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24/06/2017

Saber viver é saber fazer o maior caber no menor


“Sob o signo da comunicação global, o tempo do mundo penetra no tempo da vida individual. Parece como se o tempo do mundo engolira o tempo da vida individual, como se não houvesse interesse por ela. Porém a verdadeira vida é a individual (…) O que em geometria é um absurdo pode ser alcançado no terreno prático da vida, a saber, que o círculo maior esteja contido no círculo menor de nossa vida, porém sem fazê-lo explodir”. É assim que Rüdger Safranski fala nas páginas finais de seu belo Quanta globalização podemos suportar? escrito em 2004, mas cada vez mais atual.

Por duas vezes aconteceu-me viver um momento em que essa situação aludida por Safranski fez completo sentido. A primeira ocorreu em 1970, quando o Brasil foi tricampeão mundial. Foi uma euforia louca, uma explosão. Todos saíram às ruas. Naquela época as mulheres nem viam futebol, mas, como que tomadas por um tsunami de Red Bull, também foram buzinar nas avenidas e praças. Formarem-se os corsos de carnaval. Em todas as cidades a tal “corrente prá frente” e os tais “90 milhões em ação” se puseram despertos em uma orgia unidirecional.  Saí de casa naquele dia de vitória e, focado no que eu queria, fui com a minha bola, sozinho, jogar basquete na quadra do colégio. Eu e meu tempo. Eu e meu tempo estavam dentro do tempo da Copa, mas, naquela hora, dobrei o tempo da Copa, pois não me interessava aquele tempo, e fui dar sequência ao meu tempo. No caminho, o incrível contraste, todos vindo em minha direção, e então cruzamos, eles foram gritando e eu continuei no sentido da quadra, eu e minha bola. A Copa? E eu com isso com a Copa? Até hoje não esqueço aquela feliz sensação de liberdade. Meu tempo não havia sido globalizado. Ao contrário, eu havia colocado o círculo maior no menor.

O outro momento que vivi isso foi por ver uma cena semelhante, em que o personagem de fato estava passando por aquilo que passei. É uma cena espetacular do Império dos sentidos. A amante sai para ganhar dinheiro, vai se prostituir na casa de um velho professor. Fica lá durante um tempo não pequeno. E então chega o dia de voltar. Ele, o personagem masculino do filme, a espera. Prepara-se para ela. Vai ao barbeiro, corta o cabelo, faz a barba e, ao voltar para casa, cruza com a euforia e a disciplina de uma coluna militar. O Japão está em guerra. Há o cruzamento entre a coluna e ele, e ambos quase se tocam na rua estreita, mas não se enxergam. Para ele, há só o seu tempo. O tempo global, o tempo do Japão na guerra, não o admoesta, não rouba o seu tempo. Ele dobra o tempo global e o põe no bolso. Mais importante é viver o tempo dos sentidos, do sexo que virá. Olhando a cena de liberdade individual entendi o filme e recordei de quando eu também havia cruzado com os que foram sequestrados pelo tempo global.

O quanto podemos hoje, no âmbito da globalização avassaladora, viver a vida que é, como Safranski diz, a vida individual, ou seja, a nossa organização do nosso tempo que faz o tempo global ter de caber no círculo menor?

Muitos acreditam que não podem, que possuem a rotina do trabalho, a vida social extrema, o fruto colhido por outros que vai para a nossa mesa, queiramos ou não. Mas isso não é verdade. O tempo nosso individual continua sendo nosso. No trabalho, ele reaparece no modo que tratamos um colega; no caminho de volta, no modo que podemos ainda olhar os olhos de um cão; em casa, na maneira que somos capazes de se interessar pela vida do cônjuge. Dobrar o tempo maior e colocá-lo dentro de um tempo menor, o nosso, é a arte de organizar o tempo e, por isso mesmo, a arte de viver.

O mundo globalizado não nos sequestra. Basta sabermos viver nessa arte de fazer o maior caber no menor.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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9 Responses “Saber viver é saber fazer o maior caber no menor”

  1. Orquideia
    28/02/2016 at 05:56

    Quando o Brasil perdeu a última Copa,fiquei refém mesmo do “tempo maior”.
    Fiz uma poesia engraçada sobre o vexame,em meu perfil.
    Depois ri da minha “falta de personalidade”.

  2. Afonso
    27/02/2016 at 19:24

    Ótimo texto, Prof. Paulo – nos faz pensar em verdadeiros momentos de “epifania” . Difícil não ser engolido, tragado pelo tempo global/globalizado. Uma verdadeira arte equilibrar-se nessa lâmina.

  3. Gustavo
    27/02/2016 at 07:40

    Caro Paulo, vendo em seu texto os momentos em que a situação aludida por Safranski fez sentido pra você encontrei o meu próprio momento. Foi quando li o “Por que ler os clássicos” de Italo Calvino, já no primeiro capítulo, na 12ª definição do autor, onde ele discute sobre a dificuldade (e necessidade) de termos que nos dividir entre os clássicos e atualidades. Lembro-me de ter pensado bastante sobre isso, e hoje, depois de seu texto, posso colocar a situação da seguinte forma: para mim a arte de organizar o tempo estaria na dosagem entre ler os autores clássicos e saber viver o tempo do mundo sem ser engolido por ele.
    O seu texto faz pensar nas pessoas que vivem sufocadas dizendo que não tem tempo para nada.

    Inté.

    • 27/02/2016 at 09:55

      Gustavo, acho que você matou um problema, um deles ao menos.

  4. LENI SENA
    26/02/2016 at 23:21

    Quando estamos imerso e a vontade em nosso pequeno espaço o maior cabe no menor com sobra!
    Abraços, Paulo!

  5. Pedro Possebon
    26/02/2016 at 20:04

    Parabéns, belo texto. Após uma vitória do Brasil na copa de 2006 todos saíram para comemorar e eu fiquei olhando aquela algazarra. Virei para a minha mãe e disse “estou velho para isso”.
    O Jô sempre conta que o Getúlio, quando da instauração do estado novo ele mal comentou o assunto nos seus diários, como se tivesse pouca importância. Isso sim é tempo individual!

    • 27/02/2016 at 09:59

      Pedro, tenho orgulho de ser seu amigo. Agora, sobre a face do Getúlio, precisaríamos pensar.

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