. Que todos pensassem que se voltar contra Sade era devido ao “escândalo” da pornografia, segundo padrões morais. Mas, para além dos burgueses, os bispos e os doutores da Igreja sabiam que em Sade havia, antes de tudo, a ridicularização da teologia. Uma ridicularização impossível, pois perichoresis é uma noção de uma ordem e a física de Newton é de outra ordem – ao menos hoje é assim. Mas, nisso residiu a força de Sade, deixada ao mundo moderno em uma Caixa de Pandora sem o último elemento, a tal esperança: ele confundia os planos e pegava não só o populacho, que poderia se corromper por outras questões, mas pegava também toda a mentalidade do homem culto novo, o intelectual burguês. Engenheiros, advogados, médicos e outros “professionais liberais”, totalmente dominados pelo positivismo que já se punha em aliança com um rasteiro espiritismo típico do final do século XIX, enchiam-se de anticlericalismo e se deixavam levar pela ideia de fotografar espíritos, tomar drogas para encontrar Deus e até a pesar “almas de outro mundo”. Nessa época, uma era incapaz de manter uma teologia racional e o tempo em que Nietzsche mostrou como sendo a da “morte de Deus”, Sade já havia vencido tanto quanto Napoleão. Nessa época, Napoleão, aliás, já havia mostrado que tinha mesmo vencido. Sade também. Ninguém mais conseguia tomar algo como a perichoresis segundo sua sofisticação pedida. Que Deus estivesse em Jesus e no Espírito Santo, que cada um estivesse no outro e todos, portanto, sempre num “três em um”, já não era mais algo visto como nos tempos passados, como o aumento da luz por interpenetração de três chamas. Esse final de século XIX, onde a grosseria burguesa virou regra de pensamento por meio da pseudo ciência e, enfim, da própria ciência, é a nossa época.

Estamos nisso hoje. A teologia é de tal ordem desacreditada – e não sem razão – que talvez um professor universitário (um marxista grosseiro? Um liberal realista? Um conservador fascistóide?) seja pego rindo da noção de perichoresis como Sade desejava que todos viessem a rir, podendo então assistir mesmo a subversão do poder católico e o desmoronamento de uma vez por todas do mundo pré-moderno. Estamos finalmente entrando na modernidade. Estamos tão grosseiros que já nem mesmo sabemos quem foi Sade, mesmo que estejamos sob seu comando.

Poucos entre nós pode se dar ao luxo de ver Sade atacando um lado e acertando em todos. Há os professores de filosofia que não conseguem entender a noção usada por Sloterdijk de perichoresis, tamanha a incapacidade de pensar fora do campo científico aprendido de modo rasteiro. Não foram ganhos para o time de Newton não, foram ganhos por Sade. Sade os imbecilizou e fez isso de propósito, sabendo bem o que fazia. Newton fez isso sem saber, acriticamente. Por isso, Newton, embora ensinado nas escolas, perde para Sade, também muito bem ensinado. Afinal, quem não fez a piada da Trindade associando-a à penetração tripla?

Vejam aqui o exemplo de Sloterdijk sobre perichoresis: Entrevista

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

PS. Após a leitura desse texto você, estudante de filosofia e afins, e ainda inteligente, vai pensar mais sobre a campanha de Voltaire contra a Igreja Católica, não vai? Vai também pensar mais sobre os idiotas da Internet que ficam achando “contradições na Bíblia” não vai? Ou você ainda não entendeu o que eu disse, ainda não entendeu como Sade comemora a vitória do mundo moderno por ter dito algo que poderia ser escrito assim: “vou derrotar o mundo antigo por escrever modernamente, vou fazer o grosseiro mudar a cabeça dos que vão mudar a cabeça por serem grosseiros, vou fundar o mundo moderno com sendo ele mesmo uma derrota dos humanos”.

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12 Responses “Sade penetrando você: o coito anal e a trindade.”

  1. 09/08/2018 at 21:19

    Caro professor,

    Minha indagação não é exatamente sobre o texto, mas sobre Sade. Assisti seus vídeos sobre o Divino Marquês e vi que muito se assemelha à interpretação que Contador Borges tem nas edições da Iluminuras sobre Sade. Temos um autor materialista eminentemente preocupado com a questão já refletida na filosofia antiga no tocante ao controle do desejo, embora com uma pedagogia própria que é desenvolvida no Castelo de Silling – como em 120 Dias de Sodoma.

    Por outro lado, temos também a interpretação de Eliane Robert Moraes que, ao meu ver, é pobre e filosoficamente descontextualizada. Moraes vê Sade não como um filósofo libertino, mas o coloca no lugar-comum de um comportamento tipicamente contestador do período da Revolução Francesa. Ela o coloca como um literato, não um filósofo. E o que me preocupa e me intriga é que ela é vista como uma eminente pesquisadora de Sade no país.

    O que o senhor pensa da visão de Moraes e de Contador Borges?

    Agradeço o espaço.

    • 10/08/2018 at 09:47

      Sade não é um filósofo no sentido tradicional da palavra, claro. É um “fazedor de ideias” .Mas negar ao libertinismo um lugar no campo filosófico seria bobagem, pois ele teve um peso e ainda tem. A filosofia francesa é sempre mais “literária” que outras. Eu sou um filósofo que dou muita importância para história das ideias, das mentalidades, para formação cultural, na linha de Rorty, Sloterdijk etc. Então, não posso desconsiderar Sade.

  2. Estevan Pratz
    28/01/2015 at 00:50

    Excelente texto. Primeira vez no seu site e logo me chamou a atenção um texto sobre Sade, falando DE VERDADE sobre ele. Você acredita que foi a total falta de humor do universo cristão a brecha pela qual Sade se utilizou para fazer desmoronar, sutilmente, o edifício teológico cristão? Talvez o erro dos romanos, diante do crescente movimento cristão, tenha cido levar a sério demais aqueles fanáticos; ao invés de jogá-los no coliseu, poderiam apenas ridicuráliza-los, não tendo mártires o cristinianismo talvez teria acabado como tantas outras seitas subterrâneas que infestavam o império romano, renegadas ao esquecimento.

  3. Afrânio
    26/01/2015 at 01:09

    Algo próximo daquilo que Weber chamou de desencantamento do mundo moderno? Sade ao se utilizar das “novas linguagens modernas” para descrever o pensamento teológico cristão patrístico para um mundo moderno burguês apenas o fez para gozar da nova condição humana e da velha também? A nova que não entende os recursos nem as linguagens da velha porque seus novos recursos de interpretação do mundo fazem tudo parecer grosseiro e anacrônico?

  4. PEDRO DE SOUSA
    16/01/2015 at 16:06

    Não sei se a teologia anda tão descreditada assim. Você já quanta gente anda estudando teologia!

  5. 4F
    16/01/2015 at 15:02

    Pergunta: Seria correto dizer que aquilo que Sade começou no campo popular, segundo o texto, foi completado por Nietzsche no campo filosófico “sério”? (Ou seja, uma crítica “destrutiva” da teologia cristã.)

    Quando li no post scriptum do texto:

    “vou fazer o grosseiro mudar a cabeça dos que vão mudar a cabeça por serem grosseiros”

    não consegui evitar pensar num setor da classe media/alta que assiste algumas telenovelas da Globo e conclui achando que existe um certo charme na pobreza, que pobre “sabe se divertir”.

    • 16/01/2015 at 15:04

      Nietzsche não mexeu um dedo contra a teologia cristã! Deus está morto, para que mexer com morto?

    • 16/01/2015 at 15:07

      4F acho que você não entrou no espírito do texto, do mundo do texto. Bem, agora, sobre Nietzsche, ele não mexeu com a teologia cristã. Deus está morto, para que mexer com morto?

  6. Wagner
    16/01/2015 at 14:59

    Maquiavel, Sade e Nietzsche…
    Trindade moderna?

    • 16/01/2015 at 15:05

      Wagner, nada a ver com o que eu escrevi. Minha questão é a noção teológica aludida.

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