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16/08/2017

Rousseau e o primado da intimidade


Tornou-se célebre na história das biografias o desentendimento entre Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e David Hume. O episódio não foi devido a qualquer problema filosófico, mas poderia ter sido. Rousseau esperava mais calor humano do que Hume, que o acolheu, poderia fornecer. Ora, se olharmos mais detidamente sobre como esses homens consideraram o dito enaltecido por Sócrates, o “conhece-te a ti mesmo”, talvez pudéssemos dizer que o que encontraram em si mesmos, filosoficamente falando, desde o início da relação iria torná-los adversários.

Rousseau iniciou um movimento de inflação do eu. Hume deu sequência a um movimento, talvez já iniciado por Pascal, de desinflação do eu. A história da subjetividade na filosofia teve nesses homens um caminho bifurcado. A filosofia de língua inglesa nunca deu muitas chances para um sujeito hipostasiado, ao contrário da filosofia continental, em especial a alemã.

Não à toa, alguém como Peter Sloterdijk, como bom filósofo alemão, mostra certa predileção por referências à “quinta caminhada” de Rousseau, em Os devaneios do caminhante solitário. Nesta parte, Rousseau registrou as impressões de sua estadia na Ilha de Saint-Pierre, no lago de Bienne, ao norte de Neuchâtel. Um dos lugares nos quais procurou retomar as dificuldades inerentes ao lema socrático.

Foi nesse período que escreveu sobre o seu repouso à beira do lago, deixando o ruído crescente do fluxo e refluxo da água atingir seus olhos e ouvidos. Descreveu esses ruídos com bela precisão: “supriam os movimentos internos que o devaneio extinguia em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem ter o trabalho de pensar”.  Nessa situação, de vez em quando “nascia alguma fraca e curta reflexão sobre a instabilidade das coisas deste mundo qual a superfície das águas me oferecia a imagem: mas, em breve, essa impressões leves se apagavam na uniformidade do movimento contínuo que me embalava, e que, sem nenhuma ajuda ativa de minha alma, não deixava de me fixar ”.

Nenhum leitor poderia deixar de notar, como é certo muitos não deixaram mesmo: a sua dispersão e, ao mesmo tempo, a concentração em algo que não o fazia pensar – uma concentração ou, melhor, fixação, “sem nenhuma ajuda ativa de minha alma”.

Em outra passagem da “quinta caminhada”, também especificamente apreciada por Peter Sloterdijk, Rousseau contou de como , de quando em vez, parava de remar no bote solitário no meio do lago, deixando as águas um pouco agitadas o transportar ao léu.  Disse encontrar aí uma “felicidade suficiente, perfeita, plena”. Ele mesmo perguntou o que estaria desfrutando em uma tal situação, dando então uma resposta de certo modo surpreendente: usufruímos nessa situação de “nada exterior a nós, de nada a não ser nós mesmos e de nossa própria existência; enquanto este estado dura bastamo-nos a nós mesmos como Deus”.  Este seria “o sentimento da existência, despojado de qualquer outro apego” que “é por si mesmo um sentimento precioso de contentamento e paz, que sozinho bastaria para tornar esta existência cara e doce a quem soubesse afastar de si todas as impressões sensuais e terrenas que vêm continuamente nos afastar dela e perturbar, na terra, sua suavidade”.

Ah! Que diferença de David Hume! Nada daquele sentimento de encontrar na investigação do eu impressões passageiras que poderiam caracterizá-lo como um teatro sem palco. Nenhuma desaprovação capaz de afirmar-se desconhecedora do eu. Rousseau, ao contrário, fixou-se em impressões quase repetitivas, e nisso se viu encontrar-se consigo mesmo. Ao encontrar-se consigo mesmo abraçou o sentimento da existência como o que, é certo, achamos que é de ser o próprio de Deus, cuja existência apenas ocorre, sem pensamento prévio.

Caso o romantismo não tivesse sido criado posteriormente, como movimento filosófico e literário, ainda assim ele teria existido, já pelas mãos de Rousseau, após essa “quinta caminhada”.

Quanto a mim, o trecho no qual já depositei predileções é aquele em que, no “Profissão de fé do Vigário de Saboia”, interno ao Emílio, Rousseau disse que antes de colocar uma verdade sobre o crivo das sensações ou do intelecto,  ele sempre checaria os enunciados diante de seu “coração sincero”. Nesse caso, Rousseau deixou ainda mais claro o quanto o seu eu não era desconhecível ou vazio, mas o local de um crivo de sentimentos, os quais deveriam, então, moralizar o saber para lhe dar algum valor epistemológico. Rousseau criou uma epistemologia moralizada.

Voltando-nos para nós mesmos, solitariamente, não encontraríamos nenhum vazio humiano ou pascaliano, mas também nada preenchido pela certeza como intuição intelectual do Cogito, como Descartes. Encontraríamos ou o sentimento de existência, como Deus, ou as disposições para o aval do saber, caso tivéssemos um coração ainda não corrompido pelas máscaras sociais. Rousseau inflou o eu, dando-o de bandeja para Kant, possibilitando que este o transferisse, logo em seguida, paro o campo transcendental. A partir daí, então, o eu enquanto nuclear à subjetividade, criaria a própria filosofia do sujeito, nas costas dos alemães, tendo sua culminância em Hegel, na forma de “espírito”.

 

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One Response “Rousseau e o primado da intimidade”

  1. Nelson
    03/10/2014 at 17:25

    Já me deixei ser levado e lavado pela sensação de “nenhuma ajuda ativa de minha alma”. Fiz isso algumas vezes em apneia, tanto no mar quanto em piscina, envolto por águas calmas.
    O silêncio pulsante das veias próximas ao tímpano me dava uma sensação universal de…. Caramba, eu estava no útero!

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